“Imagina você — um dia — receber uma ligação dizendo que a ONU declarou sua arte como tesouro da humanidade.”
Mestre Risadinha respirou fundo.
“Pois foi exatamente isso que aconteceu em 2014.”
O Que É a UNESCO e Por Que Isso Importa
A UNESCO é a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Entre suas muitas funções, ela mantém uma lista especial: o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não são prédios ou monumentos — é o contrário. São coisas que não se pode tocar, mas que definem quem somos: músicas, danças, rituais, tradições orais, saberes.
Fazem parte dessa lista o tango argentino, o flamenco espanhol, a ópera de Pequim, a pizza napolitana (sim, a pizza!), o yoga indiano — e, desde 26 de novembro de 2014, a Roda de Capoeira.
“Isso é gigante”, disse Mestre Risadinha. “A UNESCO olhou pra uma arte que nasceu em senzalas, que foi proibida por lei, que sobreviveu escondida — e disse: isso pertence ao mundo. Isso é valioso demais pra ser perdido.”
O Que o Título Significa na Prática
Ser Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade não é só um título bonito. Traz consequências reais:
- Proteção internacional: a capoeira passa a ser formalmente protegida. Governos são incentivados a criar políticas de preservação.
- Visibilidade: o reconhecimento da UNESCO abriu portas para mestres brasileiros em universidades, festivais e centros culturais do mundo inteiro.
- Financiamento: projetos de capoeira passaram a ter acesso a editais e fundos internacionais de cultura.
- Registro histórico: a candidatura à UNESCO gerou uma documentação imensa sobre a capoeira — pesquisas, entrevistas, registros audiovisuais que antes não existiam.
“Mas o mais importante”, ponderou o mestre, “é o que isso significa pra quem joga. Quando um menino da periferia de São Paulo bota o pé na roda, ele não tá fazendo uma atividade de contraturno. Ele tá praticando uma arte que o planeta inteiro reconheceu como tesouro. Isso muda a autoestima. Isso muda a vida.”
A Candidatura
O processo não foi simples. Começou em 2004, quando mestres, pesquisadores e o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) começaram a documentar a Roda de Capoeira para a candidatura. Foram dez anos de trabalho — mapeando grupos, registrando cantigas, catalogando toques, entrevistando velhos mestres.
“Teve debate”, lembrou Mestre Risadinha. “Qual capoeira inscrever? Angola? Regional? Contemporânea? No final, inscreveram a Roda de Capoeira como um todo — porque a roda é o que une todas as capoeiras.”
E a roda, de fato, é o elemento comum. Não importa o estilo, o grupo, o mestre: toda capoeira acontece dentro de um círculo de pessoas cantando e batendo palma. Aquele círculo — ancestral, democrático, vivo — foi o que a UNESCO abençoou.

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