Categoria: Curiosidades

Fatos surpreendentes, lendas e conexões da capoeira

  • A Capoeira Conquistou o Planeta — De Salvador a Tóquio

    A Capoeira Conquistou o Planeta — De Salvador a Tóquio

    “Quantos países vocês acham que têm capoeira hoje?”

    As respostas variaram: 10, 20, 50. Mestre Risadinha balançou a cabeça.

    “Mais de 150. A capoeira está em todos os continentes. Em alguns lugares, tem mais alunos de capoeira do que de judô e karatê somados.”

    Como Tudo Começou

    A internacionalização da capoeira começou nos anos 1970, quando os primeiros mestres brasileiros viajaram pra fora do país — principalmente para os Estados Unidos e a Europa. Eles iam fazer apresentações, dar workshops, e muitos acabavam ficando. A demanda era enorme.

    “Os americanos ficavam malucos”, riu Mestre Risadinha. “Imagina um país que só conhecia boxe e luta livre. De repente aparece um brasileiro com um berimbau, cantando em português, fazendo estrela sem mão. Os caras não acreditavam no que viam.”

    Dois mestres foram fundamentais nesse processo: Mestre Camisa, que expandiu a ABADÁ-Capoeira para mais de 60 países, e Mestre João Grande, aluno direto de Pastinha, que se estabeleceu em Nova York em 1990 e formou gerações de capoeiristas no hemisfério norte.

    Onde a Capoeira Está Hoje

    • Estados Unidos: maior comunidade de capoeira fora do Brasil. Tem grupos em praticamente todas as grandes cidades — Nova York, Los Angeles, Miami, São Francisco, Chicago. Universidades como Stanford e Harvard oferecem aulas de capoeira como atividade extracurricular.
    • Europa: França e Alemanha têm cenas fortíssimas. Em Paris, há dezenas de grupos ativos. Em Berlim, a capoeira é parte da cultura alternativa da cidade. Portugal e Espanha também têm comunidades grandes, facilitadas pelo idioma e pela conexão histórica.
    • Japão: o país tem uma relação especial com a capoeira. A ABADÁ e o Cordão de Ouro têm sedes em Tóquio, Osaka e outras cidades. Os japoneses abraçaram a capoeira com a mesma disciplina e dedicação que aplicam às artes marciais tradicionais.
    • África: a capoeira “voltou pra casa”. Em Angola, Moçambique, Senegal e África do Sul, grupos de capoeira florescem — e há um movimento interessante de capoeiristas africanos pesquisando as conexões entre a capoeira e as lutas tradicionais do continente. Uma volta às origens que fecha o círculo da história.
    • Israel e Oriente Médio: comunidades surpreendentemente grandes. Tel Aviv tem uma cena de capoeira vibrante, com vários grupos e eventos regulares.

    O Que a Internacionalização Trouxe

    “Tem gente que critica”, admitiu Mestre Risadinha. “Diz que a capoeira virou produto de exportação, que perdeu a essência, que os gringos não entendem a cultura. E tem verdade nisso. Mas também tem o outro lado.”

    O lado positivo: a capoeira se tornou uma das maiores ferramentas de soft power do Brasil. Através dela, milhões de estrangeiros aprendem português, estudam história afro-brasileira, ouvem cantigas de domínio público que carregam a memória da escravidão. É aula de história disfarçada de esporte.

    “E olha que bonito”, refletiu o mestre. “A arte que o Brasil passou um século tentando destruir — criminalizando, perseguindo, humilhando — se tornou o maior embaixador cultural que o país já teve.”

    Ele sorriu. “A capoeira deu a volta ao mundo. E o mundo agradeceu.”

  • Capoeira no Cinema — De Besouro ao Pantera Negra

    Capoeira no Cinema — De Besouro ao Pantera Negra

    “Alguém aqui já viu um filme com capoeira?”

    Várias mãos levantaram. Mestre Risadinha sorriu.

    “Então vocês já perceberam que o cinema ama a capoeira. Mas nem sempre amou pelos motivos certos.”

    Os Primeiros Passos no Cinema

    A primeira aparição notável da capoeira no cinema internacional foi em 1993, com o filme “Only the Strong” (“O Grande Desafio”, no Brasil). A história — um ex-fuzileiro naval que volta pra Miami e usa a capoeira pra disciplinar alunos problemáticos de uma escola — é um clichê do começo ao fim. Mas as cenas de luta, coreografadas com capoeiristas reais, foram revolucionárias pra época.

    “‘Only the Strong’ tem todos os defeitos de filme americano sobre Brasil”, comentou Mestre Risadinha. “Mas fez uma coisa importante: botou a capoeira no mapa. Depois dele, o mundo inteiro quis saber o que era aquela luta-dança que ninguém nunca tinha visto.”

    Besouro (2009)

    O primeiro grande filme brasileiro totalmente dedicado à capoeira. “Besouro“, dirigido por João Daniel Tikhomiroff e estrelado por Ailton Carmo, conta a história de Besouro Mangangá com uma mistura de realismo histórico e realismo mágico — Besouro literalmente vira besouro e voa em algumas cenas.

    “O filme não é documentário”, esclareceu o mestre. “É fantasia. Mas captura o espírito do Besouro — a rebeldia, a coragem, a mística. E as cenas de capoeira são de arrepiar.”

    O elenco contou com capoeiristas profissionais nas coreografias, e a trilha sonora trouxe cantigas tradicionais. Mesmo com críticas mistas, “Besouro” é um marco: o primeiro blockbuster brasileiro sobre capoeira.

    Madame Satã (2002)

    Antes de Besouro, o cinema brasileiro já tinha produzido uma obra-prima sobre um personagem da capoeira. “Madame Satã”, dirigido por Karim Aïnouz, com Lázaro Ramos no papel principal, é um retrato visceral da Lapa dos anos 1930. Não é um filme “de ação” — é um drama sobre identidade, resistência e marginalidade.

    Lázaro Ramos passou meses treinando capoeira para o papel. Suas cenas de luta são cruas, realistas, sem coreografia exagerada — refletindo a capoeira de rua que Madame Satã realmente praticava. O filme foi selecionado para o Festival de Cannes e ganhou prêmios internacionais.

    “Madame Satã” fez algo raro”, refletiu Mestre Risadinha. “Mostrou que a capoeira pode ser cinema de arte. Não precisa ser só filme de porrada.”

    Capoeira em Hollywood e Além

    De lá pra cá, a capoeira apareceu em dezenas de produções:

    • Pantera Negra (2018): as coreografias de luta dos Dora Milaje — as guerreiras de Wakanda — incorporam movimentos de capoeira. A luta de Okoye na Coreia tem ginga, esquiva e golpes circulares claramente inspirados na capoeira.
    • Tekken e Street Fighter (videogames): Eddy Gordo (Tekken) e Elena (Street Fighter) são personagens que lutam exclusivamente com capoeira. Eles apresentaram a arte marcial para uma geração inteira de gamers.
    • The Mandalorian (série): o dublê e coreógrafo Lateef Crowder, capoeirista americano, incorporou movimentos de capoeira nas cenas de luta da série.

    “O cinema entendeu”, concluiu o mestre. “A capoeira é bonita demais pra ficar escondida. E enquanto tiver câmera filmando, a roda continua girando.”

  • 2014 — O Ano em Que a UNESCO Abençoou a Capoeira

    2014 — O Ano em Que a UNESCO Abençoou a Capoeira

    “Imagina você — um dia — receber uma ligação dizendo que a ONU declarou sua arte como tesouro da humanidade.”

    Mestre Risadinha respirou fundo.

    “Pois foi exatamente isso que aconteceu em 2014.”

    O Que É a UNESCO e Por Que Isso Importa

    A UNESCO é a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Entre suas muitas funções, ela mantém uma lista especial: o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não são prédios ou monumentos — é o contrário. São coisas que não se pode tocar, mas que definem quem somos: músicas, danças, rituais, tradições orais, saberes.

    Fazem parte dessa lista o tango argentino, o flamenco espanhol, a ópera de Pequim, a pizza napolitana (sim, a pizza!), o yoga indiano — e, desde 26 de novembro de 2014, a Roda de Capoeira.

    “Isso é gigante”, disse Mestre Risadinha. “A UNESCO olhou pra uma arte que nasceu em senzalas, que foi proibida por lei, que sobreviveu escondida — e disse: isso pertence ao mundo. Isso é valioso demais pra ser perdido.”

    O Que o Título Significa na Prática

    Ser Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade não é só um título bonito. Traz consequências reais:

    • Proteção internacional: a capoeira passa a ser formalmente protegida. Governos são incentivados a criar políticas de preservação.
    • Visibilidade: o reconhecimento da UNESCO abriu portas para mestres brasileiros em universidades, festivais e centros culturais do mundo inteiro.
    • Financiamento: projetos de capoeira passaram a ter acesso a editais e fundos internacionais de cultura.
    • Registro histórico: a candidatura à UNESCO gerou uma documentação imensa sobre a capoeira — pesquisas, entrevistas, registros audiovisuais que antes não existiam.

    “Mas o mais importante”, ponderou o mestre, “é o que isso significa pra quem joga. Quando um menino da periferia de São Paulo bota o pé na roda, ele não tá fazendo uma atividade de contraturno. Ele tá praticando uma arte que o planeta inteiro reconheceu como tesouro. Isso muda a autoestima. Isso muda a vida.”

    A Candidatura

    O processo não foi simples. Começou em 2004, quando mestres, pesquisadores e o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) começaram a documentar a Roda de Capoeira para a candidatura. Foram dez anos de trabalho — mapeando grupos, registrando cantigas, catalogando toques, entrevistando velhos mestres.

    “Teve debate”, lembrou Mestre Risadinha. “Qual capoeira inscrever? Angola? Regional? Contemporânea? No final, inscreveram a Roda de Capoeira como um todo — porque a roda é o que une todas as capoeiras.”

    E a roda, de fato, é o elemento comum. Não importa o estilo, o grupo, o mestre: toda capoeira acontece dentro de um círculo de pessoas cantando e batendo palma. Aquele círculo — ancestral, democrático, vivo — foi o que a UNESCO abençoou.

  • O Sagrado na Roda — Capoeira, Candomblé e Espiritualidade

    O Sagrado na Roda — Capoeira, Candomblé e Espiritualidade

    “Fecha a roda. Baixa o berimbau. Respira.”

    Mestre Risadinha não estava dando aula de movimento. Estava dando aula de silêncio — aquela pausa que acontece antes de toda roda de verdade começar, quando o cantador saúda Deus, os orixás e os mestres que já se foram.

    “Vocês já perceberam que a capoeira, às vezes, parece uma religião?”

    Dois Mundos Que Se Cruzam

    A capoeira e as religiões afro-brasileiras — especialmente o Candomblé e a Umbanda — compartilham raízes profundas. Ambas vêm da África. Ambas foram perseguidas. Ambas sobreviveram disfarçadas, escondidas, misturadas com elementos do catolicismo pra enganar os senhores e as autoridades.

    “No tempo da escravidão”, explicou Mestre Risadinha, “os africanos não podiam cultuar seus deuses abertamente. Então escondiam os orixás atrás dos santos católicos. Ogum virava São Jorge. Iemanjá virava Nossa Senhora dos Navegantes. E na capoeira, acontecia a mesma coisa — a luta virava dança, a dança virava oração.”

    O berimbau, inclusive, tem origem nos rituais religiosos africanos. Antes de ser instrumento da capoeira, era usado em cerimônias de cura, de comunicação com ancestrais, de transe.

    Os Orixás na Roda

    Muitas cantigas de capoeira mencionam orixás diretamente. Iemanjá — a rainha do mar — aparece em “Tava na Beira do Mar” e em dezenas de outras cantigas. Ogum — o guerreiro, senhor dos metais e dos caminhos — é saudado em ladainhas como protetor dos capoeiristas. Xangô — o rei da justiça, senhor do trovão — é invocado quando a roda precisa de força e equilíbrio.

    “Mas tem um detalhe importante”, ponderou o mestre. “Você não precisa ser do Candomblé pra jogar capoeira. A capoeira é aberta. Mas se você não entende nada da espiritualidade que está nas cantigas, você tá jogando pela metade.”

    São Bento — o santo católico mais invocado na capoeira — é um exemplo perfeito dessa fusão. Protetor contra picadas de cobra e veneno, São Bento foi sincretizado com divindades africanas de cura. Quando Mestre Bimba cantava “Valha-me Deus, Senhor São Bento”, ele estava invocando uma proteção que atravessava dois mundos religiosos ao mesmo tempo.

    O Corpo Como Templo

    Na capoeira, há um conceito importante: o corpo fechado. É a crença de que o capoeirista pode ser protegido espiritualmente — por rezas, patuás (amuletos), fundamentos — contra o perigo. Besouro Mangangá era o maior exemplo: diziam que bala não pegava nele porque seu corpo estava “fechado”.

    “Corpo fechado não é superstição”, ensinou Mestre Risadinha. “É estado de espírito. É confiança. É você entrar na roda acreditando que tá protegido — pelo seu mestre, pelos que vieram antes, pelo axé da roda.”

    Ele fez uma pausa. “Mas não adianta ter corpo fechado e não treinar. Os orixás ajudam — mas a esquiva é sua.”

  • Capoeira na Guerra do Paraguai — Lutando Pela Liberdade

    Capoeira na Guerra do Paraguai — Lutando Pela Liberdade

    “Vocês já imaginaram um capoeirista no campo de batalha?”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Não precisa imaginar. Aconteceu.”

    O Contexto: Guerra do Paraguai (1864-1870)

    A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da América do Sul. Brasil, Argentina e Uruguai enfrentaram o Paraguai durante seis anos sangrentos. O Brasil, precisando desesperadamente de soldados, tomou uma decisão que mudaria a história da capoeira: recrutar — ou melhor, forçar — capoeiristas para lutar.

    Na época, os capoeiristas eram temidos nas ruas do Rio de Janeiro e Salvador. Eram habilidosos no corpo a corpo, rápidos, imprevisíveis. O governo brasileiro — o mesmo que criminalizaria a capoeira em 1890 — viu neles uma oportunidade. Mandou prender capoeiristas e os enviou para o front.

    “É uma das ironias mais cruéis da história”, comentou Mestre Risadinha. “A sociedade perseguia a capoeira, mas na hora da guerra, eram os capoeiristas que iam pra linha de frente.”

    O Batalhão dos Zuavos

    Os capoeiristas foram incorporados principalmente nos Zuavos Baianos — um batalhão de infantaria que ficou famoso por sua bravura. O nome “zuavo” vinha dos soldados argelinos que serviam no exército francês, conhecidos pela agilidade e pelo uso de táticas não convencionais — qualidades que os capoeiristas brasileiros compartilhavam.

    Há relatos históricos de que os capoeiristas baianos usaram suas habilidades de luta nos combates corpo a corpo. A ginga, a esquiva, os golpes de perna — tudo que era vantagem na roda se tornava vantagem no campo de batalha. Um soldado que sabia capoeira era mais difícil de atingir com baioneta e mais letal no combate próximo.

    “Mas a guerra não é roda”, lembrou o mestre, sério. “Muitos não voltaram. A capoeira perdeu uma geração inteira de praticantes nos campos do Paraguai. É uma parte triste da nossa história.”

    O Legado

    A participação dos capoeiristas na Guerra do Paraguai teve dois efeitos contraditórios. Por um lado, diminuiu temporariamente a presença da capoeira nas ruas — tanta gente morreu ou ficou no exército que as maltas se enfraqueceram. Por outro lado, os sobreviventes voltaram com status de heróis de guerra, e seu conhecimento de luta foi reconhecido — pelo menos entre o povo — como algo valioso.

    O governo, porém, não teve gratidão. Quando a guerra acabou e a República foi proclamada (1889), uma das primeiras leis do novo regime foi criminalizar exatamente aqueles que tinham lutado pelo país. O Código Penal de 1890 tornou a capoeira crime — uma traição que os capoeiristas nunca esqueceram.

    “A capoeira”, concluiu Mestre Risadinha, “sempre esteve disposta a lutar pelo Brasil. O Brasil é que nem sempre esteve disposto a lutar pela capoeira.”

  • Capoeira e Futebol — Os Dribles Que Nasceram na Roda

    Capoeira e Futebol — Os Dribles Que Nasceram na Roda

    “Sabe por que o futebol brasileiro é o mais bonito do mundo?”

    Mestre Risadinha fez a pergunta e já foi respondendo: “Porque nasceu do lado da capoeira.”

    Os alunos — muitos deles fanáticos por futebol — se inclinaram. Essa eles queriam ouvir.

    A Ginga Que Saiu da Roda e Foi Pro Campo

    Não é força de expressão. A ginga do futebol brasileiro — aquela malícia, aquele drible de corpo, aquele jeito de enganar o marcador com o quadril — tem DNA de capoeira. E não é teoria de torcedor: é história documentada.

    No começo do século XX, o futebol chegou ao Brasil como esporte de elite — praticado por filhos de ingleses e brasileiros ricos em clubes como o Fluminense e o São Paulo Athletic. Os negros e pobres não entravam. Mas assistiam. E quando começaram a jogar — nas várzeas, nos campinhos de terra — trouxeram com eles tudo que sabiam: o drible de corpo da capoeira, a finta da roda, a malícia do jogo de dentro.

    “O primeiro grande driblador brasileiro”, contou Mestre Risadinha, “foi um cara chamado Arthur Friedenreich. Filho de alemão com brasileira negra, ele alisava o cabelo pra esconder as raízes crespas e poder jogar nos clubes de elite. E driblava como ninguém. A ginga dele vinha da rua — e a rua era território da capoeira.”

    Dois Gênios, Uma Raiz

    O maior exemplo da conexão capoeira-futebol é Garrincha — Manoel Francisco dos Santos, o Anjo das Pernas Tortas. Garrincha não fez escolinha de futebol. Aprendeu a driblar na rua, em Pau Grande, e seus movimentos tinham a mesma lógica da capoeira: corpo mole, quadril solto, ginga que engana.

    “Olha o drible da vaca do Garrincha”, pediu o mestre. “Ele jogava a bola pra um lado, passava pelo outro, e o marcador ficava plantado. Isso é capoeira. Isso é fazer o outro achar que você vai pra esquerda enquanto você vai pra direita. Malícia pura.”

    O outro gênio é Pelé. O futebol de Pelé — sua agilidade, seus dribles de corpo, sua capacidade de flutuar entre zagueiros — é frequentemente comparado à capoeira por estudiosos do esporte. Embora não haja documentação direta de que ele tenha praticado capoeira, seus movimentos carregam a mesma lógica de esquiva, improviso e malícia que definem a arte.

    “Didi, o inventor da folha seca, também tinha capoeira no sangue”, acrescentou Mestre Risadinha. “O jeito que ele batia na bola — o corpo caindo, a perna subindo — parece uma meia-lua de compasso. Só que em vez de acertar o adversário, acertava o ângulo da trave.”

    Da Roda ao Campo: Movimentos Que São Iguais

    • Ginga → Drible de corpo: o balanço lateral da capoeira é o mesmo que o atacante usa pra despistar o zagueiro.
    • Meia-lua de compasso → Bicicleta: o movimento giratório que Leônidas da Silva imortalizou na Copa de 1938 — “o Diamante Negro” — tem a mesma mecânica da compasso.
    • Rasteira → Carrinho: a rasteira da capoeira e o carrinho do futebol são primos — a diferença é que no futebol você mira a bola, e na capoeira, o pé do colega.
    • Esquiva → Finta: o jeito de tirar o corpo da linha de ataque na capoeira é idêntico ao drible de corpo que deixa o zagueiro no chão.

    “O futebol brasileiro”, concluiu Mestre Risadinha, “é a capoeira que trocou o pé descalço pela chuteira, e o berimbau pela torcida.”