O Lagarto Que Fala Nossa Língua

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O Lagarto Que Fala Nossa Língua

Antes da ufologia, o réptil já habitava o fundo de todos os nossos mitos — a serpente que conversa no Éden, os nagas da Índia, o dragão que guarda o tesouro no fim do mundo. Mas há um detalhe que separa o lagarto moderno dos antigos: ele não sibila em língua morta. Ele fala a nossa língua. E é exatamente essa intimidade que torna o encontro insuportável — a familiaridade do predador conosco.

Entre as décadas de 1960 e 1990, uma linhagem de relatos descreveu, com espantosa coerência anatômica, seres de sangue frio que caminhavam eretos, conversavam e pareciam compreender nossas instituições. O lagarto não escolheu profetas: escolheu testemunhas — um policial de Nebraska, um jardineiro inglês, um ex-jornalista esportivo. Cada um, à sua maneira, ouviu o réptil falar.

O que sabemos

Na madrugada de 3 de dezembro de 1967, o policial Herbert Schirmer patrulhava a rodovia 63, perto de Ashland, Nebraska, quando viu um objeto de luz avermelhada descer à sua frente. O motor da viatura morreu; o rádio emudeceu; e Schirmer, horas depois, percebeu que não lembrava de nada. Sob hipnose, conduzida pelo psicólogo R. Leo Sprinkle, ele descreveu seres de pouco mais de um metro e meio, de pele acinzentada, rosto alongado e olhos oblíquos, trajando mantos escuros encapuzados — figuras que muitos leitores, décadas depois, descreveriam como reptilianas. Os seres se comunicaram por telepatia, mostraram-lhe a nave e o deixaram partir com uma ordem: esquecer.

O Comitê Condon, contratado pela Força Aérea para encerrar a questão dos discos voadores, arquivou o caso com ceticismo: sonho, sugestão ou farsa, concluiu o relatório — sem, contudo, provar nenhuma das três. Schirmer manteve o relato pelo resto da vida, e o caso permanece um dos mais citados da ufologia policial.

Em fevereiro de 1989, na cidade inglesa de Preston, o morador John Rhodes viu em seu jardim, pouco depois das duas da manhã, uma figura de quase dois metros: pele escamosa e acinzentada, olhos vermelhos sem pálpebra, mãos de três dedos terminadas em garras, uma cauda que se movia com lentidão. Rhodes desenhou o que viu com um detalhe incomum para um leigo — e seus desenhos se tornaram referência do tipo reptiliano na literatura do fenômeno, reproduzidos em dezenas de obras sobre o tema.

Em 1999, o ex-jornalista esportivo David Icke publicou O Maior Segredo e transformou o lagarto em teoria de poder: linhagens reptilianas que se disfarçam de humanos, infiltradas nas famílias que governam o mundo, capazes de mudar de forma e de controlar a história dos bastidores. Icke não inventou o réptil moderno — mas foi quem lhe deu um trono.

O que une os relatos contemporâneos à mitologia antiga — das divindades-serpente da Mesoamérica aos dragões europeus — é a constância da anatomia: escamas, sangue frio, olhos sem pálpebra, língua que fende o ar. A forma muda de século, mas o corpo permanece, como se a imaginação humana só conseguisse imaginar um único réptil.

O que não sabemos

Não se sabe se Schirmer recordou um evento ou um sonho. A hipnose, como no caso Hill, produz convicção sem produzir prova: o policial nunca deixou de acreditar, e nunca conseguiu convencer ninguém além de si mesmo. Entre os dois extremos — a verdade e a fantasia — existe uma terceira possibilidade que ninguém soube excluir: a de que ele tenha visto o que a mente, sozinha, fabricou para explicar o inexplicável.

Não se sabe por que a fisiologia reptiliana, tão distante da nossa, permanece tão próxima dos nossos medos. O cérebro humano responde à imagem de uma serpente com uma rapidez que nenhum outro estímulo iguala: o lagarto talvez seja o predador mais antigo que nossa espécie aprendeu a temer, gravado em um alfabeto anterior à linguagem. O neurocientista Paul MacLean popularizou a ideia do cérebro reptiliano — a camada mais primitiva da mente, onde moram o instinto e a frieza. Talvez o lagarto moderno seja apenas a personificação disso: o instinto que herdamos, vestido de visitante.

E não se sabe, naturalmente, se Icke fala de seres ou de símbolos. Sua tese é irrefutável na forma e inverificável na prática: um castelo que não se pode derrubar porque não se pode tocar — e é precisamente essa intocabilidade que o torna, para milhões de leitores, tão sólido.

O que está em jogo

Se existirem linhagens reptilianas entre nós, a história humana seria uma cortina: política, economia, guerras — teatro encenado para um sangue frio que decide nos bastidores. Nada do que chamamos de poder seria o que parece; a cidadania seria um cenário; e a eleição, um ritual para distrair os de sangue quente. É uma narrativa que confere sentido à impotência — e por isso, talvez, seja tão difícil de abandonar.

Se for metáfora, o lagarto continua em jogo. Toda instituição tem seu predador interno; todo poder tem sua frieza; toda burocracia tem seus olhos sem pálpebra. A pergunta sobre quem fala a nossa língua sem ser um de nós é, no fundo, a pergunta sobre a empatia — e sobre a sua ausência nas salas onde o mundo é decidido.

A pergunta que permanece

O lagarto que fala nossa língua talvez não seja um viajante. Talvez seja a figura que inventamos para nomear aquilo que, dentro da civilização, já não sente nada — o olhar sem pálpebra dos gabinetes, o sangue frio das planilhas, a precisão sem remorso do cálculo.

Quando um homem no poder nos olha sem piscar, é um réptil — ou é apenas o nosso reflexo no espelho mais antigo que existe? A pergunta permanece. E o olhar não desvia.

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