A tarde de 8 de janeiro de 1981 não parecia destinada a entrar nos arquivos. Sobre a planície de Trans-en-Provence, no sudeste da França, o inverno assentava uma luz baixa e fria, e Renato Nicolai trabalhava em seu jardim, à beira da casa de pedra, quando um silvo fino, quase um lamento metálico, rompeu o silêncio da tarde. O que ele viu a seguir — um objeto em forma de disco que desceu do céu, pousou no gramado a poucos metros dele e subiu de novo, deixando o chão marcado — transformou aquele pedaço de terra em um dos endereços mais estudados da história do fenômeno.
Pela primeira vez, e quase pela única, um órgão oficial de um governo debruçou-se sobre vestígios físicos de um pouso, tocou a prova com instrumentos e, ao final dos trabalhos, não conseguiu fechá-la. O caso ficou conhecido como o mais bem documentado de sua categoria: a ciência tocou a evidência, e a evidência não se deixou explicar.
O que sabemos
O essencial do relato é singelo, quase banal. Nicolai, um agricultor então com 55 anos, descreveu um aparelho com cerca de um metro e meio de altura e pouco mais de dois metros e meio de diâmetro, de metal acinzentado, com uma cúpula central e dois apoios que se estenderam quando tocou o solo. Conforme seu depoimento, ele permaneceu imóvel enquanto o objeto descia a cerca de trinta metros de distância e pousava sem levantar poeira. O disco teria ficado no jardim apenas alguns instantes — o suficiente para que o homem gravasse cada detalhe — e então subido com um movimento rápido, deixando para trás um desenho circular sobre a terra e sobre a alfafa plantada.
A diferença entre este caso e milhares de outros não está na testemunha, mas no que veio depois. Avisado do ocorrido, o GEPAN, o Grupo de Estudos de Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados, vinculado ao CNES, a agência espacial francesa, deslocou investigadores até o local. Colheram amostras de solo e de plantas — tanto da área atingida quanto de áreas de controle — e as enviaram a laboratórios especializados. A investigação se estendeu por meses e envolveu entrevistas, reconstituições no terreno e uma cadeia de custódia rigorosa das amostras.
Os resultados foram publicados em um relatório técnico que permanece, décadas depois, como uma das peças mais singulares da literatura sobre o assunto. As plantas do local apresentavam alterações bioquímicas, entre elas perda de clorofila e mudanças nos pigmentos, que nenhum agente conhecido explicava com segurança. O solo mostrava sinais de compactação e de um tipo de exposição para a qual não havia causa natural evidente. O GEPAN concluiu, em linguagem contida de funcionários públicos, que os vestígios eram reais e que nenhuma explicação convencional os justificava.
O que não sabemos
O relatório oficial descreve a anomalia, mas não a explica. Não se sabe que tipo de energia poderia ter produzido as alterações nas plantas daquele jardim; não se sabe por que o solo ficou comprimido em um desenho tão regular; não se sabe o que era o objeto, de onde veio, para onde foi. As hipóteses comuns — balões, brincadeiras, fenômenos meteorológicos, máquinas agrícolas — foram examinadas e descartadas uma a uma pelos próprios investigadores, que conheciam o terreno e as possibilidades locais melhor do que ninguém. Anos depois, análises céticas tentaram reduzir as anomalias a processos comuns, como o crescimento de fungos no solo; mas as objeções nunca cobriram, ponto por ponto, o conteúdo do relatório original.
O que resta é um fato estranho e pouco confortável: um pedaço de gramado na Provença carrega a assinatura de algo que a ciência mediu, fotografou, comparou — e não reconheceu. A anomalia não foi refutada; foi apenas arquivada.
O que está em jogo
O caso de Trans-en-Provence é incômodo porque desloca a discussão do céu para o laboratório. Quando um vestígio físico sobrevive à análise de uma instituição estatal, o fenômeno deixa de ser apenas testemunho e passa a ser evidência — e evidência sem explicação é uma dívida que a ciência carrega sem confessar. Se as plantas daquele jardim foram realmente alteradas por algo que desceu do ar, então a física conhecida tem uma lacuna do tamanho de um disco de dois metros e meio.
Se, por outro lado, houve erro de análise, ninguém até hoje demonstrou qual. O silêncio em torno do caso é também um dado: instituições não costumam gastar anos estudando um gramado, a menos que o gramado lhes tenha dito algo que prefeririam não ouvir.
A pergunta que permanece
Quarenta anos depois, o jardim de Nicolai já não existe como ele o conhecia, e o agricultor partiu sem resposta. Mas o relatório do GEPAN continua nas prateleiras dos arquivos, à espera de quem o releia com os instrumentos de hoje. Se a ciência tocou a prova e não a fechou, o que será preciso — que instrumento, que coragem, que acaso — para que a toque de novo?
Seu corpo é uma usina de dados. A cada segundo, você gera batimentos cardíacos, ondas cerebrais, impulsos elétricos musculares, variações de temperatura e condutância da pele — tudo analógico, tudo gratuito, tudo seu. O Apple Watch e o Galaxy Ring transformam esses sinais em métricas que vivem em servidores que você nunca visitou, dentro de algoritmos que você nunca auditou. Mas existe um caminho alternativo — e ele não exige PhD em engenharia biomédica. Exige vontade de soldar, ler datasheets e aprender que a biometria pode ser tão DIY quanto montar um PC gamer.
O Espectro do Wearable: Do Gadget de Luxo ao Sensor Artesanal
O mercado de wearables comerciais gira em torno de conveniência: notificações no pulso, anéis que pagam contas, óculos que tiram fotos. Mas o verdadeiro potencial dos wearables está na captura de sinais biológicos brutos — e nisso, os dispositivos de prateleira são terrivelmente limitados. Eles te dão a métrica processada (“seu VO2 max é 42”), mas raramente te dão acesso ao sinal que gerou a métrica. E sem o sinal, você não pode experimentar. É aí que entra o biohacking DIY.
O OpenBCI é o projeto-ícone dessa mentalidade: uma placa open-source de aquisição de sinais biológicos (EEG, EMG, ECG) que entrega os dados brutos via Bluetooth ou Wi-Fi. Com cerca de US$500-1000 dependendo do kit, você pode capturar ondas cerebrais e controlar um drone com o pensamento — ou apenas registrar seus ciclos de sono com precisão clínica. Menos ambicioso (e mais barato): o sensor de frequência cardíaca MAX30102 custa R$30 no AliExpress e se comunica via I2C com qualquer ESP32. O oxímetro MAX30100 faz o mesmo. O AD8232 é um amplificador de ECG de derivação única — por R$40, você mede a atividade elétrica do seu coração com mais resolução do que qualquer smartwatch de R$3.000.
Anéis, Luvas, Jaquetas: Wearables Que Você Constrói
Os projetos da comunidade são o coração pulsante dessa revolução. Anéis inteligentes com NFC usando o ESP32-C3 e antenas de cobre impressas em filme flexível já são realidade — o ESP32 NFC Ring documenta o processo completo. Luvas com sensores de movimento IMU (como o MPU-6050) capturam a orientação de cada dedo e alimentam ambientes de VR/AR sem precisar de hardware proprietário — o projeto LucidGloves tem documentação aberta e comunidade ativa. Jaquetas com matrizes de LED endereçáveis (WS2812B) costuradas no tecido transformam roupa em display, e guias da Adafruit ensinam a programar padrões animados com CircuitPython em uma tarde. O que une todos esses projetos é a mesma filosofia do movimento cyberdeck: você não usa tecnologia — você veste tecnologia que você mesmo construiu.
O Corpo É o Último Território Que as Big Techs Querem Conquistar
Em 2026, a Apple patenteia algoritmos de predição de saúde mental a partir de dados de pulso. O Google Fit coleta métricas de atividade física de bilhões de usuários. A Whoop vende assinatura para acessar seus próprios dados de sono. O biohacking DIY é a resposta a essa colonização silenciosa do corpo: se o dado é gerado por você e processado por você, ele não é commodity — é patrimônio pessoal. O OpenBCI, o ESP32 com MAX30102, o ECG no seu protoboard — são ferramentas de descolonização biométrica. Não é sobre rejeitar a medicina ou a ciência. É sobre decidir quem tem a chave de criptografia dos seus batimentos cardíacos.
Tutorial: Anel NFC com ESP32-C3 e Antena de Cobre Flexível
O projeto mais acessível e de alto impacto. Você vai precisar de: um ESP32-C3 SuperMini (R$30), um módulo leitor NFC PN532 (R$40), uma antena de cobre impressa em filme flexível ou fio de cobre esmaltado enrolado no formato do anel, uma bateria LiPo de 50mAh e um carregador TP4056. O firmware é escrito em Arduino IDE com a biblioteca Adafruit PN532 — o ESP32-C3 lê tags NFC e armazena os UIDs em memória. A mágica está na antena: você pode imprimir uma espiral de cobre em filme flexível usando uma CNC de PCB ou simplesmente enrolar fio esmaltado 30AWG em um molde do tamanho do seu dedo (5-8 voltas). O alcance é curto (2-3 cm), mas suficiente para desbloquear portas, autenticar pagamentos via emulação de tag ou disparar automações no Home Assistant quando você encosta o anel num leitor. O gabinete pode ser impresso em resina transparente com uma Anycubic Photon — o resultado é um anel de aparência cyberpunk que faz coisas que nenhum Oura Ring faz.
Soberania Biométrica: A Filosofia do Wearable DIY
Em Neuromancer, Molly Millions tem implantes oculares que amplificam sua visão e lâminas retráteis sob as unhas — modificações corporais que são ao mesmo tempo ferramentas e afirmações de autonomia. O biohacking contemporâneo segue a mesma lógica: hackear o corpo não como fim estético, mas como exercício de soberania sobre os próprios dados biológicos. Cada batimento cardíaco que você registra no seu servidor local é um batimento que o Google não monetiza. Cada onda cerebral que o OpenBCI captura e armazena no seu NAS é uma métrica que nenhuma seguradora pode usar contra você. Em 2026, quando planos de saúde já precificam com base em dados de smartwatch, a decisão de construir seus próprios sensores é uma decisão bio-política. Seu corpo, seu hardware, seus dados — ou, como os console cowboys já sabiam nos anos 80: o corpo é só mais uma interface.
O que é real? A pergunta parece filosofia de bar, mas desde 1999 o cinema transformou esse enigma em sequências de tirar o fôlego. Os cinco filmes deste bloco compartilham uma obsessão: a instabilidade da realidade. Cada um, à sua maneira, implanta uma dúvida que não se resolve nos créditos finais. Você sai da sala. Mas a sala não sai de você.
Matrix (1999) — Lana e Lilly Wachowski
“Você já teve um sonho que parecia muito real?” A pergunta de Morpheus para Neo inaugurou um novo milênio de paranoia digital e filosofia pop. As Wachowski pegaram Platão, Descartes, Baudrillard, anime japonês, cinema de artes marciais de Hong Kong e kung fu — e cozinharam uma mitologia que engoliu a cultura popular inteira. O bullet-time — 120 câmeras fotográficas em arco disparando em sequência — congelou o tempo e fatiou o espaço numa cena que o cinema ainda tenta imitar. Mas o gênio de Matrix não foi técnico: foi tornar a dúvida metafísica acessível a qualquer pessoa que já tenha desconfiado dos próprios sentidos. A pílula vermelha virou meme, metáfora política e gíria de internet. Mas a cena que realmente importa talvez seja mais silenciosa: Cypher, o traidor, mordendo um bife falso e dizendo “eu sei que este bife não existe, mas ele é tão suculento e delicioso”. É a confissão mais humana do filme — e a mais aterrorizante.
Clube da Luta (1999) — David Fincher
A primeira regra do Clube da Luta dispensava apresentações. A segunda também. O filme de Fincher estreou sob críticas divididas e bilheteria morna, para depois se tornar o filme-culto-definitivo da geração que trocou o sonho americano pelo colapso nervoso. O Narrador (Edward Norton) sofre de insônia, consome catálogos da IKEA e frequenta grupos de apoio a doenças que não tem — até encontrar Tyler Durden (Brad Pitt), um saboneteiro existencialista que prega a destruição como libertação. A reviravolta do terceiro ato — um dos grandes plot twists do cinema — reconfigura cada frame assistido até ali. Fincher escondeu Tyler em frames subliminares muito antes da revelação: splice de um único fotograma aqui, um flash ali, o eco de uma presença que o Narrador não reconhece. A fotografia de Jeff Cronenweth banhou tudo em verde fluorescente doentio e sombras densas — o mundo visto através de uma lâmpada de escritório às três da manhã. E a frase “As coisas que você possui acabam possuindo você” nunca mais saiu da cabeça de ninguém.
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) — Michel Gondry
O coração eventualmente cansa de blockbusters e perseguições. E quando ele cansa, existe Gondry — o artesão francês que transformou devices narrativos complexos em poesia artesanal pura com cenários feitos à mão, truques de câmera analógica e zero CGI. Joel (Jim Carrey) descobre que Clementine (Kate Winslet) apagou todas as memórias do relacionamento deles. Decide fazer o mesmo. Mas durante o procedimento — uma máquina que deleta lembranças enquanto o paciente dorme — Joel percebe, lá no fundo do seu inconsciente em retirada, que não quer esquecer. Charlie Kaufman escreveu um roteiro que mapeia o território mais íntimo que existe — a memória afetiva — e Gondry filmou usando cenários que literalmente desmoronam, se apagam e se dissolvem. A praia de areia que vira cama, a casa na memória que perde a fachada, a livraria que se desfaz enquanto eles correm. Tudo construído com efeitos práticos, marionetes e truques de perspectiva. Carrey, num raro papel dramático, entrega a fragilidade de um homem lutando para manter viva a mulher que já perdeu — dentro de sua própria cabeça.
O Show de Truman (1998) — Peter Weir
Truman Burbank não sabe que é o protagonista do maior reality show do planeta. Cada pessoa em Seaheaven é ator. Cada cenário é falso. O sol nasce no horário do roteiro. Jim Carrey — de novo ele, no papel que provou que comediantes são os melhores atores dramáticos — encarna a suspeita universal de que “tem alguma coisa errada, mas ninguém me conta o quê”. Peter Weir filmou com câmeras escondidas reais, ângulos de vigilância e lentes de segurança — a estética do panóptico — para que o espectador seja a audiência do programa dentro do filme. A genialidade está na ambiguidade moral: nós rimos, nos emocionamos e torcemos por Truman — mas somos, o tempo todo, cúmplices do voyeurismo que o aprisiona. Andrew Niccol escreveu o roteiro em 1991, uma década antes do Big Brother estrear. Antes do Instagram. Antes dos influencers. O Show de Truman não previu a tecnologia da vigilância — previu a vontade de ser vigiado.
Amnésia / Memento (2000) — Christopher Nolan
Antes de dobrar cidades e buracos negros, Nolan dobrou o próprio tempo narrativo numa fita cassete de filme noir. Memento conta a história de Leonard Shelby (Guy Pearce), um homem que não consegue formar novas memórias — e tatua pistas no próprio corpo para caçar o homem que matou sua esposa. O truque: as cenas coloridas correm de trás para frente, enquanto as cenas em preto-e-branco correm para frente. As duas linhas se encontram no clímax — que é também o começo da história. É o filme mais puramente estrutural de Nolan: não há espetáculo visual, não há orçamento milionário — há apenas a arquitetura do tempo servindo de prisão narrativa. Cada cena colorida começa com o resultado de algo que ainda não vimos, forçando o cérebro a trabalhar no sentido inverso da causalidade. E quando as duas linhas temporais finalmente colidem — quando a verdade sobre a tatuagem “John G. raped and murdered my wife” se revela — a reação não é choque. É vertigem.
O Labirinto Invertido
Cinco filmes sobre a fragilidade da percepção. Cinco labirintos que não estão no cenário — estão dentro de quem assiste. Matrix duvida do mundo. Clube da Luta duvida do eu. Brilho Eterno duvida da memória. Truman duvida da sociedade. Memento duvida do tempo. Nenhum oferece resposta. E é exatamente por isso que seguimos assistindo.
Quem observa um tocador de berimbau de perto percebe um detalhe curioso: na mão que segura a verga, ele mantém um pequeno objeto — uma pedra ou uma moeda — que pressiona o arame em determinados momentos. Esse gesto discreto é a chave da afinação e da melodia do instrumento. A pedra e o dobrão são, na verdade, o comando do berimbau.
O papel da pedra e do dobrão
O berimbau produz sons diferentes conforme a tensão do arame. Ao pressionar a corda com um objeto rígido, o tocador encurta a parte vibrante, elevando a nota. Ao afastar o objeto, a corda volta ao comprimento total e a nota desce. É assim, alternando pressão e liberação, que o berimbau desenha sua melodia característica.
O objeto usado para essa pressão pode ser uma pedra lisa, recolhida à beira de rios e praias, ou um dobrão — a antiga moeda de cobre de grande valor no Brasil colonial. Ambos cumprem a mesma função, e a escolha entre um e outro é, em grande parte, uma questão de tradição, de disponibilidade e de preferência pessoal.
A pedra e o dobrão são segurados entre o polegar e o indicador, de modo a permitir movimentos rápidos e precisos. O toque deve ser firme o suficiente para interromper a vibração do arame, mas ágil o bastante para liberar o som no instante exato. É um gesto pequeno, porém carregado de técnica.
Os três sons do berimbau
A combinação entre baqueta, dobrão e cabaça produz os três sons básicos do berimbau. O som solto, grave e aberto, surge quando o dobrão não toca o arame e a cabaça fica encostada ao corpo. O som preso, mais agudo, aparece quando o dobrão pressiona o arame e a cabaça continua encostada. E o som chiado, seco e sem ressonância, acontece quando o dobrão encosta no arame e a cabaça se afasta do corpo.
É com essas três vozes que o tocador constrói os toques da capoeira — Angola, São Bento Grande, Benguela, Iúna e tantos outros. Cada toque é uma combinação rítmica desses sons, e dominá-los exige coordenação fina entre a mão da baqueta, a mão do dobrão e o movimento da cabaça contra o ventre.
A riqueza do berimbau está justamente nessa economia de recursos: com apenas três sons básicos, o instrumento é capaz de expressar uma enorme variedade de ritmos e de nuances. É a habilidade do tocador que transforma essa simplicidade em música viva.
A afinação na prática
Afinação, no berimbau, não significa girar cravelhas como em um violão. Ela se faz de duas maneiras: ajustando a tensão do arame na verga e modulando a pressão do dobrão durante a execução. O tocador experiente combina as duas técnicas, corrigindo a altura das notas conforme o toque e o andamento da roda.
O dobrão funciona, assim, como um freio melódico: pressionado em pontos diferentes do arame, permite ao berimbau “falar”, produzindo inflexões que lembram a voz humana. Essa expressividade é o que faz do berimbau um instrumento tão singular, capaz de dialogar com os jogadores e de conduzir toda a energia da roda.
Na bateria, cada berimbau tem sua afinação própria: o gunga, mais grave, o médio, intermediário, e o viola, mais agudo. Juntos, eles formam um conjunto harmônico em que a pedra e o dobrão de cada tocador desempenham papel essencial na construção do todo.
Tradição e simbolismo
A pedra e o dobrão carregam também um valor simbólico. O dobrão remete ao Brasil colonial, ao mundo do trabalho escravizado e das trocas portuárias, de onde muitos elementos da capoeira vieram. A pedra, por sua vez, liga o instrumento à natureza, aos rios e à terra — uma conexão que a cultura popular brasileira sempre soube cultivar.
Nas mãos do tocador, esses objetos simples se transformam em instrumento de comando. Quem segura o dobrão segura, em certo sentido, a roda inteira: é por meio daquelas pressões sutis no arame que o berimbau dita o ritmo, o jogo e o humor de todos. A pedra e o dobrão são, portanto, muito mais do que acessórios — são a voz que a capoeira aprendeu a obedecer.
Para quem deseja aprender, o primeiro conselho é simples: observar. Ver um tocador experiente segurar o dobrão, perceber a delicadeza do gesto e ouvir como cada pressão muda o som ensina mais do que qualquer descrição. Depois, vem a prática, lenta e paciente, até que o objeto se torne uma extensão natural da mão. Com o tempo, o aprendiz descobre que a pedra e o dobrão não são apenas ferramentas, mas companheiros de uma longa jornada musical. E entende, enfim, por que os mestres antigos guardavam seus dobrões com tanto zelo: ali, naquele pequeno objeto, estava guardado o segredo da voz do berimbau.
Bom dia! Este é o Resumão Tech da quarta-feira, 21 de outubro de 2026. O assunto que parou a internet foi o PHP2Shell, duas falhas críticas no PHP, a linguagem por trás de uns 70% dos sites, achadas com ajuda de IA e corrigidas às pressas. A Tesla viu o lucro cair 43%, prometeu vender o Cybercab ainda este ano e começou a fabricar o Optimus na Califórnia. A Meta vai criar ações sem direito a voto para bancar a IA, a OpenAI levou seus modelos para a nuvem do Google, a Anthropic apresentou o Claude Duet e a Recursive soltou um modelo de programação que roda no notebook. A SpaceX quer pegar os dois estágios da Starship com a torre no próximo voo. Na bancada, a Espressif lança o ESP-Mosaico, alguém fez uma placa barata de visão estéreo para robôs e o Raspberry Pi Pico ganhou servidor SSH. Na robótica, além do Optimus, um exoesqueleto de mão open source e um enxame de robozinhos que aprendeu a trabalhar em equipe.
1. PHP2Shell: duas falhas antigas no PHP, achadas com IA, derrubam sites pelo mundo
O projeto PHP lançou as versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 e 8.2.35 para corrigir duas vulnerabilidades críticas (CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619) que permitem a um invasor sem login executar código no servidor. Segundo o php.net, o risco vale para toda instalação que atende páginas, seja PHP-FPM, Apache com mod_php, php-cgi, FrankenPHP ou LiteSpeed, e é maior no mod_php. A Wiz, que batizou o caso de PHP2Shell, diz que toda versão lançada na última década é afetada por pelo menos uma das falhas. A NSA, agência americana, e o centro de cibersegurança do Reino Unido recomendaram tirar do ar o que não pudesse ser atualizado na hora, e sites como 4chan, DeviantArt e Wikipedia tiveram problemas, enquanto órgãos de governo da Holanda e da Finlândia desligaram páginas por precaução, segundo o The Verge.
O detalhe que define a época é como as falhas foram achadas. A empresa de testes Calif, dentro do programa “Patch the Planet” da OpenAI, achou uma delas com o GPT-5.6 Sol, e a Wiz encontrou outras usando seu agente Wiz Atlas, o Gemini 4 Argon e o próprio GPT-5.6 Sol. Os bugs estavam ali havia anos, mas explorá-los exigia uma cadeia de passos tão complexa que quase ninguém conseguia; com IA, essa barreira caiu, como alerta a própria Wiz. O WordPress lembrou que a falha não é dele, é do PHP: quem tem site precisa conferir com a hospedagem se o servidor já está numa versão corrigida.
2. Tesla: lucro cai 43%, Cybercab à venda até o fim do ano e FSD sem supervisão só em 2027
A Tesla fechou o terceiro trimestre com receita de US$ 28,04 bilhões, praticamente igual à do mesmo período de 2025, e lucro líquido de US$ 787 milhões, 43% menor, segundo o TechCrunch. Foram 486.532 carros entregues, a área de energia caiu 16%, para US$ 2,8 bilhões, e a de serviços, que inclui a assinatura do FSD, subiu 33%, para US$ 4,6 bilhões. O que comeu o lucro foi o gasto com IA, direção autônoma e o robô Optimus, que aparece lá embaixo, na seção de Robótica.
Na teleconferência, o vice-presidente de engenharia Lars Moravy disse que a empresa vai começar a vender o Cybercab, o táxi autônomo de dois lugares sem volante, a clientes até o fim do ano, começando pequeno. Já a versão sem supervisão do FSD para os donos de Tesla ficou para o segundo trimestre do ano que vem, mais um adiamento. Pesa contra o plano uma investigação da NHTSA, a agência americana de segurança viária, sobre se o Cybercab atende às normas.
3. Meta vai criar ações sem direito a voto para pagar a conta da IA
A Meta faturou US$ 64 bilhões no terceiro trimestre, alta de 26% em um ano, mas os custos e despesas subiram 68%. Na teleconferência, a diretora financeira Susan Li confirmou que a empresa vai criar uma nova classe de ações sem direito a voto, distribuída a todos os acionistas como dividendo em ações, para usar em captação de dinheiro, remuneração de funcionários e aquisições preservando o poder de voto dos acionistas atuais e a estrutura comandada pelo fundador.
É um sinal do tamanho da conta: a corrida da IA já exige formas novas de financiamento, até para uma das empresas mais lucrativas do mundo. Zuckerberg repetiu que o assistente Muse passou de 10 milhões de usuários nos EUA e no Canadá e disse que a empresa entra agora numa fase focada em escalar o produto.
4. Modelos da OpenAI chegam ao Google Cloud e, em breve, ao Antigravity
A OpenAI e o Google Cloud anunciaram uma parceria para colocar os modelos de ponta da OpenAI e o agente de programação Codex no Model Garden, o catálogo de modelos do Google Cloud. Empresas vão poder comprá-los pelo Google Cloud Marketplace e abater do valor que já se comprometeram a gastar com o Google. Os modelos também devem chegar “em breve” ao Antigravity, o ambiente de programação com agentes do Google, e ao Gemini Agent. A disponibilidade geral está prevista para as próximas semanas.
A própria OpenAI faz questão de dizer que a Microsoft continua sendo sua principal parceira de nuvem. Mesmo assim, ver o GPT dentro da casa do Gemini, um dia depois de o Google abrir o TorchTPU, mostra que a briga agora é para estar onde o cliente já trabalha.
5. Anthropic lança o Claude Duet, um agente pessoal que trabalha sozinho
A Anthropic apresentou o Claude Duet, em prévia de pesquisa com lista de espera aberta só para assinantes do Claude nos EUA. Ele monta um resumo diário com pendências dos apps conectados, executa tarefas que vão de marcar reuniões a montar painéis e protótipos, roda numa máquina virtual própria, mesmo com o Claude fechado, e pede confirmação antes de agir em nome do usuário. Usa o modelo Opus 5.5 e ganha apps próprios para Android e iOS.
É a resposta da Anthropic ao Muse, da Meta, e aos Dots, da OpenAI. Segundo o Engadget, o Duet deve chegar ao plano Pro, de US$ 20 por mês, quando sair da prévia, enquanto os Dots exigem planos a partir de US$ 100. A empresa diz que o agente consulta as contas a cada poucas horas para não estourar os limites do plano, nunca vê senhas nem tokens de acesso e só repassa dados de saúde ou finanças com autorização explícita.
6. Recursive lança o Flint, modelo de programação que roda no notebook e foi feito quase todo por IA
A Recursive, startup de Richard Socher, ex-cientista-chefe da Salesforce, lançou seu primeiro modelo, o Flint, gratuito no Hugging Face sob licença Apache 2.0. É um modelo de mistura de especialistas com 40 bilhões de parâmetros, dos quais só 2,5 bilhões trabalham a cada passo, o que o deixa leve o bastante para um notebook comum. Nos testes da empresa, ele gerou cerca de 131 tokens por segundo num MacBook Pro com M4 Pro, uns o dobro de modelos parecidos, e liderou o SWE-Bench Verified entre os modelos com menos de 50 bilhões de parâmetros.
O curioso é o processo: o sistema de pesquisa automatizada da empresa, o Eureka Machine, ajudou em quase todas as etapas, e uma equipe pequena construiu o modelo do zero em menos de quatro meses, sempre sob supervisão humana. Para quem programa, a vantagem é prática: trabalhar offline, com o código em casa e sem pagar por uso. A própria Recursive avisa que ele precisa de mais orientação que os grandes assistentes pagos.
7. SpaceX vai tentar pegar os dois estágios da Starship com a torre no próximo voo
O Super Heavy na aproximação final para ser pego pelos braços da torre, em 2024. Foto: Steve Jurvetson, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Na mesma teleconferência com investidores, Musk anunciou que o voo de teste 15 da Starship, que pode acontecer já no mês que vem, vai tentar capturar com os “palitinhos” da torre não só o booster Super Heavy, como já foi feito antes, mas também o estágio de cima, a Ship. A empresa exibiu uma simulação da manobra. No voo 14, os dois estágios caíram no mar, e a Ship teve a viagem encurtada por falha num motor.
Pegar a Ship é bem mais difícil, porque ela volta de mais alto e mais rápido que o booster. É a peça que falta para um foguete totalmente reutilizável, e, segundo a Ars Technica, a SpaceX mira chegar a lançamentos semanais no começo de 2027.
Espressif lança o ESP-Mosaico, placa modular feita para programar com IA
O ESP-Mosaico, com tela quadrada de 480 × 480 pixels. Imagem de divulgação: Espressif, via CNX Software
Anunciado pela Espressif e detalhado pela CNX Software nesta quarta, o ESP-Mosaico é um módulo de bolso com tela OLED sensível ao toque de 480 × 480 pixels, vibração, bateria, USB-C e conectores de expansão. Dentro está o novo ESP32-S31, um chip RISC-V de até 320 MHz com 512 KB de SRAM, até 32 MB de PSRAM, Wi-Fi 6, Bluetooth 5.4, rádio 802.15.4 e Ethernet de 1 Gbps. Os módulos, como câmera e botões, são reconhecidos sozinhos, e vários Mosaicos sabem a posição uns dos outros, o que permite jogos e painéis que se espalham por várias telas.
A proposta é programar conversando: no modo Chat Coding, o agente ESP-Claw gera o app a partir de um pedido em linguagem natural; no Vibe Coding, agentes de IA implementam, gravam e testam no hardware. Segundo a CNX, o kit completo com câmera e módulo de interação sai por US$ 59 na loja oficial, e a bateria extra por US$ 15.
Uma placa barata de visão estéreo para dar noção de distância a robôs
O maker Ryan Walker projetou uma placa de visão estéreo que faz sozinha a captura e o cálculo de profundidade, sem depender de um computador. Ela usa o chip Rockchip RV1103 (Arm Cortex-A7 de 1,1 GHz e 64 MB de RAM) com duas câmeras OV9281 e roda Linux montado com Buildroot. O motor de vídeo do chip compara pedaços das duas imagens em hardware, e a diferença de posição entre elas vira distância, como fazem os nossos olhos. A ideia é ligar a placa por serial a um robô com Arduino, que ganha desvio de obstáculos sem gastar processamento. É um projeto pessoal ainda em evolução, não um produto à venda.
Agora dá para entrar por SSH num Raspberry Pi Pico
Ricardo Marques colocou um servidor SSH num microcontrolador RP2040, usando a placa WIZnet W5500-EVB-Pico, que junta o chip do Pico a um controlador de rede com porta Ethernet. O firmware, feito no PlatformIO, está no GitHub e também funciona com um Pico comum e um módulo W5500 separado. Por enquanto ele só liga, desliga e pisca o LED da placa, mas mostra um jeito simples e seguro de controlar um projeto pela rede local.
Um Optimus em demonstração num evento da Tesla. Foto: Steve Jurvetson, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
A Tesla anunciou que começou a fabricar o humanoide Optimus na fábrica de Fremont, na Califórnia, num espaço que antes montava carros. Na carta aos acionistas, a empresa diz que são os primeiros robôs com qualidade de produção e que o processo já serve para um produto comercial. Musk chamou a fase de “produção inicial”, avisou que o ritmo vai crescer devagar e aos solavancos e admitiu que ainda falta muito trabalho na IA para o robô ser útil em tarefas abertas. Mesmo assim, ele afirma que a Tesla fará 20 mil Optimus por semana até o fim de 2027, uma meta que, pelo histórico de prazos da empresa, vale olhar com cautela.
TAKTO ONE, um exoesqueleto de mão open source que grava e reproduz movimentos
Para o mestrado na Universidade de Ciências Aplicadas de Anhalt, na Alemanha, o engenheiro Sebastian Molano construiu o TAKTO ONE, um exoesqueleto de mão de código aberto. Uma braçadeira com até 10 servos Dynamixel XC330, controlados por uma Teensy 4.1, puxa “tendões” de cabo que movem duas articulações de cada dedo, com encoders magnéticos, sensores de movimento e um sensor de atividade muscular MyoWare 2.0. Ele pode ajudar quem tem pouca força nos dedos e também gravar uma sequência de movimentos para reproduzir depois, o que abre a ideia de “sentir” na mão como um pianista toca. Não está à venda, mas os arquivos estão no GitHub para quem quiser montar.
Robôs com Raspberry Pi aprendem a trabalhar em equipe vendo um robô só
Pesquisadores do AIST, do Instituto de Ciência de Tóquio e da Universidade de Tóquio treinaram um grupo de robôs Raspberry Pi Mouse V3, cada um com um Raspberry Pi 4 e uma Camera Module 3, para recolher 28 blocos laranja espalhados num espaço de 3,5 metros e empurrá-los para o centro. O treino usou só demonstrações de uma pessoa pilotando um robô por joystick, inclusive com outros robôs se mexendo em volta, e nenhum robô conversa com os outros. A rede neural, com 2,4 milhões de parâmetros, roda direto no Raspberry Pi, sem GPU, cinco vezes por segundo.
A Floresta Nacional de Sitgreaves, no Arizona, é feita de pinheiros altos, estradas de terra e silêncio. Na tarde de 5 de novembro de 1975, uma equipe de sete lenhadores voltava do trabalho numa caminhonete quando Mike Rogers, o encarregado, avistou uma luz brilhando entre as árvores, à frente da estrada. Eles pararam. A luz cresceu: um disco metálico, com cerca de seis metros de diâmetro, flutuando a poucos metros do chão, emitindo um zumbido grave e um brilho azul-esverdeado. Travis Walton, 22 anos, abriu a porta e desceu, contra a vontade dos colegas.
O que aconteceu em seguida foi visto por seis homens e contado por eles da mesma forma durante toda a vida: Walton aproximou-se do objeto; um feixe de luz o atingiu; ele foi arremessado para trás, como se tivesse levado um golpe invisível. Rogers gritou para os outros voltarem ao caminhão. Eles fugiram. A poucos quilômetros, arrependeram-se, voltaram — e o disco tinha sumido. Com ele, Travis Walton.
O que ficou registrado
Durante cinco dias, o condado de Navajo viveu um pesadelo. O xerife Marlin Gillespie organizou buscas com cães e helicópteros; a equipe foi interrogada exaustivamente; e, quando nada foi encontrado, a suspeita voltou-se contra os próprios lenhadores: a acusação implícita era a de assassinato — teriam matado Walton e escondido o corpo. Os seis homens mantiveram a mesma história sob pressão, interrogados separadamente, repetida centenas de vezes. Na noite de 10 de novembro, cinco dias e seis noites depois do desaparecimento, Walton telefonou de um posto de gasolina em Heber, no Arizona, a poucos quilômetros do local — vivo, abatido, com barba por fazer e sem uma explicação coerente. Os jornais do Arizona estamparam a manchete do retorno no dia seguinte, e a pequena cidade de Snowflake, de repente, era o centro do mundo. Levado ao hospital, relatou ter acordado dentro de uma nave, sobre uma mesa, cercado por seres de aparência humana com capacetes, antes de desmaiar de novo e acordar na estrada. A história virou livro — The Walton Experience, escrito por ele em 1978 — e filme: Fire in the Sky, de 1993, que transformou o caso no relato de abdução mais famoso da ufologia americana. O episódio tem página própria na trajetória documentada de Walton.
O que não se explica
A ciência da dúvida, aqui, é quase tão estranha quanto a história. Os lenhadores fizeram polígrafos: Walton passou; Rogers, o encarregado, também; os resultados dos demais foram lidos como inconclusivos ou falhos pelos céticos — que viram aí a confissão — e como puro pânico pelos defensores, o pânico de homens que testemunharam algo impossível. Não há vestígio físico no local: nenhuma marca de pouso, nenhuma radiação, nenhum objeto esquecido. Walton tinha motivos para mentir? Os céticos dizem que sim — dívidas, um contrato de extração de madeira em risco, a perspectiva de um livro e de um filme. Os defensores respondem com a pergunta inversa: sete homens sustentaram a mesma mentira por décadas, sob juramento, sob polígrafo, sob escrutínio nacional, sem nunca tropeçar numa versão diferente? O xerife Gillespie, que desconfiou de todos no começo, terminou dizendo que acreditava em Walton — e passou o resto da vida sem conseguir provar nem uma coisa nem outra.
O que está em jogo
O caso Walton é o espelho onde a ufologia americana se olha. Para os crentes, é a prova de que abduções acontecem: seis testemunhas, polígrafo, um sumiço de cinco dias com direito a busca oficial. Para os céticos, é a demonstração de como uma boa história — com dinheiro no fim — pode vencer a evidência. E para o resto de nós, é o retrato de uma dúvida que não se resolve: cinco dias é tempo demais para um pesadelo e pouco demais para uma mentira perfeita. O caso alimentou a indústria inteira de relatos que veio depois — dos sequestros das décadas de 1980 aos documentários de hoje — e manteve viva a pergunta que nenhum polígrafo consegue responder: o que acontece com um homem quando o mundo inteiro decide que ele está mentindo, e ele sabe que não está?
A pergunta que fica
A estrada da Floresta Nacional de Sitgreaves ainda existe e ainda leva a lugar nenhum. Travis Walton carregou a história pelo resto da vida — o livro, o filme, as entrevistas, os céticos nos estúdios de televisão — sempre com a mesma versão, palavra por palavra, década após década. A pergunta que o caso deixa não é se o disco era real; é mais funda. Sete homens viram algo que não conseguiram explicar e passaram a vida sendo chamados de mentirosos por metade do mundo e de escolhidos pela outra. Num universo onde a verdade é medida por polígrafos e contratos de livro, o que resta de um homem que voltou — e que nunca, em cinco décadas, contou a história de outra maneira?
O cinema não nasceu com manual de instruções. A cada década, um diretor olhou para a tela e se perguntou: “e se fosse diferente?” Não é sobre história — é sobre gramática. Os cinco filmes que abrem esta série não apenas contam boas histórias: eles inventaram como as histórias podem ser contadas. Cada um quebrou uma regra que ninguém sabia que existia — e inaugurou um vocabulário que o cinema usa até hoje, muitas vezes sem crédito.
Cidadão Kane (1941) — Orson Welles
Um homem morre sussurrando “Rosebud”. E o cinema nunca mais foi o mesmo. Orson Welles tinha 25 anos — vinte e cinco — quando dirigiu, co-escreveu e protagonizou o filme que décadas de críticos elegeriam como o maior de todos os tempos. O que Kane fez não foi contar bem uma história — foi mostrar que a câmera podia pensar. A profundidade de campo extrema (objetos no primeiro plano e no fundo simultaneamente nítidos, algo que exigia lentes especiais e iluminação potente), os tetos visíveis (sim, antes de Welles ninguém mostrava o teto dos cenários), a narrativa não-linear que reconstrói uma vida por fragmentos de memória alheia — tudo era novo. Gregg Toland, o diretor de fotografia, levou a câmera ao chão, furou cenários, filmou de baixo para cima. Citizen Kane é a certidão de nascimento do cinema moderno. Tudo que veio depois — de Scorsese a Nolan — deve algo àquele trenó queimando na fornalha.
O Poderoso Chefão (1972) — Francis Ford Coppola
A Paramount não queria Marlon Brando. Nem Al Pacino. Nem aquele diretor barbudo de 31 anos que só fizera filmes pequenos. Coppola brigou por cada escolha e entregou a epopeia familiar que transformou gângsteres em tragédia grega — e a penumbra em linguagem. O diretor de fotografia Gordon Willis — apelidado “O Príncipe das Trevas” pelos colegas por filmar constantemente um stop abaixo do recomendado — usou sombras tão densas que os executivos do estúdio acharam que o laboratório havia estragado o negativo. A fotografia de O Poderoso Chefão é um manifesto visual: a escuridão não esconde — ela revela. Os olhos de Brando em subexposição, a luz de topo que corta os rostos como navalhas, o contraste entre a penumbra dos negócios e a luz dourada do casamento siciliano. Willis provou que não iluminar também é iluminar. E a atuação de Brando como Vito Corleone — com bochechas de algodão, voz sussurrada e o gato no colo que ele improvisou — redefiniu o que significava “estar” em cena. Não era interpretação. Era possessão.
Pulp Fiction (1994) — Quentin Tarantino
Em 1994, Tarantino pegou a linha do tempo e fez um origami. Pulp Fiction é um filme que começa no meio, termina no começo e no caminho transforma assassinos em filósofos de lanchonete. A estrutura não-linear não era inédita — Cidadão Kane já fizera, Rashomon também. Mas ninguém havia usado o embaralhamento temporal como comédia. Os diálogos de Tarantino — páginas e páginas de conversa sobre hambúrgueres, massagem nos pés e o metro de Amsterdã — são a verdadeira ação do filme. Vincent e Jules discutindo trivialidades antes de uma execução não é filler: é a tese de que a vida acontece nas pausas. A trilha sonora garimpada em vinis raros, os letreiros amarelos, a dança de Uma Thurman e John Travolta no Jack Rabbit Slim’s — cada frame respira cultura pop digerida e regurgitada como alta arte. Tarantino não inventou a referência. Ele fez da referência o próprio texto.
2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) — Stanley Kubrick
Um osso gira no ar e se transforma em nave espacial. Em um único corte — o mais famoso match cut da história — Kubrick comprimiu três milhões de anos de evolução humana. 2001 não é um filme para ser entendido — é um filme para ser experimentado. Os primeiros 25 minutos não têm diálogo. Os últimos 23 minutos são pura abstração visual. No meio, HAL 9000 — o computador que sente medo de morrer — entoa “Daisy Bell” enquanto é desligado, no que talvez seja a cena mais comovente de toda a ficção científica. Kubrick coreografou naves espaciais ao som de valsa de Johann Strauss — “Danúbio Azul” — porque entendeu que o espaço não precisava soar épico. Precisava soar belo. O balé das naves e estações orbitais, embalado pela valsa vienense, redefiniu a relação entre música e imagem. Cada frame de 2001 poderia ser pendurado numa galeria. E o filme continua, quase sessenta anos depois, absolutamente intraduzível.
Laranja Mecânica (1971) — Stanley Kubrick
Se 2001 olhava para o cosmos, Laranja Mecânica olhava para dentro do crânio — e o que encontrou era aterrorizante. Kubrick adaptou Anthony Burgess criando uma sinfonia de ultraviolência coreografada com música clássica, zooms abruptos e uma linguagem visual que oscila entre o expressionismo alemão e a Pop Art britânica. A “cura Ludovico” — prisão das pálpebras com grampos cirúrgicos para forçar Alex a assistir a imagens de horror — permanece como a metáfora definitiva sobre o livre-arbítrio e o totalitarismo comportamental. O dilema: é melhor um homem mau que escolhe o mal, ou um homem “bom” que foi programado para não ter escolha? Kubrick filmou com lentes ultra-grande-angulares que distorcem os cantos da imagem, criando um mal-estar permanente que o espectador sente sem conseguir explicar. Malcolm McDowell, com cílios postiços num olho só, sorriso de tubarão e uma bengala que é arma e cetro, pariu o anti-herói mais carismático e repulsivo do cinema. Beethoven nunca mais soou igual.
O Fio Invisível
Cinco filmes. Cinco sismos. O que os une não é gênero, época ou estilo — é a recusa em aceitar as regras herdadas. Cada um deles, à sua maneira violenta ou sutil, violou a linguagem vigente e a substituiu por algo que ninguém havia visto antes. E o cinema, como toda língua viva, só existe porque alguém, um dia, decidiu falar errado.
Poucas imagens sintetizam a capoeira antiga com tanta força quanto a da navalha. Instrumento cortante que os capoeiristas de outrora escondiam entre os dedos dos pés, a navalha se tornou símbolo de um tempo em que o jogo podia ser, literalmente, questão de vida ou morte. A cantiga “A Navalha Tá Cortando” é uma herdeira direta dessa memória, transformada em aviso e em malícia dentro da roda.
A navalha na história da capoeira
Nos séculos XIX e início do XX, a capoeira era praticada em um contexto de violência real. Capoeiristas das maltas cariocas e baianas usavam a navalha como arma, presa ao pé ou entre os dedos, e a utilizavam em confrontos de rua e em disputas entre grupos. A repressão policial e a criminalização da prática tornavam o ambiente ainda mais hostil, e a arma era, para muitos, uma questão de sobrevivência.
As maltas, organizações de capoeiristas que dominavam regiões do Rio de Janeiro imperial, protagonizaram disputas violentas, e a navalha era presença constante nesses confrontos. A imagem do capoeirista com a navalha no pé atravessou gerações e se fixou no imaginário popular, aparecendo em relatos, crônicas e, mais tarde, no cinema e na literatura.
Essa realidade deixou marcas profundas na cultura da capoeira. Mesmo depois que a navalha saiu das rodas, sua presença simbólica permaneceu, como memória de um passado de dureza e como metáfora da mandinga — a habilidade de vencer pela astúcia, não apenas pela força. É nesse terreno que a cantiga se enraíza.
O sentido da cantiga
“A Navalha Tá Cortando” é uma cantiga de aviso. Na tradição da capoeira, o canto cumpre funções práticas: orienta o jogo, comanda a roda e comunica mensagens que nem sempre podem ser ditas abertamente. Uma cantiga sobre a navalha serve, portanto, para alertar, para marcar território e para lembrar a todos da seriedade do que está em jogo.
Ao cantar que a navalha está cortando, o cantador evoca um código compartilhado. O coro responde, a bateria sustenta o ritmo e a mensagem circula pela roda. O jogador atento entende o recado: é preciso abrir o olho, redobrar a malícia e respeitar os limites. A cantiga, assim, é menos uma ameaça real do que a atualização de uma memória de perigo.
Como acontece com muitas cantigas tradicionais, os versos variam de grupo para grupo, e é difícil estabelecer uma versão única e definitiva. A transmissão oral, ao longo de gerações, foi acrescentando e modificando estrofes, o que é parte da riqueza — e do mistério — desse repertório.
Malícia e mandinga
A navalha é, na capoeira, a expressão máxima da malícia. Mais do que violência, ela representa a capacidade de dissimular, de surpreender, de estar sempre um passo à frente. O capoeirista malicioso não precisa da arma: sua navalha é o jogo de corpo, a finta, o olhar que engana.
Essa dimensão é o que separa a capoeira de uma luta comum. Na roda, vence quem convence, quem faz o parceiro acreditar no que não vai fazer. A cantiga da navalha condensa essa filosofia: ela fala de um corte que, no jogo moderno, é feito com inteligência, não com aço.
A mandinga, conceito tão caro à capoeira, tem aqui sua expressão mais clara. Mandingueiro é aquele que domina o jogo por dentro, que conhece os segredos da roda e que sabe, com um gesto ou um verso, mudar o rumo do jogo. A navalha, na cantiga, é também um lembrete dessa herança.
Memória e transformação
Hoje, a navalha não pertence mais à prática da capoeira. As rodas são, em sua imensa maioria, espaços de celebração, aprendizado e confraternização, e a violência real foi deixada para trás. Mas a cantiga permanece, e com ela a memória de um passado que não pode ser esquecido.
Cantar “A Navalha Tá Cortando” é, portanto, um gesto de memória: é lembrar de onde a capoeira veio, das durezas que atravessou e da sabedoria que construiu para sobreviver. É também uma celebração da transformação — a mesma navalha que cortava agora corta o ar da roda, em um jogo que escolheu a arte no lugar da violência.
Essa memória também foi celebrada pelo cinema e pela literatura. O personagem de Besouro, o capoeirista lendário da Bahia, tornou-se símbolo dessa capoeira de coragem e de resistência, e sua história foi recontada em filmes que ajudaram a popularizar a imagem do capoeirista destemido. Embora envoltos em lenda, esses relatos guardam um fundo de verdade: a capoeira nasceu e cresceu em um ambiente de opressão, e seus praticantes precisaram de muita coragem para mantê-la viva. Cantar a navalha, hoje, é também homenagear essa coragem, transformando em arte o que um dia foi necessidade.
Bom dia! Este é o Resumão Tech da terça-feira, 20 de outubro de 2026. Um dia depois de a Amazon lançar o TorchNeuron, o Google abriu o código do TorchTPU, e a briga contra o domínio da Nvidia passou a ser travada dentro do PyTorch. A SpaceX divulgou um trimestre em que a inteligência artificial já responde por mais da metade da receita, e os conselhos dela e da Tesla montaram comitês para estudar uma fusão. Um S-1 vazado da Anthropic mostrou prejuízo bilionário e falta de nuvem. A OpenAI comprou uma startup de biotecnologia e passou a deixar trancar conversas com PIN, o Gemini ficou mais pessoal no carro e o Muse, da Meta, entrou num clube de apps que tem só uma dúzia de membros. Na bancada, um chip LoRa que vira rádio definido por software, um kit de controle para o Arduino UNO Q e a história de um crachá com ESP32 que quase saiu do orçamento. Na robótica, a Eka impressiona com uma garra que sente força, humanoides montam peças de humanoides na China e o Digit vai para uma fábrica de máquinas agrícolas.
1. Google abre o TorchTPU, e o PyTorch passa a rodar direto nas TPUs
Placa com quatro TPUs v3, os chips de IA do Google, com refrigeração líquida. Foto: Zinskauf, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Na PyTorch Conference 2026, o Google anunciou que o TorchTPU, sua implementação nativa do PyTorch para os chips TPU, agora é código aberto no GitHub. Desenvolvido junto com o time do PyTorch na Meta, ele roda os modelos com poucas mudanças no código, suporta o modo eager para depurar e o torch.compile para produção, e já foi validado nos 5 mil modelos mais baixados do Hugging Face, segundo o blog do PyTorch. No Transformers v5, mandar um modelo para a TPU passa a ser questão de usar device_map="tpu". Junto vieram novos motores de inferência vLLM e SGLang para TPU, ambos sob licença Apache 2.0, e uma “TPU agent suite”, ainda em prévia, para ajudar a migrar código.
O contexto é o mesmo do Resumão de ontem: o PyTorch nasceu casado com as GPUs da Nvidia, e é aí que mora a maior vantagem dela. Com Amazon e Google oferecendo a troca de chip por uma mudança de configuração, a decisão passa a ser de preço e disponibilidade, não de reescrever código. Isso não quer dizer que a debandada vai acontecer, como lembra o TechCrunch, mas o fosso do software ficou mais raso.
2. SpaceX: a IA já é mais da metade da receita, e Tesla e SpaceX estudam uma fusão
A SpaceX publicou na terça o resultado do terceiro trimestre: US$ 14,6 bilhões de receita, alta de 161% em um ano, segundo o comunicado entregue à SEC. O segmento rebatizado de “Super Intelligence”, que reúne a nuvem de IA da empresa (1,7 GW de computação, segundo o TechCrunch), a ferramenta de programação Cursor, comprada recentemente, e o Grok, faturou cerca de US$ 7,5 bilhões, uns 52% do total, segundo o TechCrunch, e deu US$ 431 milhões de lucro operacional, mesmo com US$ 1,2 bilhão de despesa pontual em ações ligada à compra do Cursor. Do outro lado, o investimento foi de US$ 19,6 bilhões no trimestre, e a empresa prevê de US$ 35 bilhões a US$ 40 bilhões no quarto. Musk disse que o próximo voo de teste da Starship, esperado para novembro, vai tentar recuperar os dois estágios.
Na mesma conferência com investidores, Musk contou que os conselhos da SpaceX e da Tesla formaram comitês especiais de conselheiros independentes para avaliar uma fusão. Ele diz apoiar a ideia, mas avisou que não é certa e que, por ser parte interessada, não participa das conversas; nenhum termo foi acertado. Na Tesla, a aprovação exigiria mais de 50% de todos os acionistas, não só dos que votam.
3. S-1 vazado da Anthropic: prejuízo de US$ 80,7 bilhões e briga por nuvem com os próprios sócios
O Wall Street Journal teve acesso ao documento de abertura de capital (S-1) da Anthropic, e o TechCrunch resumiu os números. No primeiro semestre, a empresa teve US$ 16,3 bilhões de receita e US$ 80,7 bilhões de prejuízo líquido, com dois clientes respondendo por cerca de um quinto das vendas. O documento diz que a Anthropic tem dificuldade para conseguir capacidade de nuvem suficiente com AWS, Google e Microsoft, que cada vez mais a veem como concorrente, e que pode gastar mais de US$ 750 bilhões em contratos de nuvem, parte ainda em negociação.
Para compensar, ela aluga data centers próprios e trabalha com operadores menores, mas admite que eles têm “histórico operacional limitado”. O S-1 também alerta que a empresa pode ser responsabilizada por danos causados por comportamento nocivo da IA em valores acima do seguro disponível. Na semana passada, a Anthropic disse a investidores que a receita do terceiro trimestre chegou a US$ 16,8 bilhões, alta de 45% sobre o anterior; a abertura de capital é esperada para novembro, segundo a imprensa americana.
4. OpenAI compra a Orchestra Bio para levar agentes ao desenvolvimento de remédios
A OpenAI anunciou a compra da Orchestra Bio, startup de San Francisco fundada em 2022 que faz agentes de IA para acompanhar programas de desenvolvimento de medicamentos. O exemplo dado pela OpenAI: se um lote de fabricação falha e ameaça atrasar um ensaio clínico, o agente mapeia quais atividades e prazos são afetados e compara alternativas, mas a decisão final continua com cientistas e gestores. Os valores não foram divulgados; a startup tinha captado cerca de US$ 20 milhões.
A equipe vai para o Rosalind, a família de modelos e ferramentas da OpenAI para biologia e química, que já tem Moderna e Novo Nordisk entre os clientes. O nome, inevitavelmente, lembra Rosalind Franklin, a cientista da Foto 51. A lógica do negócio é que o modelo ajuda a decidir o que testar, e a Orchestra cuida do que vem depois, num processo que leva de 10 a 15 anos até a aprovação nos EUA. É mais um sinal de que os grandes laboratórios estão comprando, em vez de só competir com, quem faz software para setores grandes como o farmacêutico.
5. ChatGPT ganha conversas trancadas com PIN ou biometria, mas não é cofre criptografado
A OpenAI começou a liberar os Locked Chats: dá para trancar uma conversa com um PIN de quatro dígitos ou, em aparelhos compatíveis, com Face ID ou Touch ID. A conversa sai do histórico normal, das fixadas e da busca, e vai para uma seção própria. Com a Memória ligada, essa seção tem memória separada, para que o que se fala ali não vaze para as conversas comuns. O recurso vale para os planos Free, Go, Plus, Pro, Business, Enterprise e Edu, e a liberação é gradual.
Dois avisos importantes, dados pela própria OpenAI. Trancar não cria criptografia de ponta a ponta nem cofre criptografado, não muda o tempo de retenção nem a opção de usar os dados para treinar modelos. E redefinir o PIN apaga de vez todas as conversas e arquivos trancados. Ou seja: serve para o celular emprestado ao sobrinho, não para segredo de Estado.
6. Gemini no carro passa a ler sua agenda, seu e-mail e suas fotos, se você deixar
O Google começou a liberar o Personal Intelligence do Gemini no Android Auto, e nos próximos meses nos carros com Google integrado. Com a permissão do usuário, o assistente cruza dados do Gmail, da Agenda, do Google Fotos, do Maps, do YouTube e da Busca para responder sem que o motorista precise dar contexto: “qual é o portão do meu voo, e ele está no horário?” vira uma pergunta só, e “leve-me ao lava-rápido da foto da semana passada” funciona sem abrir a galeria.
O recurso é opcional e cada app pode ser ligado ou desligado. Nos carros com Google integrado, as respostas pessoais só aparecem quando o celular do dono está conectado. Por enquanto vale para contas pessoais de maiores de 18 anos e não está disponível no Espaço Econômico Europeu, na Suíça, no Reino Unido e na Nigéria. O ganho de segurança é real (menos motivo para pegar o celular ao volante), e o preço é o de sempre: mais dados seus dentro do ecossistema do Google.
7. Muse, da Meta, chega a 10 milhões de downloads nos EUA em 40 dias
Segundo a Sensor Tower, o Muse, agente de IA da Meta, somou 10,9 milhões de downloads desde a estreia em setembro, 10,2 milhões deles nos EUA. Só outros 11 apps chegaram a 10 milhões de downloads americanos nos primeiros 40 dias, a maioria jogos como Fortnite e Pokémon GO; fora dos games, só o Threads, também da Meta, e o Disney+. Para comparar, o ChatGPT teve 3,7 milhões de downloads nos EUA no mesmo período após o lançamento.
Há duas explicações, e as duas contam. A Meta divulga o app para os 3,6 bilhões de usuários diários das suas redes e tem colocado dinheiro pesado em anúncio: 39% do gasto publicitário dela em outubro foi para o Muse. Mas a retenção também chama atenção: 30% dos usuários americanos ainda usam o app depois de 7 dias, contra média de 19% dos concorrentes, e os usuários ativos diários bateram 2,5 milhões em 16/10. O app está disponível só nos EUA e no Canadá.
LR2021-SDR: o chip LoRa da Semtech vira rádio definido por software
O projeto aberto LR2021-SDR, de Samuel Reynolds (SAMS0N1TE no GitHub), usa um comando não documentado na ROM do transceptor LoRa Semtech LR2021 para tirar dele amostras I/Q cruas de 16 bits. Com isso, o software passa a decodificar sinais que o chip normalmente não entende, como voz digital P25, mensagens de pager POCSAG e FM analógico, sem dongle de SDR externo. Nos testes do autor, numa única placa, a recepção funcionou de 100 MHz a 2,74 GHz, com captura contínua estável a 125 mil amostras por segundo; acima de 250 mil, a SPI de 16 MHz não dá conta.
Há também transmissão experimental, em rajadas curtas, de sinais de teste P25, dados de sensor de temperatura e controles remotos OOK/FSK. A CNX Software ressalta que as medições são de uma placa só e não garantem sensibilidade calibrada nem a mesma faixa em outro hardware. O código está no GitHub sob GPL-3.0. Para o maker, é mais um caso de chip barato fazendo mais do que o manual promete, como o ESP32-S3 e o roteador Wi-Fi 7 que já viraram SDR. Um lembrete prático: escutar e, principalmente, transmitir em certas faixas é regulado (no Brasil, pela Anatel), então teste com responsabilidade.
Arduino UNO Q SBC Controller Bundle: botões, joystick e knob para o “cérebro duplo”
O UNO Q SBC Controller Bundle, com a placa e os módulos Modulino de botões, joystick, knob e LEDs. Imagem de divulgação: Arduino
A Arduino lançou um kit que junta o UNO Q de 4 GB a quatro módulos Modulino sem solda: Buttons, Joystick, Knob e Pixels (LEDs). A ideia é explorar a arquitetura de “dois cérebros” da placa, que roda Linux num Qualcomm Dragonwing QRB2210 e tem um microcontrolador STM32U585 para o tempo real: os controles físicos entram pelo microcontrolador e comandam programas no lado Linux, com o App Lab fazendo a ponte. A Arduino sugere usos como painel do Home Assistant, jogos retrô e controle de rotinas de IA local, e publicou o passo a passo no Project Hub.
O kit sai na loja da Arduino por US$ 107,76, abaixo do preço cheio previsto de US$ 119,73. Atenção ao que não vem na caixa: fonte USB-C PD e o hub USB-C que dá saída HDMI, Ethernet e portas USB extras para usar a placa como computador completo. O gabinete é para imprimir em 3D, publicado no Printables sob licença CC BY-NC-SA 4.0. Para quem tem impressora e uns módulos na gaveta, dá para montar um controle parecido gastando bem menos.
O crachá com ESP32 do Hack the North: de US$ 5 sonhados a US$ 11,60 reais
Em vez de crachá de papel, o Hack the North 2026, maior hackathon do Canadá, entregou 1.750 crachás eletrônicos programáveis, e Nicholas Ficara contou como foi fazer. O primeiro protótipo era um PCB hexagonal com ESP32, tela colorida, LEDs endereçáveis e NFC, e já veio com erros clássicos: um capacitor no lugar de um indutor, um cabo flexível da tela soldado direto na placa (impraticável na produção) e um chip NFC que só funcionava como etiqueta, não como leitor. No firmware, um runtime Lua deixava cada participante escrever seus próprios apps num editor pelo navegador.
A parte mais didática é a da produção. Num lote de validação de 50 unidades, dois CIs montados invertidos travaram muitas placas, e bateria colocada ao contrário fazia sair fumaça, o que levou a adicionar um FET de proteção contra inversão de polaridade. A meta de US$ 5 por pessoa virou cerca de US$ 11,60 por crachá montado, sem contar desenvolvimento. É o lembrete de sempre: protótipo que funciona na bancada é uma coisa, mil e setecentos funcionando é outra.
Eka capta US$ 150 milhões com uma garra que “sente” força
A garra da Eka segurando uma lâmpada acesa, na imagem do anúncio da Série A. Imagem de divulgação: Eka Robotics
A Eka Robotics, fundada pelo professor do MIT Pulkit Agrawal e pelo ex-pesquisador do Google DeepMind Tuomas Haarnoja, fechou uma Série A de US$ 150 milhões liderada pela a16z e pela F-Prime, que avalia a empresa em US$ 1,45 bilhão. Em vez de um modelo de visão-linguagem-ação, ela aposta num modelo de visão-força-ação: a visão diz onde está o objeto, e a pegada em si é guiada pelas forças que a mão sente. Para isso, a empresa desenhou uma mão mais flexível e cheia de sensores de força, e treina o modelo com aprendizado por reforço em simulação física, gerando “milhares de horas de experiência em minutos”, sem depender de vídeos de gente fazendo a tarefa.
Segundo a empresa, o robô pega cerca de 1.500 objetos de até 1 kg por hora (contra uns 600 de uma pessoa), com mais de 95% de acerto. Roboticistas ouvidos pelo TechCrunch, incluindo Kris Hauser, da Universidade de Illinois, ficaram impressionados com a adaptação a objetos novos sem retreino. Os números ainda são da própria Eka e de demonstrações, não de uma operação comercial auditada.
Na China, humanoides montam peças de outros humanoides
A alemã Schaeffler abriu em Taicang, na China, uma fábrica-modelo de cerca de 7.500 m² em que seis humanoides trabalham em cinco estações montando módulos de articulação, como atuadores lineares e rotativos, para outros robôs. Eles separam, encaixam, inspecionam, etiquetam e embalam as peças, e um gêmeo digital da linha permite testar mudanças antes de aplicá-las. A empresa chama o projeto de “humanoides fazendo humanoides”, mas o que sai dali são componentes, não robôs inteiros, e ela diz ter cerca de € 400 milhões em pedidos na área de humanoides (pedidos, não receita).
No mesmo dia, um representante do governo chinês disse que a produção de humanoides no país deve passar de 100 mil unidades em 2026. A escala ajuda a entender por que fornecedores de rolamentos e atuadores como a Schaeffler estão de olho nesse mercado.
Digit, da Agility, vai para uma fábrica de máquinas agrícolas da AGCO em 2027
O humanoide Digit na imagem do anúncio do piloto com a AGCO. Imagem de divulgação: AGCO/Agility Robotics, via AGCO Newsroom
A AGCO, dona de marcas como Massey Ferguson, Fendt e Valtra, assinou um acordo comercial com a Agility Robotics para um piloto do humanoide Digit na fábrica de Hesston, no Kansas, previsto para começar em 2027. As primeiras tarefas são separar e empilhar peças e guardar caixas plásticas, trabalho repetitivo e pesado. Número de robôs, valor do contrato e geração do Digit não foram divulgados.
A AGCO entra numa lista de clientes da Agility que já tem Toyota, GXO e a própria Schaeffler. Vale a leitura sóbria: é um piloto anunciado para o ano que vem, não uma frota em operação.
Gecko Robotics: robôs que escalam casco de navio têm contrato ampliado para US$ 300 milhões
A Marinha dos EUA e a GSA, agência de compras do governo americano, quadruplicaram o teto do contrato da Gecko Robotics, que agora pode chegar a US$ 300 milhões, seis meses depois de um contrato inicial de US$ 71 milhões. A Gecko usa robôs que sobem pelas paredes, drones e sensores fixos para medir corrosão e espessura de cascos, conveses e soldas, e IA para modelar os problemas. O destaque é o sistema Komodo, que escaneia o convés através do revestimento antiderrapante sem precisar removê-lo.
Segundo a empresa, a inspeção cai de meses para dias e a economia chega a US$ 8 milhões por navio em reparos, números da própria Gecko. A ideia é mapear o dano antes de o navio entrar no dique seco, em vez de descobri-lo com a manutenção já começada. Robótica de inspeção é um dos usos mais maduros dessa tecnologia, e o vídeo abaixo, do canal oficial da empresa, mostra o tipo de varredura feita nos cascos.
Navy Hull Scans, vídeo do canal oficial da Gecko Robotics no YouTube
Resumo pro café: a terça foi dia de contas e de canos. As contas da SpaceX e da Anthropic mostram quanto custa a corrida da IA e quem já está faturando com ela, e Google e Amazon atacam o “encanamento” de software que prende o mercado à Nvidia. No uso diário, ChatGPT e Gemini mexem com privacidade em direções opostas: um esconde conversas, o outro pede acesso aos seus dados em troca de conveniência. Na bancada, um chip LoRa virando rádio e um crachá que custou o dobro do previsto ensinam mais que muito datasheet. E na robótica, a mão que sente força e os humanoides de fábrica mostram que o salto agora é de destreza e de escala. Amanhã tem mais Resumão Tech.
O rio Pascagoula, no Mississipi, corria escuro na noite de 11 de outubro de 1973. Charles Hickson, 42 anos, e Calvin Parker, 19, pescavam num cais de madeira perto do estaleiro, lançando anzóis e conversando sobre nada. Eram quase nove da noite quando ouviram um zumbido — e viram a luz. Azul, pulsante, vinda de trás do armazém abandonado. Os dois ficaram imóveis, presos entre o fascínio e o medo, enquanto o objeto descia: uma forma oval, com cerca de três metros de diâmetro, flutuando a poucos metros do chão. Uma porta abriu-se. E três figuras saíram.
A descrição que Hickson daria depois, milhares de vezes, era sempre a mesma: criaturas de pouco mais de um metro e meio, pele cinzenta e enrugada como a de um elefante velho, sem rosto reconhecível — apenas fendas no lugar dos olhos, orelhas pontudas, nenhuma boca visível. E as mãos. As mãos não tinham dedos: terminavam em garras, ou em luvas, como pinças que não podiam agarrar, mas que arrastavam. Hickson foi erguido do cais — levitou, ele insistia — e flutuou pela porta aberta, como se o corpo não lhe pertencesse mais. Parker desmaiou.
O que ficou registrado
Dentro do objeto, segundo Hickson, houve um exame: uma varredura que não usava instrumentos reconhecíveis, a sensação de ser estudado como um espécime. Depois, os dois foram soltos — Hickson consciente, Parker despertando sem memória. Correram para o carro e dirigiram direto ao gabinete do xerife do condado de Jackson, em Pascagoula. O xerife Fred Diamond encontrou dois homens “brancos como fantasmas”, nas palavras dele, tremendo sem controle. Parker não conseguia falar: chorava, rezava, repetia frases soltas; uma gravação feita no gabinete naquela noite capturou os soluços e as súplicas — um documento que os pesquisadores escutam até hoje com arrepio. Hickson, mais contido, contou a história inteira, do começo ao fim, sem desviar. A notícia correu o país. Televisões enviaram equipes ao pequeno cais; repórteres cercaram as casas dos dois; as manchetes falavam em “prisão de seres de outro mundo”. O caso, registrado na história documentada da abdução de Pascagoula, atraiu o psicólogo James Harder, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que hipnotizou Hickson e colheu um relato detalhado, e o jornalista cético Philip Klass, que passou anos tentando provar a farsa. Ambos fizeram as mesmas perguntas — e chegaram a conclusões opostas.
O que não se explica
O que não se explica é o que não tem vocabulário. Parker, o mais jovem, não conseguiu contar o que viu — não porque se recusasse, mas porque parecia não ter palavras, como se a experiência tivesse quebrado a linguagem antes de acontecer. Ele nunca mais voltou ao rio; os anos seguintes foram os de um homem assombrado. Hickson, ao contrário, falou — e falou demais, o que para os céticos é suspeita e para os pesquisadores é o padrão de quem repete uma memória traumática, não de quem inventa. Não há prova material: nenhuma marca nos corpos, nenhum artefato, nenhuma fotografia. Há apenas dois homens, uma noite, um rio — e a gravação de um jovem de dezenove anos pedindo a Deus que não o deixassem naquela sala de novo.
O que está em jogo
Outubro de 1973 foi um dos maiores surtos de avistamentos da história americana — centenas de relatos em poucas semanas, do Ohio ao Mississipi. O caso Pascagoula aconteceu no auge desse surto e tornou-se o primeiro grande relato de abdução com duas testemunhas, documentação policial e investigação acadêmica séria. Foi também o molde de tudo o que veio depois: as criaturas cinzentas, o exame, a paralisia, a memória que falha — elementos que se repetiriam em milhares de relatos nas décadas seguintes. Por isso a pergunta sobre Hickson e Parker nunca é apenas sobre eles: é sobre a natureza do testemunho humano, sobre o que o medo faz com a memória, sobre se é possível mentir por vinte anos com a mesma cara, o mesmo detalhe, a mesma mão erguida descrevendo uma garra sem dedos. O fenômeno como um todo segue sendo estudado sob o guarda-chuva dos objetos voadores não identificados — e o caso continua entre os mais citados.
A pergunta que fica
O cais de madeira foi substituído; o rio continua escuro, como sempre. Hickson morreu em 2011; Parker, anos depois, quebrou o silêncio e publicou a própria versão — a de um homem que passou a vida inteira tentando nomear algo que viu por poucos minutos e que não existe no idioma. E talvez seja isso o mais inquietante do caso: não a nave, não as criaturas, não o exame. Mas a certeza de que há experiências que não cabem nas palavras — e que dois homens comuns, numa noite de pescaria no Mississipi, foram obrigados a carregar uma delas para sempre.