Tag: capoeira

  • Mestre Risadinha e o Sonho Chamado Ginga SP

    Era 1994. Um jovem chamado Valdecir Ferreira dos Santos olhou para um amigo — o Beto Social — e disse: “Vamos montar um grupo de capoeira.”

    Não tinha dinheiro. Não tinha espaço. Não tinha nada além de um berimbau velho, um nome — Ginga São Paulo — e uma vontade que não cabia no peito.

    “E foi assim que tudo começou”, contou Mestre Risadinha, enquanto os alunos se ajeitavam na roda. “Com um sonho e uma aposta.”

    Por Que ‘Risadinha’?

    O apelido veio antes do título de mestre. Valdecir era um adolescente magrinho, de sorriso fácil — daqueles que riem de tudo, até das dificuldades. Na roda de capoeira, enquanto outros fechavam a cara pra parecerem mais duros, ele ria. Gingava e ria. Levava rasteira e ria. Dava rasteira e ria também.

    “Risadinha” grudou. E, com o tempo, virou nome de guerra, nome de mestre, nome de respeito.

    “Tem gente que acha que mestre tem que ser sério”, ele diz. “Eu acho que a capoeira é alegria. Se não for pra sorrir, pra que jogar?”

    Os Primeiros Anos

    O Ginga SP começou num espaço emprestado, com meia dúzia de alunos. O objetivo era simples e ambicioso ao mesmo tempo: resgatar a capoeira como patrimônio cultural completo. Não era só dar aula de golpe. Era ensinar a história, a música, a filosofia — tudo que Mestre Risadinha tinha aprendido com seus próprios mestres.

    Além da capoeira, o grupo desenvolvia outras manifestações: maculelê (a dança com bastões de origem africana), puxada de rede (tradição de pescadores nordestinos), e samba de roda do Recôncavo Baiano.

    “A capoeira não é uma ilha”, explicava o mestre. “Ela faz parte de um oceano cultural. Se você ensina só o golpe, tá ensinando metade.”

    A Fusão Que Multiplicou

    Em 2008, o Ginga SP se uniu a outro grupo liderado pelo Mestre Alemão (Izael Corrêa) e pela graduada Joaninha (Cibele Barbosa). Juntos, transformaram o grupo no Centro Cultural de Capoeira GSP.

    Foi nessa época que o trabalho social se intensificou. O grupo passou a organizar campanhas contra a fome, contra o sedentarismo, contra a dengue, contra as drogas. A capoeira saía da roda e entrava na vida real das pessoas.

    “A gente percebeu que a capoeira podia ser muito mais que uma atividade física”, refletiu Mestre Risadinha. “Ela podia ser ferramenta de transformação.”

    2023 — O Ano Que Mudou Tudo

    Em 2023, apoiados por parceiros da comunidade — o seu Elias Ramos, a Sandra Rosa, e o retorno de Beto Social, um dos primeiros alunos — nasceu oficialmente a Associação Educacional e Cultural de Capoeira Ginga São Paulo.

    E, com ela, o Projeto Semear GSP — o coração do trabalho do Mestre Risadinha hoje.

    “Semear”, ele explica, “porque a gente planta. A gente joga a semente e rega. O fruto pode vir daqui a cinco anos, dez anos, vinte anos. Mas ele vem. A capoeira é plantação de longo prazo.”

    O Projeto Semear atende crianças, adolescentes e adultos, oferecendo aulas gratuitas, vivências culturais e um ambiente de acolhimento. É a realização do sonho de 1994 — multiplicado por mil.

    “Quando eu olho pra trás e vejo de onde a gente saiu”, Mestre Risadinha sorriu — aquela risada que deu nome a ele — “eu penso: valeu cada gota de suor. Porque cada aluno que entra nessa roda é uma vitória. Cada criança que aprende a gingar é um mundo que a gente mudou.”

    Ele bateu a cabaça do berimbau no peito.

    “E a gente ainda tá só no começo.”

    O Legado Vivo

    Mestre Risadinha não está nos livros de história — ainda. Mas está nas ruas de São Paulo, nos salões comunitários, nas rodas de fim de semana. Está em cada aluno que aprendeu não só a dar meia-lua, mas a se orgulhar de quem é.

    “O que eu quero que fique”, ele disse, “não é o meu nome. É a capoeira viva. É a próxima geração ensinando a próxima. É a roda girando pra sempre.”

    E a roda girou. Como sempre gira.

  • 1972 — O Ano Que a Capoeira Deixou de Ser Crime

    “Quanto tempo vocês acham que a capoeira ficou proibida no Brasil?”

    Mestre Risadinha olhou para os alunos. As respostas vieram: “Dez anos?” “Vinte?”

    “Quase cinquenta anos. Meio século. Duas gerações inteiras de brasileiros nasceram, cresceram e morreram num país onde mexer o corpo na ginga dava cadeia.”

    O berimbau ficou em silêncio.

    “E foi preciso um governo militar pra legalizar a capoeira. O mundo dá voltas, né?”

    Os Anos Entre a Proibição e a Liberdade

    O Código Penal de 1890 dizia claramente: capoeira é crime. Mas, como toda lei no Brasil, a realidade era mais complicada. A repressão variava de estado pra estado, de década pra década.

    No Rio de Janeiro da Belle Époque (1900-1920), a polícia caçava capoeiristas com ferocidade. Na Bahia, a perseguição era mais branda — tanto que Mestre Bimba abriu sua academia oficialmente em 1937, registrada em cartório, com alvará de funcionamento. Como? Porque ele não chamava de capoeira. Chamava de “Curso de Educação Física — Luta Regional Baiana”.

    “Bimba era malandro também”, riu Mestre Risadinha. “Deu um drible jurídico nos caras.”

    Em São Paulo, o preconceito era diferente. Como a cidade cresceu com imigração europeia, a capoeira era vista como “coisa de baiano” — um olhar que misturava xenofobia com racismo. Muitos capoeiristas paulistas treinavam em casa, com janelas fechadas, berimbau sem cabaça pra não fazer barulho.

    1972 — A Portaria Que Mudou Tudo

    Em 1972, durante o governo militar, o Conselho Nacional de Desportos publicou uma portaria que mudaria a história brasileira. Não parece grande coisa — é uma portaria, não uma lei —, mas o que ela dizia era histórico:

    A capoeira passa a ser reconhecida como modalidade esportiva nacional, sendo oficialmente incorporada ao sistema esportivo brasileiro.

    O governo militar — o mesmo que perseguia opositores políticos — foi o responsável por dar à capoeira o status de esporte nacional. Por quê?

    “Porque os militares viram na capoeira uma oportunidade de propaganda”, explicou Mestre Risadinha. “Eles queriam mostrar pro mundo que o Brasil tinha uma identidade própria. E a capoeira era genuinamente brasileira — ninguém podia negar.”

    Foi um casamento estranho, mas funcionou. A partir de 1972, a capoeira podia ser ensinada em escolas, academias, universidades e clubes. Nasciam as primeiras federações estaduais. Os mestres começaram a sair do Brasil para dar aulas na Europa e nos Estados Unidos.

    O Que Mudou na Prática

    A legalização não foi só simbólica. Ela trouxe mudanças profundas:

    • Surgimento dos sistemas de graduação. Inspirados nas faixas de judô, os grupos de capoeira criaram sistemas de cordas (ou cordéis) como a gente conhece hoje: crua, amarela, laranja, azul…
    • Profissionalização. O capoeirista passou a poder viver da capoeira — dando aula, competindo, fazendo shows e apresentações culturais.
    • Expansão internacional. Sem a mancha de “esporte de marginais”, a capoeira cruzou fronteiras e fincou raízes em mais de 150 países.
    • Capoeira nas escolas. Começaram projetos de capoeira na educação infantil e no ensino fundamental — exatamente o que a gente faz hoje no Projeto Semear GSP.

    2014 — O Reconhecimento Máximo

    Se 1972 foi a certidão de nascimento da capoeira como esporte, 2014 foi sua consagração como patrimônio da humanidade. No dia 26 de novembro daquele ano, a UNESCO declarou a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

    “Imagina o tamanho disso”, disse Mestre Risadinha, os olhos marejados. “Uma arte que nasceu nos porões dos navios negreiros, que sobreviveu à escravidão, à proibição, ao preconceito — e agora tá no mesmo patamar que o tango argentino, a ópera chinesa e o flamenco espanhol.”

    Ele levantou o berimbau com as duas mãos, como quem ergue um troféu.

    “Isso aqui não é um instrumento. É a alma de um povo que se recusou a morrer.”

    A roda começou a cantar sozinha: “Iê, viva a capoeira, camará… Iê, é patrimônio mundial…”

    E a aula terminou com o som mais antigo do Brasil ecoando no salão — a cabaça vibrando, o arame respondendo, e a voz de Mestre Risadinha guiando a todos como quem guia um barco em mar calmo.

  • Mestre Pastinha — O Guardião da Capoeira Que Não Queria Mudar

    “O Mestre Pastinha tinha todos os motivos do mundo pra ser amargo”, começou Mestre Risadinha. “E mesmo assim, o homem dedicou a vida inteira a preservar a beleza. Isso é coisa rara.”

    O Menino Que Apanhava na Rua

    Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889 — o mesmo ano da proclamação da República — em Salvador. Era um menino franzino, mirradinho, que apanhava dos moleques maiores do bairro.

    Um dia, um africano idoso chamado Benedito — que tinha sido escravizado e era mestre de capoeira — viu o menino Pastinha apanhando e disse: “Vem cá, meu filho. Você não vai mais apanhar de ninguém.”

    Benedito ensinou tudo que sabia ao menino. E, como Mestre Risadinha gosta de contar: “Foi aí que o garoto que apanhava virou o maior guardião da capoeira de todos os tempos.”

    Uma Filosofia Diferente

    Enquanto Mestre Bimba criava a Capoeira Regional — mais rápida, mais atlética, mais próxima de uma luta —, Mestre Pastinha fez o caminho oposto. Ele queria preservar a capoeira exatamente como aprendeu: lenta, rasteira, cheia de mandinga e malícia.

    Foi Pastinha quem deu nome a esse estilo: Capoeira Angola.

    “Para Pastinha, a capoeira não era luta. Era diálogo.” Mestre Risadinha gingou devagar, os braços abertos como se convidasse um parceiro invisível. “Dois corpos conversando. Um pergunta, o outro responde. Sem pressa.”

    Em 1941, Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no Pelourinho. A academia era modesta — chão de terra batida, paredes simples — mas virou o coração pulsante da capoeira tradicional.

    Os Princípios de Pastinha

    Mestre Pastinha escreveu um manuscrito que até hoje é estudado por capoeiristas do mundo inteiro. Nele, ele dizia coisas assim:

    • “Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo que a boca come.”
    • “O bom capoeirista não é o que mais bate. É o que menos precisa bater.”
    • “A capoeira Angola é luta de resistência. Resistência do corpo, e resistência da alma.”

    “Olha que bonito”, comentou Mestre Risadinha. “Num tempo em que tudo na capoeira era sobre dar golpe, Pastinha estava falando sobre não precisar dar golpe.”

    O Fim Triste de um Gigante

    A história de Pastinha teve um final injusto. No início dos anos 1970, o governo do estado removeu Pastinha do prédio onde funcionava sua academia — a área estava sendo reformada para o turismo — uma área que estava sendo “revitalizada” para o turismo. Pastinha, já idoso e doente, foi removido. Prometeram um novo espaço. Nunca deram.

    Ele morreu em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, num abrigo para idosos em Salvador. As condições de seus últimos anos foram difíceis — um contraste doloroso com a grandeza do seu legado.

    “Dá raiva, né?” Mestre Risadinha fez uma pausa longa. “O homem dedicou a vida inteira a preservar a cultura brasileira e o Brasil deixou ele morrer esquecido.”

    Mas a história não termina aí.

    Depois de sua morte, os alunos de Pastinha espalharam sua capoeira pelo Brasil e pelo mundo. Hoje, a Capoeira Angola é praticada em mais de 50 países. A academia amarela do Pelourinho se multiplicou em milhares de rodas ao redor do planeta.

    “Pastinha não teve justiça em vida”, disse Mestre Risadinha, pegando o berimbau. “Mas teve a maior vingança que um mestre pode ter: seus alunos nunca deixaram a chama apagar.”

    Ele começou a tocar Angola — aquele ritmo lento, hipnótico, que parece vir de um tempo muito antigo. E cantou: “Iê, viva Pastinha, camará…”

    Na próxima aula: o dia em que a capoeira finalmente deixou de ser crime e virou esporte — oficialmente, no papel, com reconhecimento do governo brasileiro e da UNESCO.

  • Mestre Bimba — O Homem Que Convenceu o Presidente

    Era 1953. O homem mais poderoso do Brasil, o presidente Getúlio Vargas, estava sentado no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. E na frente dele, um baiano de bigode fino, com um berimbau na mão e oito alunos perfilados, ia mostrar algo que era oficialmente proibido no país.

    “Ele deve ter pensado: ou isso dá muito certo ou eu vou preso”, riu Mestre Risadinha. “Mas Bimba nunca teve medo de nada.”

    O Menino Que Falava Com Os Pés

    Manuel dos Reis Machado nasceu em 1899, em Salvador, num bairro chamado Engenho Velho de Brotas. A Bahia da virada do século era um lugar duro para um menino negro e pobre. Mas Manuel tinha algo que ninguém podia tirar dele: um corpo que parecia ter nascido para a capoeira.

    Começou a treinar com 12 anos, com um africano chamado Bentinho — mestre de uma capoeira que ainda não tinha nome, a que depois seria chamada de “Angola”. Em pouco tempo, o menino Manuel virou Mestre Bimba, e sua fama correu Salvador.

    “Dizem que ele aceitava desafios de qualquer lutador”, contou Mestre Risadinha. “Jiu-jítsu, boxe, luta livre — Bimba botava todos pra dormir.”

    O Problema da Capoeira nos Anos 1930

    Nos anos 1930, a capoeira ainda era malvista. A lei de 1890 tinha caído, mas o preconceito continuava firme. Capoeira era “coisa de malandro”, “de vagabundo”. Pais de família proibiam os filhos de chegar perto de uma roda.

    Mestre Bimba percebeu que, se a capoeira quisesse sobreviver, precisava mudar. Não perder sua essência — mas se vestir de forma diferente. Foi aí que ele criou o que chamou de Luta Regional Baiana.

    “Ele não chamou de capoeira de propósito”, explicou o mestre. “Chamou de ‘luta regional’ porque ‘capoeira’ era palavrão.”

    As Inovações de Bimba

    A Capoeira Regional — como ficou conhecida — trouxe várias mudanças:

    • Golpes mais altos e rápidos. Bimba incorporou movimentos de outras lutas, como o batuque e a luta greco-romana.
    • Sequências de ensino. Ele organizou o ensino em sequências progressivas — do básico ao avançado — criando a primeira metodologia estruturada da capoeira. Era a primeira “metodologia” da capoeira.
    • Formatura. Bimba criou a primeira cerimônia de formatura — o “batizado” primitivo, onde o aluno recebia um lenço azul ou vermelho.
    • Regras. Ele exigia que seus alunos tivessem emprego fixo ou estivessem estudando. Nada de malandragem. Queria mostrar que capoeirista podia ser trabalhador, estudante, cidadão respeitável.

    “Isso foi revolucionário”, disse Mestre Risadinha. “Bimba tirou a capoeira da margem e botou no centro da sociedade.”

    O Dia Que Mudou Tudo

    Em 23 de julho de 1953, Mestre Bimba e seus alunos se apresentaram no Palácio do Catete para Getúlio Vargas. Diz a lenda que o presidente, impressionado, declarou: “A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional.”

    Essa frase — seja ela lenda ou fato — abriu as portas. A partir dali, a capoeira começou a sair dos terreiros escondidos e entrar nas academias, nas escolas, nas universidades.

    Bimba faleceu em 5 de fevereiro de 1974, em Goiânia, longe de sua Bahia — uma injustiça que a história ainda não corrigiu completamente. Mas seu legado é maior do que qualquer tristeza: ele é reconhecido como o pai da capoeira moderna.

    “Sem Bimba”, concluiu Mestre Risadinha, “talvez a capoeira ainda fosse proibida. Ou pior: talvez tivesse desaparecido.”

    Na próxima aula: o homem que escolheu o caminho oposto — em vez de mudar a capoeira, decidiu protegê-la exatamente como era.

  • Vigiada, Proibida, Caçada — Quando a Capoeira Era Crime no Brasil

    “Sabe o que acontecia com um capoeirista no Rio de Janeiro em 1900?”

    Mestre Risadinha fez uma pausa dramática. A roda ficou em silêncio.

    “Prisão. De dois a seis meses. E se fosse reincidente — mandavam pra Fernando de Noronha.”

    Os alunos se entreolharam. Fernando de Noronha? O paraíso?

    “Naquela época não era resort, não”, riu o mestre. “Era prisão de segurança máxima no meio do oceano.”

    O Código Penal de 1890

    Pouca gente sabe, mas a capoeira foi proibida por lei no Brasil. O Código Penal de 1890 — o primeiro da República — trazia dois artigos específicos contra ela:

    Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem: andar em correrias, com armas ou não, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.

    Pena: prisão celular de dois a seis meses.

    Repare bem: o crime não era roubar ou agredir. Era fazer exercícios de agilidade e destreza corporal. Ou seja — era crime simplesmente ser capoeirista.

    E não parava aí. O artigo 403 era ainda mais cruel:

    Art. 403. Se o capoeira for reincidente, será recolhido por um a três anos a colônias penais em ilhas — ou para o Presídio de Fernando de Noronha.

    “Três anos de prisão”, repetiu Mestre Risadinha, “porque você gingava na rua.”

    Por Que o Governo Tinha Tanto Medo da Capoeira?

    A história começa antes, ainda no Império. No século XIX, as cidades brasileiras — especialmente Rio de Janeiro, Salvador e Recife — eram o território das maltas de capoeira. Eram grupos organizados, com nomes, territórios e até uniformes — lenços coloridos amarrados no pescoço ou no braço.

    As duas maltas mais famosas do Rio eram os Nagoas e os Guaiamus. Os Nagoas se identificavam com o vermelho. Os Guaiamus, com o branco. E a rivalidade entre eles era tão violenta que a cidade inteira conhecia seus nomes.

    “Imagina duas torcidas organizadas”, comparou o mestre, “mas em vez de futebol, era capoeira. E em vez de cânticos, era navalha.”

    As maltas controlavam regiões inteiras da cidade. Faziam serviços de segurança para políticos, apitavam em eleições, protegiam comércios — e também roubavam, brigavam e aterrorizavam. Eram o poder paralelo mais organizado do Brasil do século XIX.

    Quando a República foi proclamada em 1889, o novo governo queria “limpar” as ruas. A capoeira era o símbolo perfeito de tudo que eles queriam eliminar: negra, pobre, violenta, incontrolável.

    O Grande Medo da Elite Branca

    Havia um medo genuíno na elite brasileira. A abolição da escravatura tinha acontecido fazia só dois anos (1888). De repente, centenas de milhares de negros livres estavam nas ruas — e muitos deles sabiam lutar. Muito bem.

    A capoeira era a única forma de defesa que a população negra tinha num país que ainda tratava ex-escravizados como cidadãos de segunda classe. Um capoeirista habilidoso podia enfrentar dois, três policiais armados — e sair correndo.

    “A elite não via arte, não via cultura”, resumiu Mestre Risadinha. “Via perigo. Via um exército invisível que a qualquer momento podia se voltar contra ela.”

    O resultado foi um dos capítulos mais violentos da história da capoeira: a perseguição sistemática.

    O Delegado Sampaio Ferraz — O Caçador de Capoeiristas

    Se existe um vilão nessa história, o nome dele é Sampaio Ferraz. Nomeado chefe de polícia do Rio de Janeiro em 1890, ele declarou guerra à capoeiragem. Sua tática era brutal e eficiente: deportação em massa.

    Só no primeiro ano de sua gestão, centenas de capoeiristas foram presos e enviados para Fernando de Noronha. Muitos nunca voltaram.

    Mas a resistência nunca morreu de verdade. Nos morros, nos subúrbios, nos terreiros, a capoeira continuou sendo praticada — em segredo, na calada da noite, ao som de berimbaus tocados baixinho para não chamar atenção.

    “A capoeira sobreviveu porque nunca parou de ser passada de mestre pra aluno”, disse Mestre Risadinha, a voz mais séria agora. “Enquanto houvesse uma pessoa que soubesse uma cantiga e outra que quisesse aprender, a roda continuava girando.”

    Na próxima aula: o homem que pegou a capoeira — ainda proibida e perseguida — e convenceu o presidente do Brasil de que ela era um tesouro nacional.

  • A Dança Que Virou Luta — Onde a Capoeira Nasceu

    Mestre Risadinha sentou-se na beira da roda, cruzou as pernas e olhou para os alunos com aquele sorriso que só ele tem. O berimbau ainda vibrava no ar quando ele perguntou: “Alguém aqui sabe de onde veio a capoeira?”

    Um menino levantou a mão: “Do Brasil, mestre!”

    “Sim… e não.”

    A resposta de Mestre Risadinha pegou todo mundo de surpresa. E foi assim que começou a história.

    Muito Antes do Brasil

    A capoeira não nasceu no Brasil. Ela viajou de navio — mas não como passageira. Viajou como bagagem proibida, escondida no corpo e na memória de milhões de africanos arrancados de suas terras.

    Lá no sul de Angola, onde o sol queima a savana o ano inteiro, os povos de língua banto tinham uma tradição chamada N’golo — a “dança da zebra”. Jovens guerreiros duelavam ao som de tambores, imitando os movimentos da zebra — o corpo baixo, as pernas ágeis. Há estudiosos que sugerem que este jogo angolano, chamado Engolo ou N’golo, influenciou a formação da capoeira no Brasil. Mas atenção: essa ligação ainda é debatida entre pesquisadores — não existe consenso absoluto.

    “A ginga, o jogo de corpo, o ataque com os pés — tem gente que jura que tudo isso já estava ali, na savana africana”, contou Mestre Risadinha. “Mas também tem pesquisador que discorda. A origem da capoeira é um quebra-cabeça que a gente ainda tá montando.”

    O Que Era o N’golo

    O N’golo não era luta de raiva. Era luta de celebração. Os contendores imitavam os movimentos da zebra macho na disputa por território — o corpo baixo, as pernas ágeis, os braços sempre protegendo o rosto. Algumas tradições orais contam que o vencedor ganhava prestígio na comunidade — mas os detalhes exatos se perderam no tempo.

    Mas o N’golo era apenas uma peça do quebra-cabeça.

    Quando os navios negreiros começaram a cruzar o Atlântico — o chamado “comércio triangular” entre Europa, África e Américas —, embarcaram forçadamente entre 4 e 5 milhões de africanos com destino ao Brasil. Eles vinham de diferentes reinos e etnias: Congo, Angola, Moçambique, Costa da Mina, Daomé. Cada povo trouxe suas próprias tradições de luta e dança.

    “Imagina o caldeirão cultural que se formou nos porões daqueles navios e nas senzalas”, disse o mestre. “Pessoas que nunca tinham se visto, falando línguas diferentes, mas que compartilhavam a mesma dor. E a mesma necessidade de se defender.”

    O Berço da Capoeira Foi a Senzala — Mas Não Só Ela

    Durante muito tempo se ensinou que a capoeira nasceu exclusivamente nas senzalas — que os escravizados treinavam escondidos dos senhores e disfarçavam a luta de dança. Essa história tem verdade, mas é incompleta.

    Pesquisas recentes mostram que a capoeira também se desenvolveu nos quilombos — aquelas comunidades livres formadas por africanos que fugiam da escravidão. O mais famoso deles, o Quilombo dos Palmares, durou quase cem anos (1597–1695) e chegou a ter 20 mil habitantes. Lá, longe dos olhos dos senhores, as tradições africanas de luta podiam ser praticadas sem disfarce.

    “A capoeira que a gente joga hoje”, resumiu Mestre Risadinha, “é filha de três mães: a savana africana, o porão do navio negreiro e a terra livre do quilombo.”

    Por Que Isso Importa

    Saber de onde a capoeira veio não é só curiosidade de livro de história. É entender que cada ginga que você faz, cada esquiva, cada meia-lua — tudo isso carrega a memória de um povo que se recusou a desaparecer.

    “A capoeira é sobrevivência que virou arte”, disse Mestre Risadinha, levantando-se. “E isso, meus alunos, é só o começo.”

    Ele pegou o berimbau, bateu a cabaça no peito e começou a cantar baixinho: “Ê, Paraná… cadê o negro que tava aqui?”

    Na próxima aula: o que aconteceu quando a capoeira finalmente chegou ao Brasil e os senhores de engenho perceberam que tinham um problema enorme nas mãos.