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  • O Cancioneiro do Ginga SP — As Nossas Cantigas

    “Toda cantiga que eu ensinei até agora veio da tradição — dos mestres antigos, das rodas da Bahia, das senzalas. Mas o Ginga SP também tem as suas.”

    Mestre Risadinha se ajeitou na roda. Os alunos, que conheciam essas cantigas de cor, sorriram. Era o momento mais esperado da aula de cantigas — quando o mestre puxava as nossas.

    “Porque a capoeira é viva. A tradição não é um museu — é um rio. Corre, muda, recebe afluentes. E a gente, aqui no Ginga SP, também coloca nossa gota d’água nesse rio.”

    As Cantigas do Ginga SP

    Nem todas as cantigas que o grupo canta foram compostas aqui. Muitas são adaptações — cantigas tradicionais que ganharam novos versos, novas melodias, novo significado na boca dos alunos e mestres do Ginga SP.

    “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia”, “A Roda Já Começou”, “Coco Mironga”, “Balaio de Café”, “Na Beira do Mar” — essas são as pedras fundamentais do nosso repertório. Cada uma tem sua história, seu momento na roda, sua razão de ser.

    “Quando a gente canta ‘Tava na Beira do Mar’”, refletiu Mestre Risadinha, “a gente não tá só cantando sobre Iemanjá. A gente tá cantando sobre a comunidade que construímos aqui. Cada verso é uma memória coletiva.”

    O Futuro do Cancioneiro

    O Ginga SP continua criando, adaptando, preservando. Alunos mais avançados são incentivados a compor suas próprias cantigas. Mestre Risadinha acredita que a renovação do repertório é sinal de que o grupo está vivo.

    “Ano passado, um aluno nosso — o Pedro, da corda azul — compôs uma ladainha sobre o Projeto Semear”, contou o mestre, os olhos brilhando. “Falava das crianças que a gente atende, dos sábados de manhã, do cheiro do salão depois da chuva. Coisa simples. Coisa nossa. E quando ele cantou na roda, todo mundo respondeu.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Isso é capoeira. Não é só repetir o que os antigos fizeram. É continuar o que eles começaram.”

    Ele bateu o pandeiro três vezes e puxou mais uma. O coro respondeu. E o cancioneiro do Ginga SP ganhou mais uma página.

  • Cantigas de Mestre para Aluno — As Lições Que Vêm Cantando

    “Na capoeira, o mestre não precisa gritar ‘presta atenção’. Ele canta.”

    Mestre Risadinha começou a cantarolar baixinho uma ladainha que seus próprios mestres cantavam pra ele, décadas atrás. A melodia era antiga, a letra era simples — mas cada verso carregava uma lição.

    “As cantigas de mestre pra aluno”, ele explicou, “são o jeito mais bonito de ensinar. Você não dá bronca. Você canta. E o aluno entende.”

    Como Funciona

    Na roda, o mestre — geralmente no berimbau gunga ou como cantador — usa os corridos para se comunicar com os jogadores. Se um aluno está jogando muito duro, o mestre puxa um corrido de calma. Se está muito parado, puxa um corrido mais rápido. Se está desrespeitando o outro, puxa uma cantiga que fala de humildade.

    “É didática disfarçada de música”, riu Mestre Risadinha. “O aluno às vezes nem percebe que tá sendo ensinado. Mas tá.”

    Uma das cantigas mais usadas para acalmar o jogo:

    Solista: Devagar, devagarinho!
    Coro: Devagar, devagarinho!
    Solista: A cobra morde devagar!
    Coro: Devagar, devagarinho!

    “Quando o mestre canta ‘devagar, devagarinho’”, explicou, “não é sugestão. É ordem. A cobra é uma metáfora — o capoeirista experiente é como a cobra: lento, paciente, e quando ataca, é certeiro.”

    Cantigas de Humildade

    Tem também as cantigas que lembram ao capoeirista que ele não é o dono da roda:

    Solista: O facão bateu embaixo!
    Coro: O facão bateu embaixo!
    Solista: A bananeira caiu!
    Coro: O facão bateu embaixo!

    “O facão que bate embaixo”, filosofou Mestre Risadinha, “é o golpe que você não viu chegar. A bananeira que caiu é o capoeirista que se achava grande demais. A mensagem é clara: por mais alto que você esteja, sempre tem alguém que pode te cortar pela raiz. Humildade.”

    “E é assim que a capoeira educa”, concluiu. “Sem gritar. Sem humilhar. Cantando.”

  • Cantigas de Malícia e Provocação — Quando o Canto Vira Duelo

    “Nem toda cantiga é de amor ou de saudade. Tem cantiga que é pra provocar.”

    Mestre Risadinha lançou um olhar malicioso para a roda. “E quando dois capoeiristas estão se estranhando no jogo, o cantador pode botar lenha na fogueira.”

    A Cantiga Como Ferramenta de Pressão

    Na capoeira, o cantador tem um poder enorme. Ele pode acalmar a roda ou esquentar. E uma das ferramentas pra esquentar é a cantiga de provocação — aquela que cutuca, que desafia, que testa o orgulho dos jogadores.

    O corrido “Sim, Sim, Sim / Não, Não, Não” é o exemplo clássico. Solista e coro discordam o tempo todo, criando uma tensão musical que se reflete no jogo:

    Solista: Sim, sim, sim!
    Coro: Não, não, não!
    Solista: Sim, sim, sim!
    Coro: Não, não, não!

    “Parece brincadeira de criança”, riu Mestre Risadinha. “Mas numa roda quente, com dois capoeiristas se provocando, esse ‘sim/não’ vira faísca. Cada ‘não’ do coro é uma cutucada no ego de quem tá jogando.”

    “Dona Maria, Cadê Meu Lenço?”

    Outra cantiga de provocação clássica. O solista pergunta, o coro rebate:

    Solista: Dona Maria, cadê meu lenço?
    Coro: O lenço caiu no mar!
    Solista: Dona Maria, cadê meu lenço?
    Coro: Foi Iemanjá que levou!

    “Na superfície, é uma cantiga sobre um lenço perdido”, explicou o mestre. “Mas na roda, o lenço é uma metáfora. Pode ser a confiança que você perdeu. Pode ser o golpe que você não viu chegar. Pode ser a vergonha de ter caído.”

    “O Batuque É Bom”

    Uma cantiga que literalmente desafia o ritmo:

    Solista: Ô, bate, bate, bate!
    Coro: O batuque é bom!
    Solista: Ô, bate, bate, bate!
    Coro: Que o batuque é bom!

    “Essa é das brabas”, disse Mestre Risadinha. “Quando o cantador puxa essa, a roda acelera junto. As palmas batem mais forte. O jogo sobe de temperatura. É a cantiga que transforma a roda numa caldeira.”

    Ele fez uma pausa. “Mas com responsabilidade. O cantador que esquenta a roda demais também é responsável pelo que acontece. Música é poder — e poder tem que vir com sabedoria.”

  • Cantigas de Despedida — Quando a Roda Precisa Acabar

    “Tudo que começa, termina. Inclusive a roda.”

    Mestre Risadinha falou isso com um tom que misturava sabedoria e um pouquinho de tristeza. Porque fechar a roda é sempre um momento agridoce — o corpo cansado, a alma cheia, e aquela vontade de que o jogo nunca acabasse.

    “Mas tem um jeito certo de terminar. E a música, mais uma vez, é quem manda.”

    As Cantigas de Adeus

    Existem cantigas específicas para encerrar a roda. Elas têm melodias mais lentas, letras que falam de partida, de saudade, de “até breve”. São os corridos de despedida, e quando o mestre começa a puxá-los, todo mundo entende: é hora de ir.

    A mais famosa delas é “Adeus, Adeus“:

    Solista: Adeus, adeus!
    Coro: Adeus, adeus!
    Solista: Que eu já vou me embora!
    Coro: Adeus, adeus!
    Solista: Eu vou pra minha terra!
    Coro: Adeus, adeus!

    Outra muito cantada é “Boa Viagem“:

    Solista: Boa viagem, boa viagem!
    Coro: Boa viagem!
    Solista: Eu vou, eu vou, eu vou!
    Coro: Boa viagem!

    “‘Adeus, Adeus’ e ‘Boa Viagem’”, explicou Mestre Risadinha, “são as cantigas do fim. Quando o mestre começa a puxar essas, você já sabe: termina o jogo, agradece, bate palma pro berimbau e vai pra casa com o coração cheio.”

    O Ritual de Encerramento

    Fechar a roda não é só parar de tocar. Existe um ritual:

    1. O cantador começa a puxar os corridos de despedida.
    2. Os jogadores que estão na roda terminam o jogo — sem pressa, com respeito.
    3. Ninguém mais “compra” o jogo. Quem está dentro sai. Ninguém entra.
    4. O berimbau toca as três batidas finais no chão — toc, toc, toc.
    5. Palmas para o berimbau. Palmas para os músicos. Palmas para os jogadores.
    6. A roda se desfaz.

    “E tem mais uma tradição”, acrescentou o mestre. “Depois da última cantiga, o mestre ou o cantador às vezes canta uma ladainha de encerramento — uma oração, um agradecimento, uma bênção. Ali, de mãos dadas, a roda vira família.”

    Ele sorriu. “A capoeira começa com música e termina com música. Porque a música é o que fica — mesmo depois que o corpo cansa.”

  • Samba de Roda — O Primo Baiano da Capoeira

    “Se vocês acham que a aula de capoeira acaba quando o berimbau para, vocês nunca ficaram até o fim.”

    Mestre Risadinha sorriu com aquele olhar de quem sabe de algo que os alunos ainda não descobriram. “Depois da última roda, quando o gunga silencia, tem grupo que começa o samba de roda. E aí, meus amigos… a aula vira festa.”

    O Que É o Samba de Roda

    O samba de roda é uma das matrizes fundamentais da música brasileira. Originário do Recôncavo Baiano — a mesma região que deu ao mundo a capoeira, o maculelê e o candomblé de nação —, o samba de roda mistura dança, canto e percussão numa roda (como o nome diz) onde cada participante entra no centro para “sambar”.

    Reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 2005 — nove anos antes da capoeira receber o mesmo título —, o samba de roda é considerado uma das raízes do samba carioca que conquistaria o Brasil no século XX.

    “A capoeira e o samba de roda”, explicou Mestre Risadinha, “são irmãos de criação. Nasceram no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, muitas vezes na mesma noite. O capoeirista que não sabe sambar… tá perdendo metade da festa.”

    A Conexão com a Capoeira

    Muitos mestres antigos — incluindo Pastinha e Bimba — eram também sambistas. A roda de capoeira e a roda de samba compartilham instrumentos (pandeiro, atabaque), estrutura circular e a dinâmica responsorial (solista e coro). Não é raro, em eventos de capoeira, que a roda de jogo se transforme naturalmente em roda de samba.

    “No Ginga SP”, contou o mestre, “a gente mantém essa tradição viva. Nosso samba de roda é parte do repertório cultural. Porque a capoeira não acaba quando o jogo acaba — ela continua na música, na dança, na confraternização.”

    As cantigas de samba de roda são geralmente mais alegres e festivas que as da capoeira. O ritmo é mais rápido, as palmas são diferentes (o “picado” do samba de roda é característico), e a umbigada — o convite para entrar na roda — é o gesto que define a dança.

    “E sabe qual é a melhor parte?”, perguntou Mestre Risadinha. “No samba de roda, não tem competição. Não tem vencedor. Todo mundo entra, todo mundo dança, todo mundo sai feliz. É a capoeira sem o combate — só a celebração.”

  • Puxada de Rede — O Canto dos Pescadores Que Virou Capoeira

    “Nem tudo que a gente canta no Ginga SP é capoeira.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Tem coisa que veio antes. Muito antes.”

    Ele começou a cantarolar uma melodia diferente — mais lenta, mais arrastada, como se cada nota puxasse um peso invisível. Os alunos reconheceram na hora: era puxada de rede.

    O Que É a Puxada de Rede

    A puxada de rede é uma manifestação cultural tradicional do litoral brasileiro — especialmente da Bahia — que os grupos de capoeira adotaram como parte do seu repertório. Ela representa o trabalho coletivo dos pescadores puxando a rede do mar, e é ao mesmo tempo canto, dança e teatro.

    “A puxada de rede não é luta”, explicou Mestre Risadinha. “É celebração. É memória. É homenagem aos pescadores — muitos deles negros, muitos deles capoeiristas — que tiravam o sustento do mar.”

    No Ginga SP, a puxada de rede é parte do repertório cultural que o grupo preserva — junto com o maculelê e o samba de roda. Mestre Risadinha faz questão de ensinar essas tradições porque acredita que a capoeira não existe isolada: ela é parte de um ecossistema cultural afro-brasileiro.

    Como Funciona

    Na encenação da puxada de rede, os participantes formam duas filas, simulando os pescadores que puxam a rede. No centro, uma pessoa representa Iemanjá — a rainha do mar — ou um pescador que “morreu no mar” e é carregado pelos companheiros. O canto é puxado por um solista e respondido pelo coro, exatamente como na capoeira:

    Solista: Puxa a rede, pescador!
    Coro: Puxa a rede, pescador!
    Solista: Que a rede vem pesada!
    Coro: Puxa a rede, pescador!
    Solista: Traz presente de Iemanjá!
    Coro: Puxa a rede, pescador!

    “Repara uma coisa”, apontou o mestre. “A estrutura musical é idêntica ao corrido. Solista puxa, coro responde. A diferença é o contexto — aqui a gente não tá lutando, a gente tá trabalhando junto.”

    A puxada de rede é uma das tradições mais bonitas que o Ginga SP preserva. Ela lembra que a capoeira vem do povo — do pescador, do agricultor, do trabalhador braçal — e que a música sempre foi companheira do esforço.

  • Criando Seu Próprio Jogo — Como Sair das Sequências e Improvisar

    “Tudo que eu ensinei até agora foram as letras do alfabeto.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa longa. “Ginga é a letra A. Meia-lua é a letra B. Compasso é a letra C. Vocês conhecem o alfabeto inteiro da capoeira.”

    Ele gingou, atacou, esquivou, floreou — tudo numa sequência fluida que não era nenhum dos golpes isolados que tinha ensinado. Era outra coisa. Era um jogo.

    “Agora vocês vão aprender a escrever.”

    Do Alfabeto à Poesia

    Na corda marrom, o capoeirista já domina os fundamentos. Sabe gingar, sabe atacar, sabe defender, sabe cair e levantar. O próximo passo não é aprender mais golpes — é aprender a combinar o que já sabe de forma pessoal, criativa e imprevisível.

    “O capoeirista maduro não joga igual a ninguém”, explicou Mestre Risadinha. “Ele tem estilo próprio. O jeito que ele ginga, a velocidade, os golpes que prefere, a malícia que imprimi — isso é assinatura. E ninguém pode copiar.”

    Como Desenvolver Seu Estilo

    1. Jogue Com Gente Diferente

    Cada adversário é uma aula nova. O grandalhão te ensina a usar distância. O baixinho te ensina a proteger as pernas. O acrobático te ensina a ler o ritmo. O malicioso te ensina a não cair em armadilha.

    “Se você só joga com os mesmos colegas, seu jogo estaciona”, alertou o mestre. “Visite outros grupos. Jogue com desconhecidos. Cada roda é uma universidade.”

    2. Escute o Berimbau Antes de se Mexer

    O capoeirista avançado não entra na roda e já começa a atacar. Ele sente o toque primeiro. Angola pede jogo de chão. São Bento Grande pede jogo aberto. Benguela pede jogo colado. Seu corpo precisa responder ao berimbau antes de responder ao adversário.

    3. Aprenda a Não Fazer Nada

    “Essa é a lição mais difícil”, confessou Mestre Risadinha. “Na ginga, você não precisa estar sempre atacando ou se defendendo. Às vezes, você só ginga. Observa. Espera. A capoeira é diálogo — e todo diálogo tem silêncios.”

    4. Crie Seu Repertório Pessoal

    Escolha de 3 a 5 golpes que você ama e domine-os completamente. Não tente saber 50 golpes meia-boca. Prefira 5 golpes que você executa de olho fechado, de qualquer ângulo, em qualquer ritmo. Esses serão sua assinatura.

    5. Mantenha a Malícia

    Malícia não se ensina em passo a passo. É a capacidade de ler o jogo, antecipar o movimento do outro, provocar sem ofender, sorrir enquanto ataca. A malícia é o que separa o lutador do capoeirista.

    “E sabe como se aprende malícia?”, perguntou o mestre. “Jogando. Caindo. Levantando. Jogando de novo. Não tem atalho.”

    Ele sorriu. “Mas quando você finalmente encontra seu jogo — aquele que é só seu —, não existe sensação melhor no mundo.”

  • Floreios e Acrobacias — Beleza, Risco e Controle

    “A capoeira é luta ou é dança?”

    Mestre Risadinha ouviu a pergunta que todo iniciante faz e sorriu. “As duas coisas. E tem mais: também é acrobacia. Também é teatro. Também é jogo.”

    Ele fez um aú sem mão — uma estrela no ar, sem tocar o chão —, emendou um macaco e terminou com um giro de corpo que parecia não ter fim. “Isso são floreios. E servem pra três coisas: impressionar, deslocar e desorientar.”

    O Que São Floreios

    Floreios são movimentos acrobáticos que não têm função ofensiva direta — não são golpes, não são defesas. São expressão corporal pura. Servem para embelezar o jogo, demonstrar controle, quebrar o ritmo do adversário e simplesmente celebrar o que o corpo é capaz de fazer.

    “Floreio não é frescura”, defendeu Mestre Risadinha. “É comunicação. Quando você faz um aú sem mão no meio da roda, você tá dizendo: ‘eu domino meu corpo. Respeita.’”

    Os principais floreios a partir da corda azul-marrom:

    • Aú sem mão (estrela sem mão): o aú executado sem apoiar as mãos no chão. É pura impulsão e controle do core.
    • Mortal: um salto com giro completo no ar. Exige técnica, coragem e um bom colchão pra treinar.
    • Relógio: giro do corpo no chão, apoiado em uma mão, com as pernas abertas — como os ponteiros de um relógio.
    • Pião de cabeça: giro contínuo apoiado na cabeça. Exige controle cervical absurdo — não tente sem supervisão.

    Quando Usar Floreios

    “Floreio tem hora”, alertou o mestre. “Não é pra toda roda. Numa roda de Angola, com o berimbau tocando lento, você não vai entrar com mortal. É deselegante. Mas numa roda de Regional acelerada, num batizado, numa apresentação — o floreio é bem-vindo.”

    Regras de ouro dos floreios:

    • Nunca arrisque um floreio que você não domina no treino. A roda não é lugar de teste.
    • Floreio não substitui capoeira. Se você só faz acrobacia e não sabe gingar, você é ginasta, não capoeirista.
    • Respeite o espaço. Não faça floreio em cima do outro jogador.

    “O floreio”, filosofou Mestre Risadinha, “é a cereja do bolo. Mas ninguém come só cereja. A massa — a ginga, o jogo, a malícia — é o que sustenta.”

  • Joelhada e Cotovelada — Golpes de Curta Distância Que Exigem Respeito

    “Agora a gente vai falar de dois golpes que quase ninguém ensina — mas que todo mundo respeita.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Joelhada. Cotovelada. Golpes de distância zero. Quando o adversário cola em você, e não dá mais pra usar perna.”

    Joelhada

    A joelhada é um golpe frontal de curtíssima distância, executado com o joelho. Na capoeira, ela aparece pouco — é mais associada ao muay thai —, mas tem seu lugar no “jogo de dentro”, quando os dois capoeiristas estão tão próximos que não há espaço para chutes circulares.

    “A joelhada na capoeira não é igual à do muay thai”, explicou o mestre. “No muay thai, você segura a cabeça do outro e puxa pra baixo. Na capoeira, você não agarra. A joelhada é rápida, solta, e volta imediatamente pra ginga.”

    Passo a passo:

    1. Aproxime-se do adversário — a joelhada exige distância de um palmo.
    2. Eleve o joelho em direção ao tronco ou abdômen.
    3. O impacto é com a parte superior do joelho (logo acima da patela).
    4. Recolha a perna imediatamente e afaste-se.

    “Na roda, a joelhada é golpe de marcação“, disse Mestre Risadinha. “Você mostra que poderia ter batido, mas não bate. É um aviso: ‘respeita a distância’.”

    Cotovelada

    A cotovelada é ainda mais íntima que a joelhada. Executada com a ponta do cotovelo, mirando o tronco ou — em situações extremamente controladas — o queixo, é o golpe do espaço mínimo.

    “A cotovelada não é golpe de roda”, admitiu o mestre. “É golpe de rua. Na capoeira do século XIX, quando a luta era real e a polícia vinha com cassetete, o cotovelo salvava vidas. Hoje, a gente treina pra manter a tradição — e pra entender que a capoeira também é defesa pessoal.”

    Passo a passo:

    1. Com o adversário extremamente próximo, gire o tronco.
    2. Projete o cotovelo para frente, mirando o tronco.
    3. O impacto é com a ponta óssea do cotovelo.
    4. Recue imediatamente.

    “Esses dois golpes”, concluiu o mestre, “são o último recurso. Você só usa quando não tem mais espaço pra nada. E, na roda, você nunca — nunca — acerta de verdade. É demonstração. É respeito.”

  • Ponte e Bananeira — Controle Total do Corpo Invertido

    “Ficar de cabeça pra baixo não é natural pro ser humano. Mas pro capoeirista, é.”

    Mestre Risadinha plantou as duas mãos no chão, impulsionou as pernas e ficou imóvel — completamente invertido, as pernas retas apontando para o teto, como uma estátua. Segurou por dez segundos. Depois, lentamente, desceu as pernas e voltou a gingar.

    “Bananeira. E a prima dela, ponte. Dois movimentos que não servem pra bater em ninguém — mas sem eles, você não controla seu próprio corpo de ponta-cabeça. E na capoeira, você passa muito tempo de ponta-cabeça.”

    Bananeira (Parada de Mão)

    A bananeira é exatamente o que parece: ficar de cabeça para baixo, apoiado nas mãos, com o corpo alinhado. Na capoeira, ela não é um fim — é uma posição de transição. Da bananeira saem aús, chutes, esquivas invertidas.

    Passo a passo:

    1. Partindo da ginga, coloque as duas mãos no chão à sua frente, na largura dos ombros.
    2. Impulsione com a perna de trás — ela sobe primeiro.
    3. A perna da frente acompanha imediatamente.
    4. Una as duas pernas no alto. Mantenha o corpo alinhado — cabeça entre os braços, olhar para as mãos.
    5. Respire. Segure. Desça controladamente.

    “A bananeira”, ensinou o mestre, “não é força de braço. É equilíbrio. Se você tentar segurar na força, seus braços cansam em 5 segundos. Se você encontrar o ponto de equilíbrio, fica um minuto.”

    Ponte

    A ponte é o oposto: em vez de ficar reto de cabeça para baixo, você arqueia a coluna para trás, apoiando as mãos e os pés no chão, formando um arco. Na capoeira, a ponte serve como esquiva extrema — contra golpes altíssimos — e como transição para movimentos de chão.

    Passo a passo:

    1. Em pé, com os pés afastados na largura dos ombros.
    2. Eleve os braços acima da cabeça.
    3. Incline o tronco para trás, lentamente, olhando para suas mãos.
    4. Quando suas mãos tocarem o chão, empurre o quadril para cima — o corpo forma um arco.
    5. Para sair, inverta o movimento ou role para o lado.

    “A ponte exige flexibilidade de coluna“, alertou Mestre Risadinha. “Não force. Se você não chega no chão ainda, vai chegando aos poucos, um centímetro por dia. A capoeira é paciente.”

    Na roda, a ponte aparece em momentos de pura beleza — quando um capoeirista se esquiva de um golpe alto arqueando o corpo para trás como se fosse de borracha. É um dos movimentos que mais impressionam o público.