Puxada de Rede — O Canto dos Pescadores Que Virou Capoeira

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“Nem tudo que a gente canta no Ginga SP é capoeira.”

Mestre Risadinha fez uma pausa. “Tem coisa que veio antes. Muito antes.”

Ele começou a cantarolar uma melodia diferente — mais lenta, mais arrastada, como se cada nota puxasse um peso invisível. Os alunos reconheceram na hora: era puxada de rede.

O Que É a Puxada de Rede

A puxada de rede é uma manifestação cultural tradicional do litoral brasileiro — especialmente da Bahia — que os grupos de capoeira adotaram como parte do seu repertório. Ela representa o trabalho coletivo dos pescadores puxando a rede do mar, e é ao mesmo tempo canto, dança e teatro.

“A puxada de rede não é luta”, explicou Mestre Risadinha. “É celebração. É memória. É homenagem aos pescadores — muitos deles negros, muitos deles capoeiristas — que tiravam o sustento do mar.”

No Ginga SP, a puxada de rede é parte do repertório cultural que o grupo preserva — junto com o maculelê e o samba de roda. Mestre Risadinha faz questão de ensinar essas tradições porque acredita que a capoeira não existe isolada: ela é parte de um ecossistema cultural afro-brasileiro.

Como Funciona

Na encenação da puxada de rede, os participantes formam duas filas, simulando os pescadores que puxam a rede. No centro, uma pessoa representa Iemanjá — a rainha do mar — ou um pescador que “morreu no mar” e é carregado pelos companheiros. O canto é puxado por um solista e respondido pelo coro, exatamente como na capoeira:

Solista: Puxa a rede, pescador!
Coro: Puxa a rede, pescador!
Solista: Que a rede vem pesada!
Coro: Puxa a rede, pescador!
Solista: Traz presente de Iemanjá!
Coro: Puxa a rede, pescador!

“Repara uma coisa”, apontou o mestre. “A estrutura musical é idêntica ao corrido. Solista puxa, coro responde. A diferença é o contexto — aqui a gente não tá lutando, a gente tá trabalhando junto.”

A puxada de rede é uma das tradições mais bonitas que o Ginga SP preserva. Ela lembra que a capoeira vem do povo — do pescador, do agricultor, do trabalhador braçal — e que a música sempre foi companheira do esforço.

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