“A capoeira da Bahia não é igual à de São Paulo. A de Pernambuco não é igual à do Rio. E as cantigas… muito menos.”
Mestre Risadinha pegou o pandeiro e tocou um ritmo diferente — algo entre o coco e o samba de roda.
“Isso aqui é cantiga de capoeira de Pernambuco. Tem outra levada. Tem outro sotaque.”
Bahia — O Berço Que Canta Angola
A Bahia é a mãe da capoeira. As cantigas baianas têm o ritmo lento e solene da Capoeira Angola — a ladainha longa, as saudações pausadas, os corridos arrastados. Mestre Pastinha, Mestre Waldemar, Mestre Bimba: todos moldaram o jeito baiano de cantar capoeira.
As letras baianas falam do Recôncavo, do mar, do dendê, dos orixás. O vocabulário é carregado de expressões locais — “camará”, “colega velho”, “meu compadre”.
“Quando você ouve uma cantiga baiana”, disse o mestre, “você sente o cheiro do acarajé e o calor do Pelourinho. A música carrega o lugar.”
Uma cantiga tipicamente baiana:
Solista: Ê, Bahia, terra de São Salvador!
Coro: Ê, Bahia, terra de São Salvador!
Solista: Quem vai pra Bahia,
Muita saudade deixou!
Coro: Ê, Bahia, terra de São Salvador!
Pernambuco — O Galope Nordestino
Pernambuco tem um ritmo mais acelerado, herança do frevo e do maracatu. As cantigas pernambucanas de capoeira são mais rítmicas, mais dançantes. Grupos como o Cativeiro e o Raízes do Brasil mantêm essa tradição.
“Em Pernambuco”, contou Mestre Risadinha, “teve um mestre chamado Naldinho que misturou capoeira com frevo. Imagina: o cara fazia aú no ritmo do frevo. Isso é Brasil puro.”
Rio de Janeiro — As Cantigas da Malandragem
O Rio foi o berço das maltas — Nagoas e Guaiamus —, e as cantigas cariocas refletem esse passado. São cantigas de malandro, de navalha, de noite na Lapa. Madame Satã cantava assim. Tem mais “gíria” e menos “reza”.
Um exemplo de corrido carioca:
Solista: O malandro que é malandro,
Não dorme, não cochila!
Coro: O malandro que é malandro,
Não dorme, não cochila!
São Paulo — O Caldeirão de Sotaques
São Paulo — onde está o Ginga SP — é o lugar mais misturado da capoeira brasileira. Aqui tem baiano, pernambucano, carioca, mineiro — todo mundo na mesma roda. O repertório paulistano é um mosaico: canta-se Angola, Regional, Contemporânea, e também as cantigas que os mestres migrantes trouxeram.
“Aqui no Ginga SP”, explicou Mestre Risadinha, “a gente canta de tudo. Respeita a tradição baiana, aprende a levada pernambucana, curte a malandragem carioca. E inventa as nossas também.”
Ele puxou mais um corrido — e dessa vez, o sotaque era de São Paulo, mas o coração era do Brasil inteiro.



