“Vocês acham que a capoeira é a única arte que a gente pratica aqui?”
Mestre Risadinha pegou dois bastões de madeira — daqueles que ficam encostados no canto do salão — e bateu um no outro. O som ecoou seco, vibrante, como um alerta.
“Hoje a gente vai falar do irmão da capoeira. O maculelê.”
O Que É Maculelê
Maculelê é uma dança-luta de origem africana, praticada com bastões de madeira. Os dançarinos — em roda, como na capoeira — batem os bastões em ritmo frenético, alternando golpes e defesas, enquanto o coro canta e o atabaque marca a pulsação.
“A lenda conta que maculelê era um guerreiro africano tão forte que enfrentava tribos inteiras sozinho”, contou Mestre Risadinha. “Um dia, ele foi atacado por uma tribo rival — e lutou usando só dois pedaços de pau. Quando ficou cansado demais pra continuar, os atacantes o respeitaram e o deixaram ir. Daí nasceu a dança.”
História ou mito? “As duas coisas”, desconversou o mestre. “O que importa é que o maculelê sobreviveu. Veio da África pro Brasil, se misturou com tradições indígenas — os povos originários também usavam bastões em rituais — e virou essa arte que a gente pratica até hoje.”
Como Funciona
No maculelê, a roda é formada por dançarinos, cada um com dois bastões. O ritmo é marcado pelo atabaque — tocado com as mãos, em cadência rápida e constante. O canto é responsorial, igual ao corrido da capoeira: solista puxa, coro responde.
Os movimentos alternam entre golpes de ataque e defesa — os bastões se cruzam no ar produzindo aquele som seco, tac-tac-tac, que é a assinatura do maculelê. O pé bate forte no chão a cada golpe, dando peso e enraizamento aos movimentos.
“No Ginga SP”, explicou o mestre, “a gente pratica maculelê como parte do nosso repertório cultural. Capoeira, maculelê, puxada de rede, samba de roda — tudo é família.”
As Cantigas de Maculelê
O repertório do maculelê tem cantigas próprias, diferentes das da capoeira. Muitas falam do próprio maculelê, dos bastões, dos mestres antigos. Outras são adaptações de cantigas populares nordestinas.
Uma das mais tradicionais:
Solista: Ô maculelê, ô maculelê!
Coro: Ô maculelê, ô maculelê!
Solista: Eu vim de Angola,
Eu vim de Angola,
Eu vim de Angola,
Pra jogar maculelê!
Coro: Ô maculelê, ô maculelê!
Outra muito cantada nas rodas:
Solista: Sou eu, sou eu,
Sou eu maculelê, sou eu!
Coro: Sou eu, sou eu,
Sou eu maculelê, sou eu!
“Repara que é tudo muito repetitivo”, apontou Mestre Risadinha. “De propósito. O maculelê exige concentração total — você tá com dois bastões na mão, alguém tá batendo em você, e você precisa defender. Se a cantiga fosse complicada, ninguém conseguia cantar e lutar ao mesmo tempo.”
Por Que Isso Importa
O maculelê é primo-irmão da capoeira. As duas artes compartilham a mesma origem africana, a mesma estrutura de roda, o mesmo canto responsorial, a mesma filosofia de resistência. Muitos grupos de capoeira — incluindo o Ginga SP — ensinam as duas coisas juntas, como partes da mesma herança.
“Quando a gente pratica maculelê”, concluiu o mestre, “a gente tá tocando numa memória que vem de muito antes do Brasil — de um tempo em que dançar com bastões era sagrado, era defesa, era identidade.”
Ele bateu os dois bastões um no outro — tac — e entregou um par para o aluno mais próximo.
“Agora chega de escutar. Vamo suar.”




