“Quem disse que a aula já acabou?” Mestre Risadinha olhou para o relógio, depois para os alunos, e deu aquele sorriso que todo mundo já conhece. “A gente só para quando o berimbau mandar.”
Ele ajeitou a corda na cintura e continuou o repertório do Ginga SP.
A Roda Já Começou
Essa é, talvez, a cantiga mais cantada em qualquer grupo de capoeira. É o “parabéns pra você” da capoeira — não tem roda que não passe por ela:
Solista: A roda já começou!
Coro: A roda já começou, camará!
Solista: E eu não posso parar!
Coro: E eu não posso parar, camará!
“Parece simples”, comentou o mestre. “E é. Mas repara: é um compromisso. Quando você canta ‘eu não posso parar’, você tá dizendo pra roda inteira que tá ali de corpo e alma. Não vai desistir no meio do jogo. Não vai sair correndo quando cansar.”
Ele parou por um instante. “Isso é a capoeira, aliás. Uma arte onde você aprende a não desistir.”
Coco Mironga Que Tem Dendê
Os alunos mais novos se entreolharam. Coco mironga? Dendê?
“Essa aqui é das antigas”, riu Mestre Risadinha. “Vem lá do Recôncavo Baiano, das rodas de rua de Salvador do começo do século XX.”
Solista: Coco mironga que tem dendê!
Coro: Coco mironga que tem dendê!
Solista: No coco tem dendê!
Coro: Coco mironga que tem dendê!
Ele explicou: “Coco” na Bahia é uma fruta — o coco mesmo, mas também tem um jogo de palavras. “Mironga” no vocabulário afro-brasileiro é mistério, segredo, coisa que não se revela. E “dendê” é o azeite de palma, base da culinária baiana — e também símbolo do sagrado, do axé, da energia que move o mundo.
“Então quando a gente canta ‘coco mironga que tem dendê’”, traduziu o mestre, “a gente tá falando: nessa roda tem mistério, tem força, tem energia ancestral. Quem entrar aqui, respeite.”
Os alunos assentiram. De repente, a musiquinha engraçada ficou séria.
Balaio de Café
“Essa aqui eu gosto porque conta uma história”, disse Mestre Risadinha. “História de trabalho.”
Solista: Balaio de café,
Balaio de café,
Balaio de café,
Que pesa uma arroba!
Coro: Balaio de café,
Que pesa uma arroba!
O “balaio” era o cesto onde os trabalhadores das fazendas de café carregavam os grãos — nas costas, debaixo de sol, do amanhecer ao anoitecer. Uma arroba são 15 quilos. Imagina carregar 15 quilos nas costas o dia inteiro.
“Essa cantiga vem dos tempos da escravidão e do pós-abolição”, explicou o mestre. “Os trabalhadores cantavam pra tornar o trabalho menos pesado. A música disfarçava o sofrimento.”
Ele fez uma pausa. “Isso é a capoeira: até o que parece brincadeira tem dor por trás. Presta atenção.”
Na Beira do Mar
“Tem uma outra versão de Na Beira do Mar que a gente canta aqui”, disse o mestre. “Mais rápida, mais pra cima:”
Solista: Na beira do mar,
Na beira do mar,
Aprendi a jogar,
Capoeira de Angola,
Na beira do mar!
Coro: Na beira do mar,
Aprendi a jogar!
“Essa versão é mais autobiográfica”, comentou. “O capoeirista contando onde aprendeu. Muitos mestres antigos jogavam na praia — a areia fofa dificulta o movimento, então quem joga bem na areia joga bem em qualquer lugar.”
O pandeiro acelerou. O coro respondeu mais alto. E Mestre Risadinha sorriu — daquele jeito que só ele sorri.

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