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  • O Cancioneiro do Ginga SP — As Nossas Cantigas

    O Cancioneiro do Ginga SP — As Nossas Cantigas

    “Toda cantiga que eu ensinei até agora veio da tradição — dos mestres antigos, das rodas da Bahia, das senzalas. Mas o Ginga SP também tem as suas.”

    O Cancioneiro do Ginga SP — As Nossas Cantigas
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0 (Ayres Alves de Lima Sales)

    Mestre Risadinha se ajeitou na roda. Os alunos, que conheciam essas cantigas de cor, sorriram. Era o momento mais esperado da aula de cantigas — quando o mestre puxava as nossas.

    “Porque a capoeira é viva. A tradição não é um museu — é um rio. Corre, muda, recebe afluentes. E a gente, aqui no Ginga SP, também coloca nossa gota d’água nesse rio.”

    As Cantigas do Ginga SP

    Nem todas as cantigas que o grupo canta foram compostas aqui. Muitas são adaptações — cantigas tradicionais que ganharam novos versos, novas melodias, novo significado na boca dos alunos e mestres do Ginga SP.

    “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia”, “A Roda Já Começou”, “Coco Mironga”, “Balaio de Café”, “Na Beira do Mar” — essas são as pedras fundamentais do nosso repertório. Cada uma tem sua história, seu momento na roda, sua razão de ser.

    “Quando a gente canta ‘Tava na Beira do Mar’”, refletiu Mestre Risadinha, “a gente não tá só cantando sobre Iemanjá. A gente tá cantando sobre a comunidade que construímos aqui. Cada verso à uma memória coletiva.”

    O Futuro do Cancioneiro

    O Ginga SP continua criando, adaptando, preservando. Alunos mais avançados são incentivados a compor suas próprias cantigas. Mestre Risadinha acredita que a renovação do repertório é sinal de que o grupo está vivo.

    “Ano passado, um aluno nosso — o Pedro, da corda azul — compôs uma ladainha sobre o Projeto Semear”, contou o mestre, os olhos brilhando. “Falava das crianças que a gente atende, dos sábados de manhã, do cheiro do salão depois da chuva. Coisa simples. Coisa nossa. E quando ele cantou na roda, todo mundo respondeu.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Isso é capoeira. Não é só repetir o que os antigos fizeram. é continuar o que eles começaram.”

    Ele bateu o pandeiro trás vezes e puxou mais uma. O coro respondeu. E o cancioneiro do Ginga SP ganhou mais uma página.

  • Samba de Roda — O Primo Baiano da Capoeira

    Samba de Roda — O Primo Baiano da Capoeira

    “Se vocês acham que a aula de capoeira acaba quando o berimbau para, vocês nunca ficaram até o fim.”

    Samba de Roda — O Primo Baiano da Capoeira
    Wikimedia Commons — CC0, autor Bahiense.7

    Mestre Risadinha sorriu com aquele olhar de quem sabe de algo que os alunos ainda não descobriram. “Depois da última roda, quando o gunga silencia, tem grupo que começa o samba de roda. E aí, meus amigos… a aula vira festa.”

    O Que É o Samba de Roda

    O samba de roda é uma das matrizes fundamentais da música brasileira. Originário do Recôncavo Baiano — a mesma região que deu ao mundo a capoeira, o maculelê e o candomblé de nação —, o samba de roda mistura dança, canto e percussão numa roda (como o nome diz) onde cada participante entra no centro para “sambar”.

    Reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 2005 — nove anos antes da capoeira receber o mesmo título —, o samba de roda é considerado uma das raízes do samba carioca que conquistaria o Brasil no século XX.

    “A capoeira e o samba de roda”, explicou Mestre Risadinha, “são irmãos de criação. Nasceram no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, muitas vezes na mesma noite. O capoeirista que não sabe sambar… tá perdendo metade da festa.”

    A Conexão com a Capoeira

    Muitos mestres antigos — incluindo Pastinha e Bimba — eram também sambistas. A roda de capoeira e a roda de samba compartilham instrumentos (pandeiro, atabaque), estrutura circular e a dinâmica responsorial (solista e coro). Não é raro, em eventos de capoeira, que a roda de jogo se transforme naturalmente em roda de samba.

    “No Ginga SP”, contou o mestre, “a gente mantém essa tradição viva. Nosso samba de roda é parte do repertório cultural. Porque a capoeira não acaba quando o jogo acaba — ela continua na música, na dança, na confraternização.”

    As cantigas de samba de roda são geralmente mais alegres e festivas que as da capoeira. O ritmo é mais rápido, as palmas são diferentes (o “picado” do samba de roda é característico), e a umbigada — o convite para entrar na roda — é o gesto que define a dança.

    “E sabe qual é a melhor parte?”, perguntou Mestre Risadinha. “No samba de roda, não tem competição. Não tem vencedor. Todo mundo entra, todo mundo dança, todo mundo sai feliz. É a capoeira sem o combate — só a celebração.”

  • Puxada de Rede — O Canto dos Pescadores Que Virou Capoeira

    Puxada de Rede — O Canto dos Pescadores Que Virou Capoeira

    “Nem tudo que a gente canta no Ginga SP é capoeira.”

    Puxada de Rede — O Canto dos Pescadores Que Virou Capoeira
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0, autor SebáNeto

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Tem coisa que veio antes. Muito antes.”

    Ele começou a cantarolar uma melodia diferente — mais lenta, mais arrastada, como se cada nota puxasse um peso invisível. Os alunos reconheceram na hora: era puxada de rede.

    O Que É a Puxada de Rede

    A puxada de rede é uma manifestação cultural tradicional do litoral brasileiro — especialmente da Bahia — que os grupos de capoeira adotaram como parte do seu repertório. Ela representa o trabalho coletivo dos pescadores puxando a rede do mar, e é ao mesmo tempo canto, dança e teatro.

    “A puxada de rede não é luta”, explicou Mestre Risadinha. “É celebração. É memória. É homenagem aos pescadores — muitos deles negros, muitos deles capoeiristas — que tiravam o sustento do mar.”

    No Ginga SP, a puxada de rede é parte do repertório cultural que o grupo preserva — junto com o maculelê e o samba de roda. Mestre Risadinha faz questão de ensinar essas tradições porque acredita que a capoeira não existe isolada: ela é parte de um ecossistema cultural afro-brasileiro.

    Como Funciona

    Na encenação da puxada de rede, os participantes formam duas filas, simulando os pescadores que puxam a rede. No centro, uma pessoa representa Iemanjá — a rainha do mar — ou um pescador que “morreu no mar” e é carregado pelos companheiros. O canto é puxado por um solista e respondido pelo coro, exatamente como na capoeira:

    Solista: Puxa a rede, pescador!
    Coro: Puxa a rede, pescador!
    Solista: Que a rede vem pesada!
    Coro: Puxa a rede, pescador!
    Solista: Traz presente de Iemanjá!
    Coro: Puxa a rede, pescador!

    “Repara uma coisa”, apontou o mestre. “A estrutura musical é idêntica ao corrido. Solista puxa, coro responde. A diferença é o contexto — aqui a gente não tá lutando, a gente tá trabalhando junto.”

    A puxada de rede é uma das tradições mais bonitas que o Ginga SP preserva. Ela lembra que a capoeira vem do povo — do pescador, do agricultor, do trabalhador braçal — e que a música sempre foi companheira do esforço.

  • Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África

    Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África

    “Vocês acham que a capoeira é a única arte que a gente pratica aqui?”

    Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0, autor Joel Zimmer

    Mestre Risadinha pegou dois bastões de madeira — daqueles que ficam encostados no canto do salão — e bateu um no outro. O som ecoou seco, vibrante, como um alerta.

    “Hoje a gente vai falar do irmão da capoeira. O maculelê.”

    O Que É Maculelê

    Maculelê é uma dança-luta de origem africana, praticada com bastões de madeira. Os dançarinos — em roda, como na capoeira — batem os bastões em ritmo frenético, alternando golpes e defesas, enquanto o coro canta e o atabaque marca a pulsação.

    “A lenda conta que maculelê era um guerreiro africano tão forte que enfrentava tribos inteiras sozinho”, contou Mestre Risadinha. “Um dia, ele foi atacado por uma tribo rival — e lutou usando só dois pedaços de pau. Quando ficou cansado demais pra continuar, os atacantes o respeitaram e o deixaram ir. Daí nasceu a dança.”

    História ou mito? “As duas coisas”, desconversou o mestre. “O que importa é que o maculelê sobreviveu. Veio da África pro Brasil, se misturou com tradições indígenas — os povos originários também usavam bastões em rituais — e virou essa arte que a gente pratica até hoje.”

    Como Funciona

    No maculelê, a roda é formada por dançarinos, cada um com dois bastões. O ritmo é marcado pelo atabaque — tocado com as mãos, em cadência rápida e constante. O canto é responsorial, igual ao corrido da capoeira: solista puxa, coro responde.

    Os movimentos alternam entre golpes de ataque e defesa — os bastões se cruzam no ar produzindo aquele som seco, tac-tac-tac, que é a assinatura do maculelê. O pé bate forte no chão a cada golpe, dando peso e enraizamento aos movimentos.

    “No Ginga SP”, explicou o mestre, “a gente pratica maculelê como parte do nosso repertório cultural. Capoeira, maculelê, puxada de rede, samba de roda — tudo é família.”

    As Cantigas de Maculelê

    O repertório do maculelê tem cantigas próprias, diferentes das da capoeira. Muitas falam do próprio maculelê, dos bastões, dos mestres antigos. Outras são adaptações de cantigas populares nordestinas.

    Uma das mais tradicionais:

    Solista: Ô maculelê, ô maculelê!
    Coro: Ô maculelê, ô maculelê!
    Solista: Eu vim de Angola,
    Eu vim de Angola,
    Eu vim de Angola,
    Pra jogar maculelê!
    Coro: Ô maculelê, ô maculelê!

    Outra muito cantada nas rodas:

    Solista: Sou eu, sou eu,
    Sou eu maculelê, sou eu!
    Coro: Sou eu, sou eu,
    Sou eu maculelê, sou eu!

    “Repara que é tudo muito repetitivo”, apontou Mestre Risadinha. “De propósito. O maculelê exige concentração total — você tá com dois bastões na mão, alguém tá batendo em você, e você precisa defender. Se a cantiga fosse complicada, ninguém conseguia cantar e lutar ao mesmo tempo.”

    Por Que Isso Importa

    O maculelê é primo-irmão da capoeira. As duas artes compartilham a mesma origem africana, a mesma estrutura de roda, o mesmo canto responsorial, a mesma filosofia de resistência. Muitos grupos de capoeira — incluindo o Ginga SP — ensinam as duas coisas juntas, como partes da mesma herança.

    “Quando a gente pratica maculelê”, concluiu o mestre, “a gente tá tocando numa memória que vem de muito antes do Brasil — de um tempo em que dançar com bastões era sagrado, era defesa, era identidade.”

    Ele bateu os dois bastões um no outro — tac — e entregou um par para o aluno mais próximo.

    “Agora chega de escutar. Vamo suar.”

  • A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP

    A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP

    “Quem disse que a aula já acabou?” Mestre Risadinha olhou para o relógio, depois para os alunos, e deu aquele sorriso que todo mundo já conhece. “A gente só para quando o berimbau mandar.”

    A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0, autor Ayres Alves de Lima Sales

    Ele ajeitou a corda na cintura e continuou o repertório do Ginga SP.

    A Roda Já Começou

    Essa é, talvez, a cantiga mais cantada em qualquer grupo de capoeira. É o “parabéns pra você” da capoeira — não tem roda que não passe por ela:

    Solista: A roda já começou!
    Coro: A roda já começou, camará!
    Solista: E eu não posso parar!
    Coro: E eu não posso parar, camará!

    “Parece simples”, comentou o mestre. “E é. Mas repara: é um compromisso. Quando você canta ‘eu não posso parar’, você tá dizendo pra roda inteira que tá ali de corpo e alma. Não vai desistir no meio do jogo. Não vai sair correndo quando cansar.”

    Ele parou por um instante. “Isso é a capoeira, aliás. Uma arte onde você aprende a não desistir.”

    Coco Mironga Que Tem Dendê

    Os alunos mais novos se entreolharam. Coco mironga? Dendê?

    “Essa aqui é das antigas”, riu Mestre Risadinha. “Vem lá do Recôncavo Baiano, das rodas de rua de Salvador do começo do século XX.”

    Solista: Coco mironga que tem dendê!
    Coro: Coco mironga que tem dendê!
    Solista: No coco tem dendê!
    Coro: Coco mironga que tem dendê!

    Ele explicou: “Coco” na Bahia é uma fruta — o coco mesmo, mas também tem um jogo de palavras. “Mironga” no vocabulário afro-brasileiro é mistério, segredo, coisa que não se revela. E “dendê” é o azeite de palma, base da culinária baiana — e também símbolo do sagrado, do axé, da energia que move o mundo.

    “Então quando a gente canta ‘coco mironga que tem dendê’”, traduziu o mestre, “a gente tá falando: nessa roda tem mistério, tem força, tem energia ancestral. Quem entrar aqui, respeite.”

    Os alunos assentiram. De repente, a musiquinha engraçada ficou séria.

    Balaio de Café

    “Essa aqui eu gosto porque conta uma história”, disse Mestre Risadinha. “História de trabalho.”

    Solista: Balaio de café,
    Balaio de café,
    Balaio de café,
    Que pesa uma arroba!
    Coro: Balaio de café,
    Que pesa uma arroba!

    O “balaio” era o cesto onde os trabalhadores das fazendas de café carregavam os grãos — nas costas, debaixo de sol, do amanhecer ao anoitecer. Uma arroba são 15 quilos. Imagina carregar 15 quilos nas costas o dia inteiro.

    “Essa cantiga vem dos tempos da escravidão e do pós-abolição”, explicou o mestre. “Os trabalhadores cantavam pra tornar o trabalho menos pesado. A música disfarçava o sofrimento.”

    Ele fez uma pausa. “Isso é a capoeira: até o que parece brincadeira tem dor por trás. Presta atenção.”

    Na Beira do Mar

    “Tem uma outra versão de Na Beira do Mar que a gente canta aqui”, disse o mestre. “Mais rápida, mais pra cima:”

    Solista: Na beira do mar,
    Na beira do mar,
    Aprendi a jogar,
    Capoeira de Angola,
    Na beira do mar!
    Coro: Na beira do mar,
    Aprendi a jogar!

    “Essa versão é mais autobiográfica”, comentou. “O capoeirista contando onde aprendeu. Muitos mestres antigos jogavam na praia — a areia fofa dificulta o movimento, então quem joga bem na areia joga bem em qualquer lugar.”

    O pandeiro acelerou. O coro respondeu mais alto. E Mestre Risadinha sorriu — daquele jeito que só ele sorri.

  • Tava na Beira do Mar, La Lauê — As Cantigas do Ginga SP

    Tava na Beira do Mar, La Lauê — As Cantigas do Ginga SP

    “Agora chega de teoria”, anunciou Mestre Risadinha, batendo o pandeiro na palma da mão. “Vamos cantar as nossas.”

    Os alunos se ajeitaram. Todo mundo no Ginga SP sabe que tem um momento da aula em que o mestre para de explicar e começa a puxar o coro — e esse é o momento que todo mundo mais gosta.

    “Primeira de hoje: Tava na Beira do Mar.”

    Tava na Beira do Mar

    Essa é uma das cantigas mais cantadas nas rodas do Ginga SP. Tem melodia suave, que parece onda do mar — vai e vem, vai e vem. A letra fala de Iemanjá, a rainha das águas, e da relação do capoeirista com o oceano:

    Tava na beira do mar,
    Tava na beira do mar,
    Eu vi Iemanjá,
    Sentada na areia,
    Sentada na areia,
    A beira do mar.

    “O mar na capoeira é símbolo poderoso”, explicou Mestre Risadinha. “É o Atlântico que os africanos cruzaram. É a saudade da terra que ficou pra trás. E é também o mistério — o que tem no fundo do mar, ninguém sabe.”

    O refrão é simples, repetitivo — exatamente como as cantigas tradicionais devem ser. Fácil de aprender, fácil de cantar junto. É o tipo de corrido que o mestre puxa quando quer acalmar a roda, trazer todo mundo de volta ao ritmo.

    La Lauê

    “Agora essa aqui é diferente”, avisou o mestre. “La Lauê tem uma energia que sobe.”

    E subiu mesmo. No primeiro verso, os alunos mais experientes já responderam em coro. É uma cantiga que mexe com o corpo — impossível ficar parado ouvindo:

    Solista: Ô la lauê, la lauê!
    Coro: Ô la lauê, la lauê!
    Solista: Ô la lauê, la lauê!
    Coro: Ô la lauê, la lauê!

    “Essa é daquelas que não tem significado exato nas palavras”, admitiu Mestre Risadinha. “É som, é ritmo, é energia. Vem das tradições orais africanas, onde a voz é instrumento musical antes de ser veículo de significado. O que importa é a vibração.”

    E ele explicou que isso é comum na capoeira: nem toda cantiga tem uma “história” pra contar. Algumas existem simplesmente pra fazer o corpo responder — e isso também é sabedoria.

    Você Disse um Dia

    “Essa próxima”, disse o mestre, com um sorriso maroto, “é sobre promessa.”

    Solista: Você disse um dia
    Que vinha me ver,
    Você disse um dia
    Que vinha me ver.
    Coro: Você disse um dia
    Que vinha me ver.

    Os alunos riram. Todo mundo conhece a sensação — a pessoa que prometeu aparecer na roda e nunca veio. A cantiga é quase uma cobrança musical, um “cadê você?” cantado.

    “Mas tem outra camada”, completou Mestre Risadinha. “Essa cantiga também fala dos mestres que já se foram. A gente canta esperando que eles apareçam — nem que seja em espírito. E eles sempre vêm.”

    A roda fez silêncio por um instante. Alguém bateu palma, devagar. E o mestre já estava puxando a próxima.

  • Mestre Risadinha e o Sonho Chamado Ginga SP

    Mestre Risadinha e o Sonho Chamado Ginga SP

    Era 1994. Um jovem chamado Valdecir Ferreira dos Santos olhou para um amigo — o Beto Social — e disse: “Vamos montar um grupo de capoeira.”

    Não tinha dinheiro. Não tinha espaço. Não tinha nada além de um berimbau velho, um nome — Ginga São Paulo — e uma vontade que não cabia no peito.

    “E foi assim que tudo começou”, contou Mestre Risadinha, enquanto os alunos se ajeitavam na roda. “Com um sonho e uma aposta.”

    Por Que ‘Risadinha’?

    O apelido veio antes do título de mestre. Valdecir era um adolescente magrinho, de sorriso fácil — daqueles que riem de tudo, até das dificuldades. Na roda de capoeira, enquanto outros fechavam a cara pra parecerem mais duros, ele ria. Gingava e ria. Levava rasteira e ria. Dava rasteira e ria também.

    “Risadinha” grudou. E, com o tempo, virou nome de guerra, nome de mestre, nome de respeito.

    “Tem gente que acha que mestre tem que ser sério”, ele diz. “Eu acho que a capoeira é alegria. Se não for pra sorrir, pra que jogar?”

    Os Primeiros Anos

    O Ginga SP começou num espaço emprestado, com meia dúzia de alunos. O objetivo era simples e ambicioso ao mesmo tempo: resgatar a capoeira como patrimônio cultural completo. Não era só dar aula de golpe. Era ensinar a história, a música, a filosofia — tudo que Mestre Risadinha tinha aprendido com seus próprios mestres.

    Além da capoeira, o grupo desenvolvia outras manifestações: maculelê (a dança com bastões de origem africana), puxada de rede (tradição de pescadores nordestinos), e samba de roda do Recôncavo Baiano.

    “A capoeira não é uma ilha”, explicava o mestre. “Ela faz parte de um oceano cultural. Se você ensina só o golpe, tá ensinando metade.”

    A Fusão Que Multiplicou

    Em 2008, o Ginga SP se uniu a outro grupo liderado pelo Mestre Alemão (Izael Corrêa) e pela graduada Joaninha (Cibele Barbosa). Juntos, transformaram o grupo no Centro Cultural de Capoeira GSP.

    Foi nessa época que o trabalho social se intensificou. O grupo passou a organizar campanhas contra a fome, contra o sedentarismo, contra a dengue, contra as drogas. A capoeira saía da roda e entrava na vida real das pessoas.

    “A gente percebeu que a capoeira podia ser muito mais que uma atividade física”, refletiu Mestre Risadinha. “Ela podia ser ferramenta de transformação.”

    2023 — O Ano Que Mudou Tudo

    Em 2023, apoiados por parceiros da comunidade — o seu Elias Ramos, a Sandra Rosa, e o retorno de Beto Social, um dos primeiros alunos — nasceu oficialmente a Associação Educacional e Cultural de Capoeira Ginga São Paulo.

    E, com ela, o Projeto Semear GSP — o coração do trabalho do Mestre Risadinha hoje.

    “Semear”, ele explica, “porque a gente planta. A gente joga a semente e rega. O fruto pode vir daqui a cinco anos, dez anos, vinte anos. Mas ele vem. A capoeira é plantação de longo prazo.”

    O Projeto Semear atende crianças, adolescentes e adultos, oferecendo aulas gratuitas, vivências culturais e um ambiente de acolhimento. É a realização do sonho de 1994 — multiplicado por mil.

    “Quando eu olho pra trás e vejo de onde a gente saiu”, Mestre Risadinha sorriu — aquela risada que deu nome a ele — “eu penso: valeu cada gota de suor. Porque cada aluno que entra nessa roda é uma vitória. Cada criança que aprende a gingar é um mundo que a gente mudou.”

    Ele bateu a cabaça do berimbau no peito.

    “E a gente ainda tá só no começo.”

    O Legado Vivo

    Mestre Risadinha não está nos livros de história — ainda. Mas está nas ruas de São Paulo, nos salões comunitários, nas rodas de fim de semana. Está em cada aluno que aprendeu não só a dar meia-lua, mas a se orgulhar de quem é.

    “O que eu quero que fique”, ele disse, “não é o meu nome. É a capoeira viva. É a próxima geração ensinando a próxima. É a roda girando pra sempre.”

    E a roda girou. Como sempre gira.