Era 1994. Um jovem chamado Valdecir Ferreira dos Santos olhou para um amigo — o Beto Social — e disse: “Vamos montar um grupo de capoeira.”
Não tinha dinheiro. Não tinha espaço. Não tinha nada além de um berimbau velho, um nome — Ginga São Paulo — e uma vontade que não cabia no peito.
“E foi assim que tudo começou”, contou Mestre Risadinha, enquanto os alunos se ajeitavam na roda. “Com um sonho e uma aposta.”
Por Que ‘Risadinha’?
O apelido veio antes do título de mestre. Valdecir era um adolescente magrinho, de sorriso fácil — daqueles que riem de tudo, até das dificuldades. Na roda de capoeira, enquanto outros fechavam a cara pra parecerem mais duros, ele ria. Gingava e ria. Levava rasteira e ria. Dava rasteira e ria também.
“Risadinha” grudou. E, com o tempo, virou nome de guerra, nome de mestre, nome de respeito.
“Tem gente que acha que mestre tem que ser sério”, ele diz. “Eu acho que a capoeira é alegria. Se não for pra sorrir, pra que jogar?”
Os Primeiros Anos
O Ginga SP começou num espaço emprestado, com meia dúzia de alunos. O objetivo era simples e ambicioso ao mesmo tempo: resgatar a capoeira como patrimônio cultural completo. Não era só dar aula de golpe. Era ensinar a história, a música, a filosofia — tudo que Mestre Risadinha tinha aprendido com seus próprios mestres.
Além da capoeira, o grupo desenvolvia outras manifestações: maculelê (a dança com bastões de origem africana), puxada de rede (tradição de pescadores nordestinos), e samba de roda do Recôncavo Baiano.
“A capoeira não é uma ilha”, explicava o mestre. “Ela faz parte de um oceano cultural. Se você ensina só o golpe, tá ensinando metade.”
A Fusão Que Multiplicou
Em 2008, o Ginga SP se uniu a outro grupo liderado pelo Mestre Alemão (Izael Corrêa) e pela graduada Joaninha (Cibele Barbosa). Juntos, transformaram o grupo no Centro Cultural de Capoeira GSP.
Foi nessa época que o trabalho social se intensificou. O grupo passou a organizar campanhas contra a fome, contra o sedentarismo, contra a dengue, contra as drogas. A capoeira saía da roda e entrava na vida real das pessoas.
“A gente percebeu que a capoeira podia ser muito mais que uma atividade física”, refletiu Mestre Risadinha. “Ela podia ser ferramenta de transformação.”
2023 — O Ano Que Mudou Tudo
Em 2023, apoiados por parceiros da comunidade — o seu Elias Ramos, a Sandra Rosa, e o retorno de Beto Social, um dos primeiros alunos — nasceu oficialmente a Associação Educacional e Cultural de Capoeira Ginga São Paulo.
E, com ela, o Projeto Semear GSP — o coração do trabalho do Mestre Risadinha hoje.
“Semear”, ele explica, “porque a gente planta. A gente joga a semente e rega. O fruto pode vir daqui a cinco anos, dez anos, vinte anos. Mas ele vem. A capoeira é plantação de longo prazo.”
O Projeto Semear atende crianças, adolescentes e adultos, oferecendo aulas gratuitas, vivências culturais e um ambiente de acolhimento. É a realização do sonho de 1994 — multiplicado por mil.
“Quando eu olho pra trás e vejo de onde a gente saiu”, Mestre Risadinha sorriu — aquela risada que deu nome a ele — “eu penso: valeu cada gota de suor. Porque cada aluno que entra nessa roda é uma vitória. Cada criança que aprende a gingar é um mundo que a gente mudou.”
Ele bateu a cabaça do berimbau no peito.
“E a gente ainda tá só no começo.”
O Legado Vivo
Mestre Risadinha não está nos livros de história — ainda. Mas está nas ruas de São Paulo, nos salões comunitários, nas rodas de fim de semana. Está em cada aluno que aprendeu não só a dar meia-lua, mas a se orgulhar de quem é.
“O que eu quero que fique”, ele disse, “não é o meu nome. É a capoeira viva. É a próxima geração ensinando a próxima. É a roda girando pra sempre.”
E a roda girou. Como sempre gira.
Deixe um comentário