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  • O Cancioneiro do Ginga SP — As Nossas Cantigas

    “Toda cantiga que eu ensinei até agora veio da tradição — dos mestres antigos, das rodas da Bahia, das senzalas. Mas o Ginga SP também tem as suas.”

    Mestre Risadinha se ajeitou na roda. Os alunos, que conheciam essas cantigas de cor, sorriram. Era o momento mais esperado da aula de cantigas — quando o mestre puxava as nossas.

    “Porque a capoeira é viva. A tradição não é um museu — é um rio. Corre, muda, recebe afluentes. E a gente, aqui no Ginga SP, também coloca nossa gota d’água nesse rio.”

    As Cantigas do Ginga SP

    Nem todas as cantigas que o grupo canta foram compostas aqui. Muitas são adaptações — cantigas tradicionais que ganharam novos versos, novas melodias, novo significado na boca dos alunos e mestres do Ginga SP.

    “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia”, “A Roda Já Começou”, “Coco Mironga”, “Balaio de Café”, “Na Beira do Mar” — essas são as pedras fundamentais do nosso repertório. Cada uma tem sua história, seu momento na roda, sua razão de ser.

    “Quando a gente canta ‘Tava na Beira do Mar’”, refletiu Mestre Risadinha, “a gente não tá só cantando sobre Iemanjá. A gente tá cantando sobre a comunidade que construímos aqui. Cada verso é uma memória coletiva.”

    O Futuro do Cancioneiro

    O Ginga SP continua criando, adaptando, preservando. Alunos mais avançados são incentivados a compor suas próprias cantigas. Mestre Risadinha acredita que a renovação do repertório é sinal de que o grupo está vivo.

    “Ano passado, um aluno nosso — o Pedro, da corda azul — compôs uma ladainha sobre o Projeto Semear”, contou o mestre, os olhos brilhando. “Falava das crianças que a gente atende, dos sábados de manhã, do cheiro do salão depois da chuva. Coisa simples. Coisa nossa. E quando ele cantou na roda, todo mundo respondeu.”

    Mestre Risadinha fez uma pausa. “Isso é capoeira. Não é só repetir o que os antigos fizeram. É continuar o que eles começaram.”

    Ele bateu o pandeiro três vezes e puxou mais uma. O coro respondeu. E o cancioneiro do Ginga SP ganhou mais uma página.

  • Mestre Risadinha e o Sonho Chamado Ginga SP

    Mestre Risadinha e o Sonho Chamado Ginga SP

    Era 1994. Um jovem chamado Valdecir Ferreira dos Santos olhou para um amigo — o Beto Social — e disse: “Vamos montar um grupo de capoeira.”

    Não tinha dinheiro. Não tinha espaço. Não tinha nada além de um berimbau velho, um nome — Ginga São Paulo — e uma vontade que não cabia no peito.

    “E foi assim que tudo começou”, contou Mestre Risadinha, enquanto os alunos se ajeitavam na roda. “Com um sonho e uma aposta.”

    Por Que ‘Risadinha’?

    O apelido veio antes do título de mestre. Valdecir era um adolescente magrinho, de sorriso fácil — daqueles que riem de tudo, até das dificuldades. Na roda de capoeira, enquanto outros fechavam a cara pra parecerem mais duros, ele ria. Gingava e ria. Levava rasteira e ria. Dava rasteira e ria também.

    “Risadinha” grudou. E, com o tempo, virou nome de guerra, nome de mestre, nome de respeito.

    “Tem gente que acha que mestre tem que ser sério”, ele diz. “Eu acho que a capoeira é alegria. Se não for pra sorrir, pra que jogar?”

    Os Primeiros Anos

    O Ginga SP começou num espaço emprestado, com meia dúzia de alunos. O objetivo era simples e ambicioso ao mesmo tempo: resgatar a capoeira como patrimônio cultural completo. Não era só dar aula de golpe. Era ensinar a história, a música, a filosofia — tudo que Mestre Risadinha tinha aprendido com seus próprios mestres.

    Além da capoeira, o grupo desenvolvia outras manifestações: maculelê (a dança com bastões de origem africana), puxada de rede (tradição de pescadores nordestinos), e samba de roda do Recôncavo Baiano.

    “A capoeira não é uma ilha”, explicava o mestre. “Ela faz parte de um oceano cultural. Se você ensina só o golpe, tá ensinando metade.”

    A Fusão Que Multiplicou

    Em 2008, o Ginga SP se uniu a outro grupo liderado pelo Mestre Alemão (Izael Corrêa) e pela graduada Joaninha (Cibele Barbosa). Juntos, transformaram o grupo no Centro Cultural de Capoeira GSP.

    Foi nessa época que o trabalho social se intensificou. O grupo passou a organizar campanhas contra a fome, contra o sedentarismo, contra a dengue, contra as drogas. A capoeira saía da roda e entrava na vida real das pessoas.

    “A gente percebeu que a capoeira podia ser muito mais que uma atividade física”, refletiu Mestre Risadinha. “Ela podia ser ferramenta de transformação.”

    2023 — O Ano Que Mudou Tudo

    Em 2023, apoiados por parceiros da comunidade — o seu Elias Ramos, a Sandra Rosa, e o retorno de Beto Social, um dos primeiros alunos — nasceu oficialmente a Associação Educacional e Cultural de Capoeira Ginga São Paulo.

    E, com ela, o Projeto Semear GSP — o coração do trabalho do Mestre Risadinha hoje.

    “Semear”, ele explica, “porque a gente planta. A gente joga a semente e rega. O fruto pode vir daqui a cinco anos, dez anos, vinte anos. Mas ele vem. A capoeira é plantação de longo prazo.”

    O Projeto Semear atende crianças, adolescentes e adultos, oferecendo aulas gratuitas, vivências culturais e um ambiente de acolhimento. É a realização do sonho de 1994 — multiplicado por mil.

    “Quando eu olho pra trás e vejo de onde a gente saiu”, Mestre Risadinha sorriu — aquela risada que deu nome a ele — “eu penso: valeu cada gota de suor. Porque cada aluno que entra nessa roda é uma vitória. Cada criança que aprende a gingar é um mundo que a gente mudou.”

    Ele bateu a cabaça do berimbau no peito.

    “E a gente ainda tá só no começo.”

    O Legado Vivo

    Mestre Risadinha não está nos livros de história — ainda. Mas está nas ruas de São Paulo, nos salões comunitários, nas rodas de fim de semana. Está em cada aluno que aprendeu não só a dar meia-lua, mas a se orgulhar de quem é.

    “O que eu quero que fique”, ele disse, “não é o meu nome. É a capoeira viva. É a próxima geração ensinando a próxima. É a roda girando pra sempre.”

    E a roda girou. Como sempre gira.