“A História Nos Engana” — Cantigas Que Revisam o Passado

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“A história nos engana, diz tudo pelo contrário…”

Mestre Risadinha cantou o começo da ladainha e parou. “Essa aqui não é cantiga de saudade. É cantiga de briga.”

Mestre Moraes e a Capoeira Política

“A História Nos Engana” foi composta por Mestre Moraes, fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), nos anos 1980. Diferente das ladainhas antigas — que falavam de Deus, dos mestres, da natureza —, esta é uma ladainha de conscientização política.

“Mestre Moraes fez algo novo”, explicou Mestre Risadinha. “Ele botou a história do Brasil na roda. E botou pra questionar.”

A letra integral da ladainha:

Iê!
A história nos engana,
Diz tudo pelo contrário,
Até diz que a abolição
Aconteceu no mês de maio.
A prova dessa mentira
É que da miséria eu não saio.
Viva vinte de novembro,
Momento para se lembrar,
Não vejo no treze de maio
Nada para comemorar.
Muitos tempos se passaram
E o negro sempre a lutar.
Zumbi é nosso herói, colega velho,
Do Palmares foi senhor,
Pela causa do homem negro
Foi ele que mais lutou.
Apesar de toda a luta, colega velho,
O negro não se libertou, camarada!

Por Que Essa Ladainha É Importante

Mestre Moraes questiona a versão oficial da abolição — aquela história de que a Princesa Isabel, num gesto de bondade, libertou os escravizados em 13 de maio de 1888. A ladainha contesta essa narrativa em três pontos:

  • “Aconteceu no mês de maio”: a abolição foi em maio, sim — mas foi resultado de décadas de luta do movimento negro, não de uma canetada benevolente.
  • “Da miséria eu não saio”: a abolição não veio acompanhada de reforma agrária, educação ou indenização. Os negros foram libertados — e abandonados à própria sorte.
  • “Viva vinte de novembro”: Moraes propõe substituir o 13 de maio pelo 20 de novembro — Dia da Consciência Negra, data da morte de Zumbi dos Palmares — como a verdadeira data de celebração da luta negra no Brasil.

“Essa ladainha”, disse Mestre Risadinha, “é aula de história. A história que não tá nos livros. E ela é cantada em rodas de capoeira no mundo inteiro — em português, pra quem quiser ouvir.”

O Impacto

Desde que Mestre Moraes compôs “A História Nos Engana”, outras ladainhas políticas surgiram. Mestres contemporâneos usam a capoeira como plataforma de debate — falando de racismo, desigualdade, violência policial. A tradição oral da capoeira, que começou contando causos de senzala, hoje também denuncia injustiças do presente.

“A capoeira sempre foi resistência”, concluiu o mestre. “Mestre Moraes só atualizou o discurso.”

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