“Vou dizer a meu senhor que a manteiga derramou!”
Mestre Risadinha cantou o verso e o coro respondeu com força. A cantiga era animada, o ritmo era de corrido, todo mundo batia palma — mas tinha uma história triste escondida ali.
“Presta atenção na letra”, pediu o mestre, parando o canto. “Isso não é musiquinha de cozinha. Isso é resistência.”
O Significado Oculto
“A Manteiga Derramou” é um dos corridos mais antigos da capoeira. A letra é simples: o trabalhador avisa ao senhor que a manteiga caiu no chão e derramou. Mas por que isso seria cantado numa roda de luta?
No Brasil colonial e imperial, a manteiga era um produto caro, produzido nas fazendas e transportado em potes de barro. Quando um escravizado “deixava a manteiga cair”, isso podia ser acidente — ou sabotagem. Derrubar a manteiga propositalmente era uma forma de resistência passiva: o senhor perdia o produto, mas não podia provar que foi intencional.
“Quando o capoeirista canta isso na roda”, explicou Mestre Risadinha, “ele está homenageando os pequenos atos de rebeldia que os ancestrais cometiam. Cada pote de manteiga derrubado era um ‘não’ disfarçado de ‘desculpa’.”
A letra completa:
Solista: Vou dizer a meu senhor que a manteiga derramou!
Coro: A manteiga não é minha, a manteiga é de ioiô!
Solista: Vou dizer a meu senhor que a manteiga derramou!
Coro: A manteiga é do patrão, caiu no chão e derramou!
“Ioiô” era como os escravizados chamavam o senhor — uma corruptela de “senhor” na fala das senzalas. O refrão “a manteiga não é minha” é uma declaração de desresponsabilização: “o problema é seu, não meu”.
Outras Cantigas de Resistência
A manteiga não está sozinha. Muitas cantigas usam metáforas do cotidiano para falar de opressão. “A Canoa Virou, Marinheiro” fala de navegação — mas também de perigo e sobrevivência. “Balaio de Café” conta do peso que os trabalhadores carregavam — peso físico e peso da exploração.
“As cantigas eram o jornal dos oprimidos”, refletiu Mestre Risadinha. “O que não podia ser dito em voz alta, era cantado na roda. Disfarçado de música.”
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