Cantigas de Mestre para Aluno — As Lições Que Vêm Cantando

Ouvir

Carregando voz…

“Na capoeira, o mestre não precisa gritar ‘presta atenção’. Ele canta.”

Mestre Risadinha começou a cantarolar baixinho uma ladainha que seus próprios mestres cantavam pra ele, décadas atrás. A melodia era antiga, a letra era simples — mas cada verso carregava uma lição.

“As cantigas de mestre pra aluno”, ele explicou, “são o jeito mais bonito de ensinar. Você não dá bronca. Você canta. E o aluno entende.”

Como Funciona

Na roda, o mestre — geralmente no berimbau gunga ou como cantador — usa os corridos para se comunicar com os jogadores. Se um aluno está jogando muito duro, o mestre puxa um corrido de calma. Se está muito parado, puxa um corrido mais rápido. Se está desrespeitando o outro, puxa uma cantiga que fala de humildade.

“É didática disfarçada de música”, riu Mestre Risadinha. “O aluno às vezes nem percebe que tá sendo ensinado. Mas tá.”

Uma das cantigas mais usadas para acalmar o jogo:

Solista: Devagar, devagarinho!
Coro: Devagar, devagarinho!
Solista: A cobra morde devagar!
Coro: Devagar, devagarinho!

“Quando o mestre canta ‘devagar, devagarinho’”, explicou, “não é sugestão. É ordem. A cobra é uma metáfora — o capoeirista experiente é como a cobra: lento, paciente, e quando ataca, é certeiro.”

Cantigas de Humildade

Tem também as cantigas que lembram ao capoeirista que ele não é o dono da roda:

Solista: O facão bateu embaixo!
Coro: O facão bateu embaixo!
Solista: A bananeira caiu!
Coro: O facão bateu embaixo!

“O facão que bate embaixo”, filosofou Mestre Risadinha, “é o golpe que você não viu chegar. A bananeira que caiu é o capoeirista que se achava grande demais. A mensagem é clara: por mais alto que você esteja, sempre tem alguém que pode te cortar pela raiz. Humildade.”

“E é assim que a capoeira educa”, concluiu. “Sem gritar. Sem humilhar. Cantando.”