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“Toda roda de capoeira conta uma história em três atos.”
Mestre Risadinha ajeitou o berimbau no colo. “Ato um: a ladainha. Ninguém joga, ninguém canta junto — só o solista. Ato dois: a chula, também chamada de louvação. O coro começa a responder. Ato três: o corrido. Todo mundo canta, o jogo explode.”
“Se você entende esses três atos”, ele concluiu, “você entende a alma da capoeira.”
Ato Um — A Ladainha
A ladainha é o canto de abertura, o momento mais solene da roda. Enquanto o cantador entoa a ladainha, os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau — imóveis, em silêncio, escutando. Ninguém do coro intervém. É um momento de respeito absoluto.
“A ladainha é o discurso do mestre”, explicou Mestre Risadinha. “Nela, ele conta uma história, faz um lamento, lembra os antigos, ensina uma lição. É o momento em que a tradição fala.”
Estruturalmente, a ladainha é composta por versos em redondilha maior — sete sílabas poéticas por verso —, organizados em estrofes rimadas. É poesia: a métrica é precisa, as rimas são pensadas. Não é improviso qualquer.
A ladainha mais antiga e reverenciada da Capoeira Angola é “Iê, Maior é Deus“, eternizada por Mestre Pastinha. Ela diz assim:
Iê!
Maior é Deus,
Maior é Deus, pequeno sou eu.
O que eu tenho foi Deus que me deu.
Na roda da capoeira,
Grande e pequeno sou eu, camará!
“Repara numa coisa”, apontou o mestre. “O cara que canta isso pode ser o maior capoeirista do mundo. Mas na hora da ladainha, ele se faz pequeno. Isso é humildade. É a capoeira lembrando que ninguém é maior que ninguém.”
Outra ladainha marcante é “A História Nos Engana“, de Mestre Moraes, que transforma o canto de abertura em manifesto:
A história nos engana,
Diz tudo pelo contrário,
Até diz que a abolição
Aconteceu no mês de maio.
“Viu?”, disse Mestre Risadinha. “A ladainha também é aula de história. Da história que não tá nos livros.”
Ato Dois — A Chula (Louvação)
Quando a ladainha termina, o cantador solta um grito: “Iê!“
Esse “Iê” é o sinal. A partir dali, começa a chula — também chamada de louvação. É quando o cantador saúda: os mestres, os alunos, Deus, os orixás, a própria capoeira. E o coro começa a responder.
“Na chula”, explicou o mestre, “o solista canta uma saudação e o coro repete, sempre arrematando com ‘camará’ ou ‘camarado’. É uma reza coletiva.”
Exemplo de chula:
Solista: Iê, viva meu Deus!
Coro: Iê, viva meu Deus, camará!
Solista: Iê, viva meu mestre!
Coro: Iê, viva meu mestre, camará!
Solista: Iê, quem me ensinou!
Coro: Iê, quem me ensinou, camará!
“E é no final da chula que o solista autoriza o jogo”, completou Mestre Risadinha. “Ele canta ‘Iê, volta do mundo!’ ou ‘Iê, vamos embora!’ — e aí os dois podem se cumprimentar e começar.”
Ato Três — O Corrido
O corrido é a parte mais animada. É aqui que o jogo pega fogo.
Diferente da ladainha (longa, solene, sem coro) e da chula (saudações fixas), o corrido é dinâmico e improvisado. O solista canta versos curtos e o coro responde com o refrão — nesse vai-e-vem rápido e sincopado que faz todo mundo bater palma.
“O corrido é o momento da interação”, disse o mestre. “O cantador tá olhando o jogo e improvisando em cima do que vê. Se alguém deu uma rasteira bonita, ele canta sobre isso. Se o jogo esfriou, ele puxa um corrido mais rápido pra animar.”
Um dos corridos mais conhecidos é “Abalou Capoeira, Abalou“:
Solista: Abalou capoeira, abalou!
Coro: Mas se abalou, deixa abalar!
Outro clássico é “A Canoa Virou, Marinheiro“:
Solista: A canoa virou, marinheiro!
Coro: No fundo do mar tem dinheiro!
“Tá vendo?”, sorriu Mestre Risadinha. “O fundo do mar é o desconhecido. O dinheiro é a sabedoria. Cada corrido tem um significado escondido. Quem não presta atenção, acha que é só musiquinha. Mas é aula.”
A Quadra de Bimba
Na Capoeira Regional, Mestre Bimba simplificou esse sistema. Em vez da ladainha longa, ele criou a quadra — uma estrofe de quatro versos rimados, seguida direto pelo refrão do coro. Mais rápida, mais direta, mais adequada ao ritmo de academia.
Uma das quadras mais famosas de Bimba:
Valha-me Deus, Senhor São Bento!
Eu vou jogar meu barravento.
Buraco velho tem cobra dentro,
Cobra morde, Senhor São Bento!
“Bimba era prático”, concluiu Mestre Risadinha. “Mas Pastinha era profundo. Um não é melhor que o outro — são duas formas de contar a mesma história.”
Na próxima aula: as cantigas que a gente canta aqui no Ginga SP — “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia” e outras que fazem parte do nosso dia a dia.

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