Mestre Camisa — O Menino da Roça Que Criou a Maior Escola do Mundo

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“Se eu te disser que o maior grupo de capoeira do mundo foi fundado por um menino que cresceu cortando cana na roça, você acredita?”

Mestre Risadinha não esperou a resposta. “Pois foi exatamente assim.”

De Jacobina Para o Mundo

José Tadeu Carneiro Cardoso — que o mundo conhece como Mestre Camisa — nasceu em 1956, em Jacobina, interior da Bahia. A região era pobre, a vida era dura, e o menino Camisa trabalhava na roça desde cedo.

O apelido veio de uma camisa listrada que ele usava todo santo dia — a única que tinha. Na roda de capoeira, os colegas gritavam: “Joga aí, Camisa!” O nome grudou.

Camisa começou na capoeira com Mestre Bimba — sim, o próprio. Foi aluno direto do pai da Capoeira Regional. E aprendeu com Bimba não só os golpes, mas a visão de que a capoeira podia ser maior do que uma roda de bairro.

“Quando Bimba morreu, em 1974”, contou Mestre Risadinha, “os alunos dele ficaram órfãos. Mas em vez de se dispersarem, se uniram. E o Camisa foi o líder natural desse movimento.”

ABADÁ — Um Nome Que Vem da África

Em 1988, Mestre Camisa fundou a ABADÁ-Capoeira. O nome é uma palavra de origem iorubá — abaddá — que significa “roupa de guerreiro”. Também é o nome de uma calça larga usada pelos capoeiristas.

“Camisa escolheu esse nome de propósito”, explicou o mestre. “ABADÁ é a roupa que o guerreiro veste antes da batalha. É a capoeira como preparação para a vida.”

A ABADÁ cresceu numa velocidade impressionante. Em menos de 10 anos, já era o maior grupo de capoeira do Brasil. Em 20 anos, o maior do mundo.

Hoje, a ABADÁ-Capoeira está presente em mais de 60 países, com mais de 100 mil alunos espalhados por todos os continentes. É uma multinacional da capoeira — com sedes em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Paris, Tóquio, Sydney.

“O Camisa não criou só um grupo”, resumiu Mestre Risadinha. “Ele criou uma instituição.”

O Método ABADÁ

O que fez a ABADÁ crescer tanto? Três fatores:

  1. Metodologia padronizada. Não importa se você treina em São Paulo ou em Berlim — o sistema de ensino é o mesmo. Cordas, sequências, músicas, tudo segue um currículo.
  2. Profissionalismo. Mestre Camisa tratou a capoeira como profissão séria. Os professores recebem formação pedagógica. Os eventos são organizados como congressos.
  3. Raízes culturais profundas. Apesar de toda a modernização, a ABADÁ nunca abandonou as tradições. Maculelê, samba de roda, puxada de rede — tudo faz parte do currículo.

“O Camisa entendeu uma coisa que poucos entenderam”, refletiu o mestre. “Se você quer preservar a tradição, você precisa de estrutura. Sem estrutura, a tradição morre.”

O Legado Vivo

Mestre Camisa continua ativo. Mora no Rio de Janeiro, dirige pessoalmente a ABADÁ, e viaja o mundo dando workshops e formando novos mestres. É reconhecido como uma das figuras mais influentes da cultura brasileira contemporânea.

Recentemente, a ABADÁ tem investido em projetos sociais, em pesquisa acadêmica e em parcerias com universidades. O menino da roça que usava a mesma camisa listrada todo dia virou doutor, empreendedor e embaixador da cultura brasileira no mundo.

“E sabe qual é a lição?” Mestre Risadinha fez a última pausa da aula. “Camisa, Bimba, Pastinha, Besouro — todos eles tinham uma coisa em comum. Nenhum nasceu rico. Nenhum nasceu com privilégio. Mas todos acreditaram que a capoeira era maior do que eles.”

Ele se levantou, ajeitou a corda na cintura.

“E estavam certos.”

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