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  • Mestres Cantadores — As Vozes Que Marcaram a Capoeira

    Mestres Cantadores — As Vozes Que Marcaram a Capoeira

    “Nem todo mestre de capoeira é um grande cantador”, disse Mestre Risadinha. “Mas todo grande cantador ajuda a construir a alma da capoeira.”

    Mestres Cantadores — As Vozes Que Marcaram a Capoeira
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    Ele ajeitou o pandeiro no colo e começou a história.

    Mestre Pastinha — A Voz Que Fundou Uma Tradição

    Se existe um pai do canto na capoeira, é Mestre Pastinha. Sua voz — grave, pausada, cheia de uma tristeza ancestral — se tornou a referência máxima da Capoeira Angola. Quando Pastinha cantava uma ladainha, a roda inteira silenciava.

    Suas ladainhas mais famosas — “Iê, Maior é Deus” e “Eu Já Vivi em Mato, Já Comi Mel de Cupim” — são cantadas em rodas do mundo inteiro até hoje. Pastinha não era cantor profissional, mas era poeta da tradição oral: suas letras misturavam filosofia de vida, história afro-brasileira e profunda espiritualidade.

    “Pastinha cantava com o coração na garganta”, lembrou Mestre Risadinha. “Você ouvia e sentia os 80 anos de capoeira que ele carregava.”

    Mestre Bimba — O Criador da Quadra

    Enquanto Pastinha aprofundava a tradição, Mestre Bimba a reinventava. Bimba não era cantador de ladainhas longas — seu estilo era mais direto, mais enérgico. Foi ele quem criou a quadra — aquela estrofe de quatro versos que substituiu a ladainha na Capoeira Regional.

    Suas quadras entravam na cabeça feito martelo: “Valha-me Deus, Senhor São Bento”, “Tiririca e Faca de Cotá”, “Ao Pé de Mim Tem um Vizinho”. Curtas, rimadas, fáceis de memorizar, mas carregadas de significado.

    “Bimba era didático”, explicou o mestre. “Ele queria que todo aluno aprendesse a cantar em 5 minutos. E conseguia.”

    Mestre Waldemar — A Voz do Povo

    Mestre Waldemar da Paixão, de Salvador, foi um dos maiores cantadores da história. Sua voz — potente, limpa, quase operística — encantava quem ouvia. Waldemar era famoso pelos corridos animados e pelo dom de improvisar sobre qualquer situação que acontecia na roda.

    Diferente de Pastinha (filosófico) e de Bimba (didático), Waldemar era o animador. Seus corridos botavam fogo na roda e faziam até os visitantes baterem palma. Foi um dos primeiros mestres a gravar discos.

    Mestre João Grande — O Guardião

    Aluno direto de Pastinha, Mestre João Grande se tornou um dos maiores embaixadores da Capoeira Angola no mundo — e também um cantador respeitadíssimo. Sua voz grave e seu português carregado de expressões da Bahia antiga transportam a roda para o Pelourinho dos anos 1950.

    Radicado em Nova York desde 1990, João Grande ensinou — e cantou — para gerações de capoeiristas no mundo inteiro.

    Mestres Contemporâneos Que Cantam

    “E hoje?”, perguntou um aluno.

    “Hoje tem muita gente boa”, respondeu Mestre Risadinha. “Mestre Moraes, do GCAP, que compôs ‘A História Nos Engana’. Mestre Lua de Bobó, um dos maiores cantadores da nova geração. Mestre Lobão, Mestre Toni Vargas — que também é compositor e poeta. A tradição continua.”

    Ele fez uma pausa. “Mas vocês sabem quem é o melhor cantador do mundo?”

    Os alunos esperaram.

    “O que canta com verdade. Não importa se é mestre ou aluno novo. O que importa é a verdade que sai da garganta.”

  • Ladainha, Chula e Corrido — As Três Vozes da Capoeira

    Ladainha, Chula e Corrido — As Três Vozes da Capoeira

    “Toda roda de capoeira conta uma história em três atos.”

    Mestre Risadinha ajeitou o berimbau no colo. “Ato um: a ladainha. Ninguém joga, ninguém canta junto — só o solista. Ato dois: a chula, também chamada de louvação. O coro começa a responder. Ato três: o corrido. Todo mundo canta, o jogo explode.”

    “Se você entende esses três atos”, ele concluiu, “você entende a alma da capoeira.”

    Ato Um — A Ladainha

    A ladainha é o canto de abertura, o momento mais solene da roda. Enquanto o cantador entoa a ladainha, os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau — imóveis, em silêncio, escutando. Ninguém do coro intervém. É um momento de respeito absoluto.

    “A ladainha é o discurso do mestre”, explicou Mestre Risadinha. “Nela, ele conta uma história, faz um lamento, lembra os antigos, ensina uma lição. É o momento em que a tradição fala.”

    Estruturalmente, a ladainha é composta por versos em redondilha maior — sete sílabas poéticas por verso —, organizados em estrofes rimadas. É poesia: a métrica é precisa, as rimas são pensadas. Não é improviso qualquer.

    A ladainha mais antiga e reverenciada da Capoeira Angola é “Iê, Maior é Deus“, eternizada por Mestre Pastinha. Ela diz assim:

    Iê!
    Maior é Deus,
    Maior é Deus, pequeno sou eu.
    O que eu tenho foi Deus que me deu.
    Na roda da capoeira,
    Grande e pequeno sou eu, camará!

    “Repara numa coisa”, apontou o mestre. “O cara que canta isso pode ser o maior capoeirista do mundo. Mas na hora da ladainha, ele se faz pequeno. Isso é humildade. É a capoeira lembrando que ninguém é maior que ninguém.”

    Outra ladainha marcante é “A História Nos Engana“, de Mestre Moraes, que transforma o canto de abertura em manifesto:

    A história nos engana,
    Diz tudo pelo contrário,
    Até diz que a abolição
    Aconteceu no mês de maio.

    “Viu?”, disse Mestre Risadinha. “A ladainha também é aula de história. Da história que não tá nos livros.”

    Ato Dois — A Chula (Louvação)

    Quando a ladainha termina, o cantador solta um grito: “Iê!

    Esse “Iê” é o sinal. A partir dali, começa a chula — também chamada de louvação. É quando o cantador saúda: os mestres, os alunos, Deus, os orixás, a própria capoeira. E o coro começa a responder.

    “Na chula”, explicou o mestre, “o solista canta uma saudação e o coro repete, sempre arrematando com ‘camará’ ou ‘camarado’. É uma reza coletiva.”

    Exemplo de chula:

    Solista: Iê, viva meu Deus!
    Coro: Iê, viva meu Deus, camará!
    Solista: Iê, viva meu mestre!
    Coro: Iê, viva meu mestre, camará!
    Solista: Iê, quem me ensinou!
    Coro: Iê, quem me ensinou, camará!

    “E é no final da chula que o solista autoriza o jogo”, completou Mestre Risadinha. “Ele canta ‘Iê, volta do mundo!’ ou ‘Iê, vamos embora!’ — e aí os dois podem se cumprimentar e começar.”

    Ato Três — O Corrido

    O corrido é a parte mais animada. É aqui que o jogo pega fogo.

    Diferente da ladainha (longa, solene, sem coro) e da chula (saudações fixas), o corrido é dinâmico e improvisado. O solista canta versos curtos e o coro responde com o refrão — nesse vai-e-vem rápido e sincopado que faz todo mundo bater palma.

    “O corrido é o momento da interação”, disse o mestre. “O cantador tá olhando o jogo e improvisando em cima do que vê. Se alguém deu uma rasteira bonita, ele canta sobre isso. Se o jogo esfriou, ele puxa um corrido mais rápido pra animar.”

    Um dos corridos mais conhecidos é “Abalou Capoeira, Abalou“:

    Solista: Abalou capoeira, abalou!
    Coro: Mas se abalou, deixa abalar!

    Outro clássico é “A Canoa Virou, Marinheiro“:

    Solista: A canoa virou, marinheiro!
    Coro: No fundo do mar tem dinheiro!

    “Tá vendo?”, sorriu Mestre Risadinha. “O fundo do mar é o desconhecido. O dinheiro é a sabedoria. Cada corrido tem um significado escondido. Quem não presta atenção, acha que é só musiquinha. Mas é aula.”

    A Quadra de Bimba

    Na Capoeira Regional, Mestre Bimba simplificou esse sistema. Em vez da ladainha longa, ele criou a quadra — uma estrofe de quatro versos rimados, seguida direto pelo refrão do coro. Mais rápida, mais direta, mais adequada ao ritmo de academia.

    Uma das quadras mais famosas de Bimba:

    Valha-me Deus, Senhor São Bento!
    Eu vou jogar meu barravento.
    Buraco velho tem cobra dentro,
    Cobra morde, Senhor São Bento!

    “Bimba era prático”, concluiu Mestre Risadinha. “Mas Pastinha era profundo. Um não é melhor que o outro — são duas formas de contar a mesma história.”

    Na próxima aula: as cantigas que a gente canta aqui no Ginga SP — “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia” e outras que fazem parte do nosso dia a dia.

  • Mestre Pastinha — O Guardião da Capoeira Que Não Queria Mudar

    Mestre Pastinha — O Guardião da Capoeira Que Não Queria Mudar

    —O Mestre Pastinha tinha todos os motivos do mundo pra ser amargos?, começou Mestre Risadinha. —E mesmo assim, o homem dedicou a vida inteira a preservar a beleza. Isso é coisa rara.—

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    O Menino Que Apanhava na Rua

    Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889 — o mesmo ano da proclamação da República — em Salvador. Era um menino franzino, mirradinho, que apanhava dos moleques maiores do bairro.

    Um dia, um africano idoso chamado Benedito — que tinha sido escravizado e era mestre de capoeira — viu o menino Pastinha apanhando e disse: “Vem cá, meu filho. Você não vai mais apanhar de ninguém.”

    Benedito ensinou tudo que sabia ao menino. E, como Mestre Risadinha gosta de contar: “Foi aí que o garoto que apanhava virou o maior guardião da capoeira de todos os tempos.”

    Uma Filosofia Diferente

    Enquanto Mestre Bimba criava a Capoeira Regional — mais rápida, mais atlética, mais próxima de uma luta —, Mestre Pastinha fez o caminho oposto. Ele queria preservar a capoeira exatamente como aprendeu: lenta, rasteira, cheia de mandinga e malícia.

    Foi Pastinha quem deu nome a esse estilo: Capoeira Angola.

    “Para Pastinha, a capoeira não era luta. Era diálogo.” Mestre Risadinha gingou devagar, os braços abertos como se convidasse um parceiro invisível. “Dois corpos conversando. Um pergunta, o outro responde. Sem pressa.”

    Em 1941, Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no Pelourinho. A academia era modesta — chão de terra batida, paredes simples — mas virou o coração pulsante da capoeira tradicional.

    Os Princípios de Pastinha

    Mestre Pastinha escreveu um manuscrito que até hoje é estudado por capoeiristas do mundo inteiro. Nele, ele dizia coisas assim:

    • “Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo que a boca come.”
    • “O bom capoeirista não é o que mais bate. é o que menos precisa bater.”
    • “A capoeira Angola é luta de resistência. Resistência do corpo, e resistência da alma.”

    “Olha que bonito”, comentou Mestre Risadinha. “Num tempo em que tudo na capoeira era sobre dar golpe, Pastinha estava falando sobre não precisar dar golpe.”

    O Fim Triste de um Gigante

    A história de Pastinha teve um final injusto. No início dos anos 1970, o governo do estado removeu Pastinha do prédio onde funcionava sua academia — a área estava sendo reformada para o turismo — uma área que estava sendo “revitalizada” para o turismo. Pastinha, já idoso e doente, foi removido. Prometeram um novo espaço. Nunca deram.

    Ele morreu em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, num abrigo para idosos em Salvador. As condições de seus últimos anos foram difíceis — um contraste doloroso com a grandeza do seu legado.

    “Dá raiva, não?” Mestre Risadinha fez uma pausa longa. “O homem dedicou a vida inteira a preservar a cultura brasileira e o Brasil deixou ele morrer esquecido.”

    Mas a história não termina aí.

    Depois de sua morte, os alunos de Pastinha espalharam sua capoeira pelo Brasil e pelo mundo. Hoje, a Capoeira Angola é praticada em mais de 50 países. A academia amarela do Pelourinho se multiplicou em milhares de rodas ao redor do planeta.

    “Pastinha não teve justiça em vida”, disse Mestre Risadinha, pegando o berimbau. “Mas teve a maior vingança que um mestre pode ter: seus alunos nunca deixaram a chama apagar.”

    Ele começou a tocar Angola — aquele ritmo lento, hipnótico, que parece vir de um tempo muito antigo. E cantou: “Iê, viva Pastinha, camará…”

    Na próxima aula: o dia em que a capoeira finalmente deixou de ser crime e virou esporte — oficialmente, no papel, com reconhecimento do governo brasileiro e da UNESCO.