Mestre Pastinha — O Guardião da Capoeira Que Não Queria Mudar

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

“O Mestre Pastinha tinha todos os motivos do mundo pra ser amargo”, começou Mestre Risadinha. “E mesmo assim, o homem dedicou a vida inteira a preservar a beleza. Isso é coisa rara.”

O Menino Que Apanhava na Rua

Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889 — o mesmo ano da proclamação da República — em Salvador. Era um menino franzino, mirradinho, que apanhava dos moleques maiores do bairro.

Um dia, um africano idoso chamado Benedito — que tinha sido escravizado e era mestre de capoeira — viu o menino Pastinha apanhando e disse: “Vem cá, meu filho. Você não vai mais apanhar de ninguém.”

Benedito ensinou tudo que sabia ao menino. E, como Mestre Risadinha gosta de contar: “Foi aí que o garoto que apanhava virou o maior guardião da capoeira de todos os tempos.”

Uma Filosofia Diferente

Enquanto Mestre Bimba criava a Capoeira Regional — mais rápida, mais atlética, mais próxima de uma luta —, Mestre Pastinha fez o caminho oposto. Ele queria preservar a capoeira exatamente como aprendeu: lenta, rasteira, cheia de mandinga e malícia.

Foi Pastinha quem deu nome a esse estilo: Capoeira Angola.

“Para Pastinha, a capoeira não era luta. Era diálogo.” Mestre Risadinha gingou devagar, os braços abertos como se convidasse um parceiro invisível. “Dois corpos conversando. Um pergunta, o outro responde. Sem pressa.”

Em 1941, Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no Pelourinho. A academia era modesta — chão de terra batida, paredes simples — mas virou o coração pulsante da capoeira tradicional.

Os Princípios de Pastinha

Mestre Pastinha escreveu um manuscrito que até hoje é estudado por capoeiristas do mundo inteiro. Nele, ele dizia coisas assim:

  • “Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo que a boca come.”
  • “O bom capoeirista não é o que mais bate. É o que menos precisa bater.”
  • “A capoeira Angola é luta de resistência. Resistência do corpo, e resistência da alma.”

“Olha que bonito”, comentou Mestre Risadinha. “Num tempo em que tudo na capoeira era sobre dar golpe, Pastinha estava falando sobre não precisar dar golpe.”

O Fim Triste de um Gigante

A história de Pastinha teve um final injusto. No início dos anos 1970, o governo do estado removeu Pastinha do prédio onde funcionava sua academia — a área estava sendo reformada para o turismo — uma área que estava sendo “revitalizada” para o turismo. Pastinha, já idoso e doente, foi removido. Prometeram um novo espaço. Nunca deram.

Ele morreu em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, num abrigo para idosos em Salvador. As condições de seus últimos anos foram difíceis — um contraste doloroso com a grandeza do seu legado.

“Dá raiva, né?” Mestre Risadinha fez uma pausa longa. “O homem dedicou a vida inteira a preservar a cultura brasileira e o Brasil deixou ele morrer esquecido.”

Mas a história não termina aí.

Depois de sua morte, os alunos de Pastinha espalharam sua capoeira pelo Brasil e pelo mundo. Hoje, a Capoeira Angola é praticada em mais de 50 países. A academia amarela do Pelourinho se multiplicou em milhares de rodas ao redor do planeta.

“Pastinha não teve justiça em vida”, disse Mestre Risadinha, pegando o berimbau. “Mas teve a maior vingança que um mestre pode ter: seus alunos nunca deixaram a chama apagar.”

Ele começou a tocar Angola — aquele ritmo lento, hipnótico, que parece vir de um tempo muito antigo. E cantou: “Iê, viva Pastinha, camará…”

Na próxima aula: o dia em que a capoeira finalmente deixou de ser crime e virou esporte — oficialmente, no papel, com reconhecimento do governo brasileiro e da UNESCO.