“Lembram da negativa e do rolê que vocês aprenderam lá na corda crua?”
Os alunos assentiram. Mestre Risadinha continuou gingando.
“Agora a gente vai transformar aquilo em arma.”
A Evolução do Rolê
Na corda crua, você aprendeu o rolê simples — o giro no chão que te leva da negativa de volta pra ginga. Na corda azul, o rolê ganha variações que o transformam em muito mais que uma transição.
- Rolê com cabeçada: durante o giro do rolê, você “atravessa” o espaço do adversário com a cabeça. Não é uma cabeçada real — é uma ameaça. Você mostra que poderia ter batido.
- Rolê com rasteira: ao passar pelo adversário durante o rolê, você solta uma rasteira de surpresa com a perna de trás.
- Rolê de cabeça: em vez de apoiar as mãos, você apoia a cabeça no chão durante o giro. É mais rápido, mais fluido — e exige muito controle de cervical.
“O rolê avançado”, ensinou Mestre Risadinha, “é a prova de que na capoeira até o movimento de transição pode ser perigoso. Não dá pra relaxar nunca.”
Aú Batido — A Estrela Que Vira Martelo
Se existe um golpe que é a cara da capoeira, é o aú batido. Você começa fazendo um aú normal — mãos no chão, pernas no ar — mas, no meio do movimento, uma das pernas “cai” como um martelo sobre o adversário.
“O aú batido”, explicou o mestre, “é um dos golpes mais bonitos e mais temidos da capoeira. Mas também é um dos mais difíceis de controlar. Por isso a gente só ensina a partir da corda azul.”
Passo a passo:
- Inicie um aú normal, com a perna direita subindo primeiro (se você for destro).
- Quando a perna direita estiver no ponto mais alto, a perna esquerda (que subiu depois) não continua o movimento do aú.
- Em vez disso, a perna esquerda “cai” — como um martelo — mirando o adversário que está à sua frente.
- O corpo gira sobre as mãos. A perna direita completa o movimento e aterrissa.
- Você termina o movimento de frente para o adversário, pronto para continuar o jogo.
“O segredo do aú batido”, revelou Mestre Risadinha, “é que você não ‘bate’ de verdade. Você ameaça. A perna desce com força, mas para antes de tocar. O adversário recua, assustado — e você ganhou o centro da roda.”
História do Aú Batido
O aú batido é uma criação relativamente recente na história da capoeira. Nos registros mais antigos — fotos e filmagens das rodas de Pastinha e Bimba — ele praticamente não aparece. Foi nos anos 1980 e 1990, com a capoeira contemporânea e os grupos de competição (especialmente a ABADÁ e o Cordão de Ouro), que o aú batido se popularizou e virou um dos golpes-símbolo da capoeira-espetáculo.
“Os antigos torcem o nariz”, admitiu o mestre. “Dizem que aú batido não é capoeira tradicional. Eles têm razão — não é. Mas a capoeira é viva. Evolui. E o aú batido, bem aplicado, é poesia em movimento.”
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