Negativa e Rolê — Os Movimentos Que Te Tiram do Chão

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“Na capoeira, ir ao chão não é cair. É escolher.”

Mestre Risadinha fez uma demonstração que parecia mágica: partindo da ginga, ele se jogou para o lado, uma perna esticada, a outra flexionada, o corpo rente ao chão como quem desliza. Em seguida, girou o corpo e levantou — tudo num movimento contínuo, fluido, como se a gravidade tivesse sido desligada por um instante.

“Isso é negativa. Isso é rolê. E vocês vão aprender hoje.”

Negativa — A Base do Chão

A negativa é o movimento de solo fundamental da capoeira. É a posição de onde partem praticamente todos os deslocamentos rente ao chão.

Passo a passo:

  1. A partir da ginga, jogue o peso para uma das pernas.
  2. Flexione completamente a perna de apoio até que o quadril toque (ou quase toque) o calcanhar.
  3. Estique a outra perna para a frente, com o pé apoiado no chão pelo calcanhar.
  4. A mão do mesmo lado da perna flexionada se apoia no chão, ao lado do corpo.
  5. O outro braço protege o rosto.

“Parece complicado, mas é natural”, explicou o mestre. “É a posição que o corpo assume quando você escorrega. A diferença é que o capoeirista faz isso de propósito.”

A negativa tem duas funções principais:

  • Esquiva baixa: contra golpes circulares altos (meia-lua, armada), a negativa tira o corpo inteiro da trajetória.
  • Base de ataque: da negativa saem rasteiras, vingativas, tesouras e outros golpes de solo.

Rolê — O Giro Que Te Levanta

O rolê é o complemento natural da negativa. Depois de ir ao solo, você precisa voltar — e o rolê é o movimento que faz essa transição.

Passo a passo:

  1. Da posição de negativa (perna direita flexionada, esquerda esticada).
  2. Coloque a mão esquerda no chão, à frente do corpo.
  3. Transfira o peso para os braços e gire o corpo sobre as mãos — um movimento circular, como um compasso.
  4. As pernas acompanham o giro e você termina na posição de negativa do outro lado (ou diretamente na ginga).

“O rolê parece uma estrela que não saiu do chão”, brincou Mestre Risadinha. “É um movimento que usa a inércia do corpo pra te reposicionar. Gasta pouca energia e te coloca num ângulo novo — onde o adversário não tá esperando.”

O rolê tem variações:

  • Rolê simples: o básico, descrito acima.
  • Rolê de cabeça: você apoia a cabeça no chão durante o giro — avançado, exige controle de cervical.
  • Rolê com queda: termina com as duas mãos no chão e as duas pernas no ar — transição para bananeira.

Origem e Filosofia

A negativa e o rolê vêm diretamente da Capoeira Angola, onde o jogo é mais baixo, mais próximo do chão. Mestre Pastinha dizia que o bom capoeirista é aquele que “sabe cair” — porque na vida, como na capoeira, todo mundo vai ao chão em algum momento. O que importa é como você levanta.

“Na negativa você reconhece o chão”, filosofou Mestre Risadinha. “No rolê você volta pra luta. Os dois juntos são a metáfora mais bonita da capoeira: cair não é o fim. É o começo do próximo movimento.”

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