Besouro Mangangá — O Capoeirista Que Virava Bicho

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M2 besouro manganga

“Tem um homem na Bahia”, disse Mestre Risadinha, abaixando a voz como quem conta um segredo, “que os policiais juravam que virava besouro.”

Os alunos se inclinaram pra frente.

“E não é história de pescador, não. Tem boletim de ocorrência.”

Quem Foi Besouro Mangangá

Manoel Henrique Pereira nasceu em 1895, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano — o mesmo pedaço de chão que depois daria ao mundo Caetano Veloso, Maria Bethânia e Dona Canô. Mas Besouro não era músico. Era outra coisa.

Dizem que o apelido veio de um mestre de capoeira chamado Alípio, que teria dito: “Esse menino é besouro Mangangá — quando entra na roda, ninguém segura.”

Besouro Mangangá é uma espécie de vespão preto, daqueles que voam reto e não desviam de nada. O nome encaixou perfeitamente.

“Besouro não era grande”, contou Mestre Risadinha. “Era magro, altura mediana. Mas o corpo dele parecia de borracha. Pulava muro de dois metros como se fosse meio-fio. E tinha uma meia-lua de compasso que, dizem, ninguém nunca conseguiu defender.”

O Homem Que Não Podia Ser Preso

A Bahia do começo do século XX era território dos coronéis — fazendeiros poderosos que mandavam e desmandavam. Besouro trabalhava de vaqueiro, mas seu verdadeiro ofício era outro: proteger os mais fracos.

As histórias se repetem em Santo Amaro até hoje: Besouro enfrentava grupos de policiais sozinho. Besouro entrava em festas proibidas para negros e garantia que ninguém fosse expulso. Besouro desafiava capangas de coronéis que batiam em trabalhadores.

“Ele era tipo um Robin Hood”, explicou o mestre. “Mas em vez de arco e flecha, era rabo de arraia e cabeçada.”

A lenda diz que Besouro tinha o corpo fechado — protegido por orixás, por rezas, por patuás. Que bala não pegava nele. Que ele virava bicho quando precisava fugir.

“Isso é lenda”, admitiu Mestre Risadinha. “Mas o fato é que a polícia de Santo Amaro inteira não conseguia prender um homem só. Isso é verdade.”

A Morte de Besouro

Besouro Mangangá morreu em 1924, com apenas 29 anos. Foi traído. Um fazendeiro chamado Zé de Veiga — ou Dr. Zeca, dependendo de quem conta — mandou matar Besouro depois que ele enfrentou seus capangas.

Segundo a tradição oral, Besouro foi assassinado — as circunstâncias exatas variam conforme quem conta. A versão mais popular diz que ele foi atacado de surpresa, e que por isso seu “corpo fechado” não o protegeu.

O certo é que Besouro morreu jovem, lutando, sem nunca ter sido derrotado de frente por ninguém.

O atestado de óbito — que existe de verdade, não é lenda — diz: “Manoel Henrique, vulgo Besouro, cor parda, 29 anos, solteiro, natural de Santo Amaro, faleceu em decorrência de ferimentos.”

“O atestado existe”, repetiu Mestre Risadinha. “O homem existiu. E o resto — o corpo fechado, o besouro, a madeira de tucum — isso é a poesia que o povo colocou em cima da verdade.”

O Legado

Besouro virou filme, livro, peça de teatro, música. Mestre Camisa — fundador da ABADÁ-Capoeira — cresceu ouvindo as histórias de Besouro em Santo Amaro. Besouro é lembrado até hoje como um dos maiores capoeiristas que a Bahia já produziu.

Em 2009, o filme “Besouro” levou sua história para o cinema nacional, com Ailton Carmo no papel principal.

“Besouro não foi só um lutador”, concluiu o mestre. “Ele foi a prova viva de que um homem negro, pobre, filho de ex-escravizados, podia enfrentar o sistema inteiro — e vencer.”

Mestre Risadinha bateu o berimbau três vezes no chão — o sinal de respeito que os antigos faziam antes de entrar na roda.

“Salve Besouro, camará.”

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