Tag: capoeiristas historicos

  • Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    “Sabe qual é o maior erro que as pessoas cometem quando falam da Madame Satã?”

    Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista
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    Mestre Risadinha esperou. Ninguém arriscou.

    “Achar que ela era uma coisa só.”

    Ele fez uma pausa. “Madame Satã foi tanta coisa que não cabe num rótulo: capoeirista, malandro, drag queen, cozinheiro, pai de família, lenda viva da Lapa. E acima de tudo: sobrevivente.”

    O Menino Que Virou Lenda

    João Francisco dos Santos nasceu em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco — um lugarejo que até hoje pouca gente sabe onde fica. Aos 13 anos, trocou de lugar com um menino que ia ser vendido como escravo e embarcou num navio para o Rio de Janeiro. Ele mesmo se vendeu — pra salvar outra criança.

    “Já começa aí”, comentou Mestre Risadinha. “O cara tinha 13 anos e botou a própria liberdade em risco pra salvar um desconhecido. Isso diz muito sobre quem ele era.”

    No Rio, João Francisco virou Madame Satã. Mas não foi de uma vez.

    A Lapa dos Anos 1930

    A Lapa dos anos 1920 e 1930 era o coração pulsante da boemia carioca. Prostitutas, malandros, músicos, poetas, artistas de circo — todo mundo se encontrava nos cabarés e botequins da região. E, no meio desse caldeirão, Madame Satã dançava, cantava, lutava e desfilava.

    O apelido “Satã” veio de uma fantasia que ele usou num baile de carnaval — um figurino vermelho com chifres, inspirado no diabo do filme “A Madrasta”, que estava em cartaz num cinema da Lapa. O “Madame” veio antes, da performance drag que ele fazia nos palcos.

    “Ele não era só drag”, explicou o mestre. “Era artista. Cantava, dançava, costurava as próprias roupas. Era cozinheiro de mão cheia — dizem que o peixe ao molho dele era famoso na Lapa inteira.”

    Mas o que realmente assustava era a capoeira.

    “Quem Mandou Me Procurar?”

    Madame Satã era temida. Em um tempo em que ser negro, pobre, homossexual e malandro era praticamente uma sentença de morte, ele não só sobrevivia — ele dominava.

    Seu golpe mais famoso era a rasteira — aplicada com uma precisão tão cirúrgica que o adversário caía antes de entender o que tinha acontecido. Dizem que ele enfrentou, sozinho, um grupo de policiais armados de cassetete numa rua da Lapa — e que, ao final da briga, todos estavam no chão.

    “Isso é exagero? Provavelmente”, riu Mestre Risadinha. “Mas o fato é que a polícia do Rio tinha tanto medo dele que mandava reforço sempre que ia prendê-lo.”

    Madame Satã enfrentou 29 processos criminais. Passou, ao todo, 27 anos e 8 meses da vida na cadeia — intercalados, não de uma vez. A maior parte das prisões era por vadiagem — o mesmo artigo que pegava os capoeiristas no século anterior.

    Em uma dessas prisões, ele foi levado para a Ilha Grande — presídio de segurança máxima. Quando um preso tentou intimidá-lo, Satã respondeu com uma frase que virou lenda: “Quem mandou me procurar, hem, filho da puta?”

    Depois desse dia, ninguém mais mexeu com ele na Ilha Grande.

    O Legado Que o Brasil Quase Esqueceu

    Madame Satã morreu em 1976, aos 76 anos, de causas naturais — o que, considerando sua vida, já é um milagre. Criou filhos adotivos — há relatos de que foram vários — e dedicou a eles o cuidado que nunca recebeu na infância.

    Em 2002, o filme “Madame Satã”, dirigido por Karim Aïnouz e estrelado por Lázaro Ramos, levou sua história ao mundo. Foi selecionado para o Festival de Cannes e ganhou prêmios internacionais.

    “O que a Madame Satã ensina pra gente?” Mestre Risadinha olhou para cada aluno, um por um. “Ensina que você pode ser tudo ao mesmo tempo. Pode ser forte e frágil, valente e delicado, temido e amado. Pode ser o que quiser — desde que não deixe ninguém te colocar numa caixa.”

    Ele fez o sinal da cruz — mistura de fé e malandragem.

    “Salve Madame Satã, que nunca se curvou.”

  • Besouro Mangangá — O Capoeirista Que Virava Bicho

    Besouro Mangangá — O Capoeirista Que Virava Bicho

    “Tem um homem na Bahia”, disse Mestre Risadinha, abaixando a voz como quem conta um segredo, “que os policiais juravam que virava besouro.”

    Besouro Mangangá — O Capoeirista Que Virava Bicho
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    Os alunos se inclinaram pra frente.

    “E não é história de pescador, não. Tem boletim de ocorrência.”

    Quem Foi Besouro Mangangá

    Manoel Henrique Pereira nasceu em 1895, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano — o mesmo pedaço de chão que depois daria ao mundo Caetano Veloso, Maria Bethânia e Dona Canô. Mas Besouro não era músico. Era outra coisa.

    Dizem que o apelido veio de um mestre de capoeira chamado Alípio, que teria dito: “Esse menino é besouro Mangangá — quando entra na roda, ninguém segura.”

    Besouro Mangangá é uma espécie de vespão preto, daqueles que voam reto e não desviam de nada. O nome encaixou perfeitamente.

    “Besouro não era grande”, contou Mestre Risadinha. “Era magro, altura mediana. Mas o corpo dele parecia de borracha. Pulava muro de dois metros como se fosse meio-fio. E tinha uma meia-lua de compasso que, dizem, ninguém nunca conseguiu defender.”

    O Homem Que Não Podia Ser Preso

    A Bahia do começo do século XX era território dos coronéis — fazendeiros poderosos que mandavam e desmandavam. Besouro trabalhava de vaqueiro, mas seu verdadeiro ofício era outro: proteger os mais fracos.

    As histórias se repetem em Santo Amaro até hoje: Besouro enfrentava grupos de policiais sozinho. Besouro entrava em festas proibidas para negros e garantia que ninguém fosse expulso. Besouro desafiava capangas de coronéis que batiam em trabalhadores.

    “Ele era tipo um Robin Hood”, explicou o mestre. “Mas em vez de arco e flecha, era rabo de arraia e cabeçada.”

    A lenda diz que Besouro tinha o corpo fechado — protegido por orixás, por rezas, por patuás. Que bala não pegava nele. Que ele virava bicho quando precisava fugir.

    “Isso é lenda”, admitiu Mestre Risadinha. “Mas o fato é que a polícia de Santo Amaro inteira não conseguia prender um homem só. Isso é verdade.”

    A Morte de Besouro

    Besouro Mangangá morreu em 1924, com apenas 29 anos. Foi traído. Um fazendeiro chamado Zé de Veiga — ou Dr. Zeca, dependendo de quem conta — mandou matar Besouro depois que ele enfrentou seus capangas.

    Segundo a tradição oral, Besouro foi assassinado — as circunstâncias exatas variam conforme quem conta. A versão mais popular diz que ele foi atacado de surpresa, e que por isso seu “corpo fechado” não o protegeu.

    O certo é que Besouro morreu jovem, lutando, sem nunca ter sido derrotado de frente por ninguém.

    O atestado de óbito — que existe de verdade, não é lenda — diz: “Manoel Henrique, vulgo Besouro, cor parda, 29 anos, solteiro, natural de Santo Amaro, faleceu em decorrência de ferimentos.”

    “O atestado existe”, repetiu Mestre Risadinha. “O homem existiu. E o resto — o corpo fechado, o besouro, a madeira de tucum — isso é a poesia que o povo colocou em cima da verdade.”

    O Legado

    Besouro virou filme, livro, peça de teatro, música. Mestre Camisa — fundador da ABADÁ-Capoeira — cresceu ouvindo as histórias de Besouro em Santo Amaro. Besouro é lembrado até hoje como um dos maiores capoeiristas que a Bahia já produziu.

    Em 2009, o filme “Besouro” levou sua história para o cinema nacional, com Ailton Carmo no papel principal.

    “Besouro não foi só um lutador”, concluiu o mestre. “Ele foi a prova viva de que um homem negro, pobre, filho de ex-escravizados, podia enfrentar o sistema inteiro — e vencer.”

    Mestre Risadinha bateu o berimbau três vezes no chão — o sinal de respeito que os antigos faziam antes de entrar na roda.

    “Salve Besouro, camará.”