“Alguém aqui já viu um filme com capoeira?”
Várias mãos levantaram. Mestre Risadinha sorriu.
“Então vocês já perceberam que o cinema ama a capoeira. Mas nem sempre amou pelos motivos certos.”
Os Primeiros Passos no Cinema
A primeira aparição notável da capoeira no cinema internacional foi em 1993, com o filme “Only the Strong” (“O Grande Desafio”, no Brasil). A história — um ex-fuzileiro naval que volta pra Miami e usa a capoeira pra disciplinar alunos problemáticos de uma escola — é um clichê do começo ao fim. Mas as cenas de luta, coreografadas com capoeiristas reais, foram revolucionárias pra época.
“‘Only the Strong’ tem todos os defeitos de filme americano sobre Brasil”, comentou Mestre Risadinha. “Mas fez uma coisa importante: botou a capoeira no mapa. Depois dele, o mundo inteiro quis saber o que era aquela luta-dança que ninguém nunca tinha visto.”
Besouro (2009)
O primeiro grande filme brasileiro totalmente dedicado à capoeira. “Besouro“, dirigido por João Daniel Tikhomiroff e estrelado por Ailton Carmo, conta a história de Besouro Mangangá com uma mistura de realismo histórico e realismo mágico — Besouro literalmente vira besouro e voa em algumas cenas.
“O filme não é documentário”, esclareceu o mestre. “É fantasia. Mas captura o espírito do Besouro — a rebeldia, a coragem, a mística. E as cenas de capoeira são de arrepiar.”
O elenco contou com capoeiristas profissionais nas coreografias, e a trilha sonora trouxe cantigas tradicionais. Mesmo com críticas mistas, “Besouro” é um marco: o primeiro blockbuster brasileiro sobre capoeira.
Madame Satã (2002)
Antes de Besouro, o cinema brasileiro já tinha produzido uma obra-prima sobre um personagem da capoeira. “Madame Satã”, dirigido por Karim Aïnouz, com Lázaro Ramos no papel principal, é um retrato visceral da Lapa dos anos 1930. Não é um filme “de ação” — é um drama sobre identidade, resistência e marginalidade.
Lázaro Ramos passou meses treinando capoeira para o papel. Suas cenas de luta são cruas, realistas, sem coreografia exagerada — refletindo a capoeira de rua que Madame Satã realmente praticava. O filme foi selecionado para o Festival de Cannes e ganhou prêmios internacionais.
“Madame Satã” fez algo raro”, refletiu Mestre Risadinha. “Mostrou que a capoeira pode ser cinema de arte. Não precisa ser só filme de porrada.”
Capoeira em Hollywood e Além
De lá pra cá, a capoeira apareceu em dezenas de produções:
- Pantera Negra (2018): as coreografias de luta dos Dora Milaje — as guerreiras de Wakanda — incorporam movimentos de capoeira. A luta de Okoye na Coreia tem ginga, esquiva e golpes circulares claramente inspirados na capoeira.
- Tekken e Street Fighter (videogames): Eddy Gordo (Tekken) e Elena (Street Fighter) são personagens que lutam exclusivamente com capoeira. Eles apresentaram a arte marcial para uma geração inteira de gamers.
- The Mandalorian (série): o dublê e coreógrafo Lateef Crowder, capoeirista americano, incorporou movimentos de capoeira nas cenas de luta da série.
“O cinema entendeu”, concluiu o mestre. “A capoeira é bonita demais pra ficar escondida. E enquanto tiver câmera filmando, a roda continua girando.”

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