“Agora chega de teoria”, anunciou Mestre Risadinha, batendo o pandeiro na palma da mão. “Vamos cantar as nossas.”
Os alunos se ajeitaram. Todo mundo no Ginga SP sabe que tem um momento da aula em que o mestre para de explicar e começa a puxar o coro — e esse é o momento que todo mundo mais gosta.
“Primeira de hoje: Tava na Beira do Mar.”
Tava na Beira do Mar
Essa é uma das cantigas mais cantadas nas rodas do Ginga SP. Tem melodia suave, que parece onda do mar — vai e vem, vai e vem. A letra fala de Iemanjá, a rainha das águas, e da relação do capoeirista com o oceano:
Tava na beira do mar,
Tava na beira do mar,
Eu vi Iemanjá,
Sentada na areia,
Sentada na areia,
A beira do mar.
“O mar na capoeira é símbolo poderoso”, explicou Mestre Risadinha. “É o Atlântico que os africanos cruzaram. É a saudade da terra que ficou pra trás. E é também o mistério — o que tem no fundo do mar, ninguém sabe.”
O refrão é simples, repetitivo — exatamente como as cantigas tradicionais devem ser. Fácil de aprender, fácil de cantar junto. É o tipo de corrido que o mestre puxa quando quer acalmar a roda, trazer todo mundo de volta ao ritmo.
La Lauê
“Agora essa aqui é diferente”, avisou o mestre. “La Lauê tem uma energia que sobe.”
E subiu mesmo. No primeiro verso, os alunos mais experientes já responderam em coro. É uma cantiga que mexe com o corpo — impossível ficar parado ouvindo:
Solista: Ô la lauê, la lauê!
Coro: Ô la lauê, la lauê!
Solista: Ô la lauê, la lauê!
Coro: Ô la lauê, la lauê!
“Essa é daquelas que não tem significado exato nas palavras”, admitiu Mestre Risadinha. “É som, é ritmo, é energia. Vem das tradições orais africanas, onde a voz é instrumento musical antes de ser veículo de significado. O que importa é a vibração.”
E ele explicou que isso é comum na capoeira: nem toda cantiga tem uma “história” pra contar. Algumas existem simplesmente pra fazer o corpo responder — e isso também é sabedoria.
Você Disse um Dia
“Essa próxima”, disse o mestre, com um sorriso maroto, “é sobre promessa.”
Solista: Você disse um dia
Que vinha me ver,
Você disse um dia
Que vinha me ver.
Coro: Você disse um dia
Que vinha me ver.
Os alunos riram. Todo mundo conhece a sensação — a pessoa que prometeu aparecer na roda e nunca veio. A cantiga é quase uma cobrança musical, um “cadê você?” cantado.
“Mas tem outra camada”, completou Mestre Risadinha. “Essa cantiga também fala dos mestres que já se foram. A gente canta esperando que eles apareçam — nem que seja em espírito. E eles sempre vêm.”
A roda fez silêncio por um instante. Alguém bateu palma, devagar. E o mestre já estava puxando a próxima.

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