“Nem só de porrada vive a capoeira.”
Mestre Risadinha soltou essa e os alunos riram. Mas ele estava falando sério.
“Tem cantiga de amor. De saudade. De coração partido. A capoeira também é romance.”
O Amor na Roda
Muitas cantigas de capoeira falam de amor — mas raramente de forma óbvia. O amor na capoeira é cheio de metáforas: o mar, a flor, o pássaro, a morena. É um amor cantado com a mesma malícia do jogo — sugerido, nunca declarado.
“Você Disse um Dia” — uma das cantigas mais cantadas no Ginga SP — é o exemplo perfeito:
Solista: Você disse um dia
Que vinha me ver,
Você disse um dia
Que vinha me ver.
Coro: Você disse um dia
Que vinha me ver.
“É uma cantiga de cobrança”, explicou Mestre Risadinha. “Mas também de saudade. A pessoa prometeu aparecer na roda e não veio. E você canta esperando que ela volte.”
Ele fez uma pausa. “E às vezes, ‘ela’ não é uma pessoa. É um mestre que já morreu. É a Bahia que você deixou pra trás. É a infância que não volta. As cantigas de amor na capoeira são sempre sobre mais de uma coisa.”
“Dona Maria Como Vai Você”
Outra cantiga de amor — essa mais direta:
Solista: Dona Maria, como vai você?
Coro: Dona Maria, como vai você?
Solista: Eu vou indo, vou indo,
Como Deus quiser!
Coro: Eu vou indo, vou indo,
Como Deus quiser!
Dona Maria pode ser uma mulher real, uma vizinha, uma namorada. Mas no contexto da capoeira, Dona Maria é também a própria capoeira — a “senhora” que o capoeirista serve e respeita.
“A Canoa Virou, Marinheiro”
Essa cantiga parece falar de naufrágio — mas também fala de amor:
Solista: A canoa virou, marinheiro!
Coro: No fundo do mar tem dinheiro!
“A canoa é o coração”, filosofou Mestre Risadinha. “O marinheiro é você. O fundo do mar é o mistério do amor — tem tesouro lá, mas também tem perigo.”
Os alunos ficaram em silêncio. Talvez pensando em alguma canoa que já virou.
“E é por isso que a capoeira é completa”, concluiu o mestre. “Tem luta, tem dança, tem história, tem religião… e tem amor. Porque o amor também é capoeira.”
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