“Fecha a roda. Baixa o berimbau. Respira.”
Mestre Risadinha não estava dando aula de movimento. Estava dando aula de silêncio — aquela pausa que acontece antes de toda roda de verdade começar, quando o cantador saúda Deus, os orixás e os mestres que já se foram.
“Vocês já perceberam que a capoeira, às vezes, parece uma religião?”
Dois Mundos Que Se Cruzam
A capoeira e as religiões afro-brasileiras — especialmente o Candomblé e a Umbanda — compartilham raízes profundas. Ambas vêm da África. Ambas foram perseguidas. Ambas sobreviveram disfarçadas, escondidas, misturadas com elementos do catolicismo pra enganar os senhores e as autoridades.
“No tempo da escravidão”, explicou Mestre Risadinha, “os africanos não podiam cultuar seus deuses abertamente. Então escondiam os orixás atrás dos santos católicos. Ogum virava São Jorge. Iemanjá virava Nossa Senhora dos Navegantes. E na capoeira, acontecia a mesma coisa — a luta virava dança, a dança virava oração.”
O berimbau, inclusive, tem origem nos rituais religiosos africanos. Antes de ser instrumento da capoeira, era usado em cerimônias de cura, de comunicação com ancestrais, de transe.
Os Orixás na Roda
Muitas cantigas de capoeira mencionam orixás diretamente. Iemanjá — a rainha do mar — aparece em “Tava na Beira do Mar” e em dezenas de outras cantigas. Ogum — o guerreiro, senhor dos metais e dos caminhos — é saudado em ladainhas como protetor dos capoeiristas. Xangô — o rei da justiça, senhor do trovão — é invocado quando a roda precisa de força e equilíbrio.
“Mas tem um detalhe importante”, ponderou o mestre. “Você não precisa ser do Candomblé pra jogar capoeira. A capoeira é aberta. Mas se você não entende nada da espiritualidade que está nas cantigas, você tá jogando pela metade.”
São Bento — o santo católico mais invocado na capoeira — é um exemplo perfeito dessa fusão. Protetor contra picadas de cobra e veneno, São Bento foi sincretizado com divindades africanas de cura. Quando Mestre Bimba cantava “Valha-me Deus, Senhor São Bento”, ele estava invocando uma proteção que atravessava dois mundos religiosos ao mesmo tempo.
O Corpo Como Templo
Na capoeira, há um conceito importante: o corpo fechado. É a crença de que o capoeirista pode ser protegido espiritualmente — por rezas, patuás (amuletos), fundamentos — contra o perigo. Besouro Mangangá era o maior exemplo: diziam que bala não pegava nele porque seu corpo estava “fechado”.
“Corpo fechado não é superstição”, ensinou Mestre Risadinha. “É estado de espírito. É confiança. É você entrar na roda acreditando que tá protegido — pelo seu mestre, pelos que vieram antes, pelo axé da roda.”
Ele fez uma pausa. “Mas não adianta ter corpo fechado e não treinar. Os orixás ajudam — mas a esquiva é sua.”

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