“Quem aqui já fez estrelinha na aula de educação física?”
Quase todo mundo levantou a mão. Mestre Risadinha sorriu.
“Então vocês já sabem metade do aú. A outra metade… é capoeira.”
O Que É o Aú
O aú é o movimento acrobático mais básico da capoeira — uma estrela (ou “cartwheel”) adaptada para o contexto de luta. Diferente da estrela da ginástica olímpica, o aú da capoeira não busca a linha reta ou aterrissagem perfeita. Ele busca deslocamento, esquiva e ataque disfarçado.
“Na ginástica, a estrela é um fim”, explicou Mestre Risadinha. “Na capoeira, o aú é um meio. Você não faz aú pra mostrar que sabe. Você faz aú pra chegar num lugar diferente — ou pra fugir de um lugar perigoso.”
Passo a passo do aú básico:
- Partindo da ginga, dê um passo à frente com a perna de apoio.
- Incline o tronco para o lado e coloque a primeira mão no chão.
- Imediatamente coloque a segunda mão, enquanto as pernas sobem.
- As pernas passam pelo alto — abertas, em forma de “V”.
- A primeira mão sai do chão, depois a segunda, e você aterrissa com a perna contrária à que iniciou.
- Volte para a ginga.
As Variações do Aú
O aú tem tantas variações que daria um post só pra elas. As principais que você aprende na corda crua e amarela:
- Aú simples: o básico descrito acima. Mãos e pés tocam o chão na sequência.
- Aú aberto: as pernas ficam bem afastadas no alto, dando amplitude visual ao movimento.
- Aú fechado: as pernas ficam mais juntas — é mais rápido e ocupa menos espaço na roda.
- Aú sem mão: a famosa “estrela sem mão” — o corpo gira no ar sem apoio. Exige explosão e prática. (Cordas mais avançadas.)
O Aú Como Movimento de Luta
“Agora presta atenção nisso”, disse o mestre, com ar de quem vai revelar um segredo. “O aú não é só acrobacia. É deslocamento tático.”
No jogo, o aú serve para pelo menos três coisas:
- Esquiva: contra uma rasteira ou vingativa, o aú tira as duas pernas do chão ao mesmo tempo.
- Entrada no jogo: muitos capoeiristas entram na roda com um aú — é como se dissessem “cheguei” sem usar palavras.
- Contra-ataque: durante o aú, a perna que sobe primeiro pode virar um golpe — o célebre aú batido, onde a perna desce como um martelo sobre o adversário.
“O aú batido”, alertou Mestre Risadinha, “é golpe avançado. Na corda crua, a gente só aprende o aú simples. Depois a gente sobe o nível.”
Origem do Nome
“Aú” vem do som que o macaco faz — a-úúú. A comparação não é por acaso: o movimento imita o deslocamento ágil dos primatas, que se apoiam nas mãos para mudar de direção rapidamente. Na capoeira, é exatamente isso que o aú faz: te leva pra qualquer lado, depressa, sem aviso prévio.
“E se um dia você estiver numa roda e o berimbau acelerar, e você não souber o que fazer”, concluiu o mestre, “faz um aú. O aú salva.”

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