“Quem aqui acha que a música da capoeira é só berimbau?”
Várias mãos levantaram. Mestre Risadinha balançou a cabeça.
“O berimbau é a estrela. Mas atrás de toda estrela tem um elenco de apoio que faz o espetáculo acontecer.”
Ele apontou para o canto do salão, onde os instrumentos estavam enfileirados como soldados antes da batalha.
A Bateria Completa
Na Capoeira Angola tradicional, a orquestra tem até oito músicos. Cada instrumento tem voz própria, função específica, e sem eles a música da capoeira simplesmente não funciona.
O Berimbau (na verdade, três)
O berimbau não é um — é uma família. Na Angola, são três atuando juntos:
- Gunga (ou berra-boi): o mais grave, o chefe da orquestra. Tem a cabaça maior e o arame mais frouxo. É ele quem dita o toque e o andamento. Os outros o seguem.
- Médio (ou centro): inverte o toque do gunga, criando o contratempo. É o “resposta” na conversa entre os berimbaus.
- Viola (ou violinha): o mais agudo, com a cabaça menor. É o improvisador, o que faz variações, as “floreadas”. O mais moleque dos três.
“Os três berimbaus são como três gerações”, filosofou Mestre Risadinha. “O gunga é o avô — sábio, pausado. O médio é o pai — faz o meio de campo. E o viola é o filho — inventa, brinca, ousa.”
O Atabaque — O Coração
O atabaque é o tambor sagrado de origem africana. Na capoeira, ele marca a pulsação fundamental — tum… tum-tum… tum… — sobre a qual todos os outros instrumentos se apoiam.
Tocado com as mãos (não com baquetas), o atabaque produz três sons básicos: o grave (centro da pele), o médio (borda) e o agudo (borda com pressão). O tocador de atabaque precisa ter resistência, ritmo e sensibilidade — porque é ele quem mantém a roda “no chão”.
“Se o berimbau é a alma”, disse o mestre, “o atabaque é o coração. Quando o atabaque para, a roda morre.”
O Pandeiro — A Voz da Rua
O pandeiro da capoeira não é o mesmo pandeiro do samba ou do choro. É tocado com a mão inteira, produzindo um som mais grave e percussivo. Na Angola, há um pandeiro — às vezes dois — que complementa a base rítmica com acentos sincopados e viradas.
“O pandeiro é o animador da roda”, explicou Mestre Risadinha. “É ele que preenche os espaços entre uma batida e outra. Sem pandeiro, a música fica oca.”
O Agogô — O Brilho Metálico
O agogô é uma campânula dupla de metal, de origem africana — o mesmo instrumento usado no candomblé. Cada campânula tem uma nota, uma aguda e outra grave. O tocador alterna entre elas marcando o contratempo, criando um som metálico e penetrante que corta a textura dos tambores.
“O agogô é a cereja do bolo”, riu o mestre. “Não precisa ser o mais alto. Mas se faltar, todo mundo sente.”
O Reco-Reco — A Fricção
Um tubo de madeira (ou metal) com ranhuras, raspado com uma vareta. Produz um som contínuo de fricção que preenche o fundo da música. É o instrumento mais discreto da bateria — quase subliminar —, mas essencial para dar textura e densidade ao som.
Na Capoeira Regional de Bimba, o reco-reco e o agogô foram removidos da bateria. Bimba preferiu o som mais enxuto: um berimbau e dois pandeiros. Mais clareza, menos “ruído”.
“Bimba fez sua escolha”, ponderou Mestre Risadinha. “Mas na Angola, a gente gosta da fartura. Quanto mais som, mais rica a conversa.”

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