“Quantos toques de berimbau você conhece?”
Os alunos listaram: Angola, São Bento Grande… e pararam. Mestre Risadinha sorriu.
“O berimbau fala pelo menos sete línguas diferentes. Cada uma diz uma coisa. E o capoeirista que não entende todas elas está jogando com os ouvidos tampados.”
Os Sete Toques Principais
1. Angola
O toque mais antigo. Lento, compassado, hipnótico. O som é grave-arrastado: dim… dom… dim… dom…. Convida ao jogo baixo, rente ao chão, cheio de malícia e mandinga. É o toque da Capoeira Angola tradicional. “Quando o gunga toca Angola, a roda respira fundo”, disse o mestre.
2. São Bento Grande
O toque mais famoso da capoeira. Rápido e vibrante: dim-dim-dim-dim. É o toque do jogo aberto, das acrobacias, dos golpes altos. Na Capoeira Regional de Bimba, ele ganha ainda mais velocidade e recebe o nome de São Bento Grande de Regional. “É o toque que faz o público aplaudir”, comentou Mestre Risadinha. “E também o que mais cansa os jogadores.”
3. São Bento Pequeno
Meio-termo entre Angola e São Bento Grande. Nem tão lento quanto um, nem tão rápido quanto o outro. Usado para jogos de destreza técnica, onde o que vale é a precisão, não a força. “É o toque do capoeirista estudioso”, brincou o mestre.
4. Benguela
Toque em compasso quebrado. O som é sincopado, irregular — quase como se estivesse mancando. Convida ao jogo de corpo colado, à capoeira de “dentro”, onde os jogadores ficam muito próximos. “Benguela é conversa de sussurro”, explicou o mestre. “Não precisa gritar pra ser ouvido.”
5. Iúna
O toque mais solene. Elegante, cerimonial, quase um réquiem. Tradicionalmente, só mestres e alunos graduados podem jogar sob o toque de Iúna. É o momento de maior respeito na roda — não se admitem brincadeiras, provocações ou jogo bruto. “Iúna é oração”, resumiu Mestre Risadinha.
6. Cavalaria
Este toque é história viva. No tempo em que a capoeira era proibida, o toque de Cavalaria imitava o tropel de cavalos — era o alarme. Quando o berimbau tocava Cavalaria, a roda se desfazia em segundos, os capoeiristas se misturavam ao samba… e a polícia montada passava sem ver nada. “A Cavalaria salvou vidas”, disse o mestre, sério. “Esse toque é herança de resistência.”
7. Santa Maria (ou Amazonas)
Toque menos comum, mas presente em muitas rodas tradicionais. Mais rápido que Angola, mais lento que São Bento Grande. Usado para jogos técnicos, especialmente quando se quer homenagear alguém especial na roda. “Santa Maria é o toque da gratidão.”
O Berimbau Não Toca Sozinho
“E tem mais”, acrescentou Mestre Risadinha. “Cada grupo, cada mestre, tem suas variações. O que eu chamo de Benguela, outro mestre pode chamar de Banguela. O São Bento Grande da Bahia não é idêntico ao de São Paulo. A capoeira é viva — ela respira, muda, se adapta.”
Ele pegou o gunga e tocou um trecho de cada toque, um após o outro. A aula virou concerto.

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