“Antes do corpo, vem o som.”
Mestre Risadinha repetiu a frase como quem repete uma oração. Os alunos, já acostumados com o jeito do mestre de começar as aulas com meia frase enigmática, esperaram.
“Vocês acham que a capoeira começa quando os dois jogadores se cumprimentam no pé do berimbau?” Ele mesmo respondeu: “Não. Começa muito antes. Começa quando o berimbau gunga dá a primeira nota. Aquela vibração grave — dimm, dimm, domm — é ela que abre a roda. É ela que convida os corpos. É ela que diz se o jogo vai ser lento ou rápido, amigável ou perigoso.”
A Roda Não É Só Corpo — É Orquestra
Na capoeira, a música não é trilha sonora. É regente. É ela que diz quando o jogo começa, quando acelera, quando para. E o maestro dessa orquestra é o berimbau.
A bateria tradicional da Capoeira Angola é formada por até oito instrumentos, mas três são o coração pulsante: o berimbau (na verdade são três — gunga, médio e viola), o atabaque e o pandeiro. O gunga é o mais grave, o chefe. O médio faz a inversão do toque, criando o diálogo rítmico. O viola, agudo, improvisa — é o mais moleque dos três. Completa a bateria o agogô (campânula metálica dupla) e o reco-reco, que preenche os espaços com sua fricção contínua.
“Presta atenção”, disse Mestre Risadinha, batendo o gunga três vezes no chão. Os alunos silenciaram. “Isso não é barulho. Isso é código.”
Os Toques Que Falam
Cada toque de berimbau tem um significado. Não é só ritmo — é linguagem. Os principais toques da capoeira são:
- São Bento Grande — o toque mais famoso. Rápido, vibrante, é o toque do jogo aberto, dos golpes altos e das acrobacias. Na Capoeira Regional de Mestre Bimba, é o toque principal.
- Angola — lento, hipnótico, quase meditativo. É o toque da Capoeira Angola, do jogo rasteiro, da malícia, da mandinga. “Quando o gunga toca Angola”, explicou o mestre, “o jogo vira conversa. Não tem pressa.”
- São Bento Pequeno — um meio-termo. Nem tão lento quanto Angola, nem tão rápido quanto São Bento Grande. Usado para jogos de destreza técnica.
- Benguela — toque em compasso quebrado, que convida ao jogo de corpo próximo, quase um abraço disfarçado de luta.
- Iúna — o toque dos formados. Tradicionalmente, só mestres e alunos graduados podem jogar sob o toque de Iúna. É elegante, cerimonial, e não admite jogo bruto.
- Cavalaria — este aqui é história pura. No tempo em que a capoeira era proibida, o toque de Cavalaria imitava o galope dos cavalos da polícia. Quando o berimbau tocava Cavalaria, era sinal de fuga — a cavalaria estava chegando e a roda precisava se dispersar.
“O toque de Cavalaria salvou vidas”, disse Mestre Risadinha, a voz séria. “A música era sistema de alarme. A música era resistência.”
O Canto Que Narra a História
Mas o berimbau não trabalha sozinho. Ele dialoga com a voz do cantador — o griot da capoeira. O cantador não é só músico: é historiador, conselheiro, provocador e, às vezes, árbitro.
“É o cantador que controla o jogo”, explicou o mestre. “Se os dois lá dentro estão muito agressivos, ele puxa um corrido de paz. Se estão muito parados, ele acelera o ritmo com um refrão mais rápido. Se alguém cai, ele narra a queda na hora, improvisando um verso que transforma o tombo em piada ou lição.”
Na próxima aula: as três partes da música de capoeira — ladainha, chula e corrido — e por que cada uma tem um papel diferente na roda.

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