Terra e Marte: Os Únicos Que Realmente Importam?

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De todos os planetas do Sistema Solar, apenas dois ocupam o imaginário humano com a mesma intensidade: a Terra, nosso lar azul, e Marte, o deserto vermelho que um dia foi úmido. Um deu origem à vida. O outro pode ter abrigado os primeiros organismos além da Terra. Entre eles, uma pergunta que define nossa era: estamos sozinhos?

Terra e Marte: Os Únicos Que Realmente Importam?
NASA/Apollo 17 crew; taken by either Harrison Schmitt or Ron Evans — Public domain (via Wikimedia Commons)

A Terra: O Ponto Azul Pálido

Em 14 de fevereiro de 1990, a sonda Voyager 1, já a 6 bilhões de quilômetros de casa, virou sua câmera para trás. A imagem que voltou mostrava a Terra como um ponto azul pálido — um pixel de luz suspenso num raio de Sol. Carl Sagan transformaria essa fotografia numa das reflexões mais poderosas da história da ciência:

“Aquele ponto é aqui. é nossa casa. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que conhece, todos de quem já ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram suas vidas.”

A Terra permanece o único corpo celeste onde confirmamos a existência de água líquida em superfície — o solvente universal da vida como a conhecemos. Nossa atmosfera de 21% de oxigênio, nosso campo magnético protetor e nossa distância precisa do Sol formam uma combinação que, até onde sabemos, é singular na galáxia.

Fonte: Sagan, C. (1994). Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space. Random House.

Marte: O Planeta Que Respirou

Marte hoje é um deserto gelado. Mas 4 bilhões de anos atrás, as evidências são esmagadoras: era um mundo com rios, lagos e talvez um oceano cobrindo um terão do hemisfério norte. O rover Curiosity encontrou leitos de riachos antigos na cratera Gale. O Perseverance está neste momento explorando o delta de um rio na cratera Jezero — um lugar onde, se houve vida, seus fósseis químicos podem estar preservados nas rochas sedimentares.

O helicóptero Ingenuity, um experimento que deveria fazer apenas cinco voos, completou 72 antes de se aposentar — provando que o voo controlado em outro planeta é possível. Suas imagens aéreas guiaram o Perseverance por terrenos que nenhum rover havia atravessado.

Fonte: Grotzinger, J. P. et al. (2014). “A Habitable Fluvio-Lacustrine Environment at Yellowknife Bay, Gale Crater, Mars.” Science, 343(6169). Farley, K. A. et al. (2020). “Mars 2020 Mission Overview.” Space Science Reviews, 216(8), 142.

Por Que Marte Morreu? O Campo Magnético Que Desapareceu

A pergunta que intriga os cientistas não é se Marte teve água — é por que perdeu tudo. A resposta está no coração do planeta. Marte tem metade do tamanho da Terra, e seu núcleo de ferro esfriou mais rápido. Sem convecção no núcleo externo líquido, o dínamo magnético desligou — e com ele, o campo magnético global desapareceu.

Isso foi uma sentença de morte. Sem o escudo magnético, o vento solar começou a arrancar a atmosfera marciana átomo por átomo. Ao longo de centenas de milhões de anos, Marte perdeu mais de 99% de sua atmosfera original. A água que corria na superfície evaporou, foi quebrada pela radiação ultravioleta em hidrogênio e oxigênio, e o hidrogênio — leve demais para a gravidade marciana reter — escapou para o espaço.

O que restou? Uma atmosfera com menos de 1% da pressão terrestre, composta principalmente de CO₂. Temperaturas médias de -63°C. Tempestades de poeira que podem cobrir o planeta inteiro. E uma pergunta: aconteceu algo similar aqui?

Fonte: Jakosky, B. M. et al. (2017). “Mars’ Atmospheric History Derived from Upper-Atmosphere Measurements of 38Ar/36Ar.” Science, 355(6332), 1408—1410.

Mars Sample Return: As Amostras Que Podem Mudar Tudo

O Perseverance não está apenas fotografando rochas — ele está coletando amostras. Até agora, 23 tubos de titânio foram preenchidos com núcleos de rocha e regolito marciano, selados hermeticamente e depositados na superfície. A missão Mars Sample Return (NASA/ESA) é o plano mais ambicioso da história da exploração robótica: enviar uma nave que pousará em Marte, coletará esses tubos, os lançaré em um foguete da superfície marciana, e os trará de volta à Terra.

Se bem-sucedida, será a primeira vez que material de outro planeta chega é Terra em condições controladas. Poderemos procurar bioassinaturas com instrumentos que não cabem em um rover — espectrômetros de massa do tamanho de salas, microscópios eletrônicos, análises químicas que exigem preparação de amostras impossível de fazer remotamente.

Há um risco existencial nisso também: proteção planetária. As amostras serão recebidas em uma instalação de biossegurança nível 4 modificada — para garantir que, se houver algo vivo ali, não escape.

Fonte: Muirhead, B. K. et al. (2020). “Mars Sample Return Campaign Concept Architecture.” IEEE Aerospace Conference.

Terra e Marte: Separados no Nascimento?

A Terra e Marte não são apenas vizinhos — são primos. Ambos se formaram na mesma região do disco protoplanetário, da mesma nuvem de gás e poeira. Nos primeiros bilhões de anos, ambos tinham água, atmosfera, vulcões e condições potencialmente habitáveis. Mas seus destinos divergiram.

A Terra manteve sua água, desenvolveu vida, oxigenou sua atmosfera. Marte perdeu tudo. A diferença crucial pode ter sido apenas uma: tamanho. Marte, com apenas 10% da massa terrestre, não conseguiu segurar seu calor interno, seu campo magnético, sua atmosfera, sua água.

Quando olhamos para Marte, não vemos apenas outro planeta. Vemos o que a Terra poderia ter sido.

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