O Piloto de Palenque Que Olha Para o Céu
A escadaria desce. O Templo das Inscrições, em Palenque, guarda uma escada estreita e úmida que mergulha no interior da pirâmide, mais de vinte metros abaixo do nível da selva. No fundo, atrás de uma laje triangular, há uma cripta que ninguém abriu durante mais de mil anos. Quando a luz finalmente entrou ali, em 1952, ela encontrou um homem de pedra reclinado, olhando para cima — como se esperasse alguma coisa que ainda não tinha chegado.
A cripta que esperou treze séculos
A descoberta é uma das maiores da arqueologia mesoamericana. O mexicano Alberto Ruz Lhuillier levou quatro anos para limpar os escombros da escadaria interna até encontrar a laje que selava a câmara mortuária de K’inich Janaab’ Pakal, o governante que fez de Palenque uma capital esplêndida do século VII. Nascido em 603 e entronizado aos doze anos, Pakal reinou por quase sete décadas — um dos reinados mais longos da história humana. A cripta foi encontrada com suas paredes ainda vermelhas de estuque pintado, e o corpo do rei repousava em um sarcófago monólito coberto por uma tampa de calcário de quase quatro metros, esculpida em baixo-relevo com uma cena que ninguém, até hoje, conseguiu ler sem emoção.
Para a arqueologia, a cena é a morte de um rei transformada em teologia. Pakal aparece reclinado, emergindo das mandíbulas abertas do monstro da terra — o submundo, Xibalba, que os maias imaginavam como um lugar de rios, espelhos e ossos. Acima dele ergue-se a árvore do mundo, a ceiba sagrada, com um pássaro celestial no topo; ao redor corre a banda do céu. O que parece um painel de controle seria, na leitura oficial, o tronco e os galhos da árvore cósmica. O rei não pilota uma máquina: ele cai, atravessa a boca da terra e renasce como o sol. Para um senhor maia, a morte era uma viagem vertical — e a tampa de Pakal é o mapa dessa viagem, talhado para durar eternidades.
A leitura é elegante, erudita e coerente, apoiada em décadas de epigrafia. Ela só tem um problema: não explica por que tantas pessoas, ao ver a imagem pela primeira vez, pensam imediatamente em um astronauta. A posição reclinada, o olhar para cima, a moldura de fogo: o mesmo conjunto de formas que o especialista decifra como mito, o visitante comum decifra como máquina. A pedra não mudou desde 683 d.C. O que muda é quem a olha.
A outra leitura: o piloto e os aviões de ouro
Em 1968, Erich von Däniken publicou Eram os Deuses Astronautas? e transformou a tampa de Pakal no cartaz do contato antigo: um homem reclinado em uma cápsula, diante de um painel, com um jato de fogo abaixo — o piloto de uma nave. A imagem foi repetida em milhões de exemplares. Vieram os chamados aviões de ouro quimbaya: pequenos pingentes de ouro produzidos pela cultura que floresceu na Colômbia entre os primeiros séculos da nossa era e a chegada dos espanhóis, hoje no Museu do Ouro de Bogotá, cujas asas e caudas pareceriam, para alguns entusiastas, aerodinâmicas demais. A arqueologia responde que são libélulas, pássaros e peixes-voadores estilizados, fruto do gosto quimbaya pelas formas da natureza. O ouro não voa; voa a imaginação de quem o contempla.
O que há de honesto nas duas leituras é o reconhecimento da ambiguidade. A tampa de Pakal foi talhada por uma civilização que amava trocadilhos visuais e duplos sentidos: um rei pode ser, ao mesmo tempo, um homem e uma árvore, um sol e um deus. Se a arte maia opera por camadas, talvez a tampa seja exatamente o que parece — uma máquina — e também o que não parece — uma árvore sagrada. Ou nenhuma das duas: um enigma talhado para permanecer enigma, resistindo a todas as chaves.
O que está em jogo
O que está em jogo é mais do que um sarcófago. Se a leitura do astronauta estiver certa, a história da tecnologia teria de ser reescrita, e a América pré-colombiana deixaria de ser pré qualquer coisa. Se a leitura oficial estiver certa, ficamos com uma lição mais desconfortável: a de que vemos, nos monumentos antigos, o reflexo das nossas próprias máquinas. Em 1952, os arqueólogos viram teologia. Em 1968, os leitores viram naves. Hoje, vemos painéis de controle em qualquer figura reclinada. A tampa não mudou; mudou aquilo que carregamos ao olhar. É por isso que o mesmo objeto é, ao mesmo tempo, o documento mais sólido do poder maia e a imagem mais frágil da nossa necessidade de não estar sós.
Pakal olha para o céu há treze séculos. Os arqueólogos explicam a postura com os textos maias; os ufólogos, com o silêncio do registro. Talvez a pergunta certa não seja se o rei pilotava uma nave, mas o que um homem que passou a vida construindo templos para os astros esperava encontrar lá em cima — e por que nós, ao olhar a mesma pedra, continuamos procurando a mesma coisa, com a mesma mistura de medo e esperança, no mesmo céu.
Não some depois da matéria
Radar do hub: Núcleo Hits, Além do Oculto, Bobinho. Sem spray, sem lista comprada.
Radar do hub
Um e-mail quando sair matéria que importa — sem spray de newsletter genérica.

Deixe um comentário
Entre com Google ou Facebook para comentar. Nome e e-mail vêm da sua conta — sem preencher formulário.
Se o login falhar, configure Google e Facebook em Configurações → Nextend Social Login.
Outras opções de login