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  • Os 7 Toques do Berimbau — Um Guia Completo

    Os 7 Toques do Berimbau — Um Guia Completo

    “Quantos toques de berimbau você conhece?”

    Os 7 Toques do Berimbau — Um Guia Completo
    Wikimedia Commons — Public domain, autor Alexandre Cardoso

    Os alunos listaram: Angola, São Bento Grande… e pararam. Mestre Risadinha sorriu.

    “O berimbau fala pelo menos sete línguas diferentes. Cada uma diz uma coisa. E o capoeirista que não entende todas elas está jogando com os ouvidos tampados.”

    Os Sete Toques Principais

    1. Angola

    O toque mais antigo. Lento, compassado, hipnótico. O som é grave-arrastado: dim… dom… dim… dom…. Convida ao jogo baixo, rente ao chão, cheio de malícia e mandinga. É o toque da Capoeira Angola tradicional. “Quando o gunga toca Angola, a roda respira fundo”, disse o mestre.

    2. São Bento Grande

    O toque mais famoso da capoeira. Rápido e vibrante: dim-dim-dim-dim. É o toque do jogo aberto, das acrobacias, dos golpes altos. Na Capoeira Regional de Bimba, ele ganha ainda mais velocidade e recebe o nome de São Bento Grande de Regional. “É o toque que faz o público aplaudir”, comentou Mestre Risadinha. “E também o que mais cansa os jogadores.”

    3. São Bento Pequeno

    Meio-termo entre Angola e São Bento Grande. Nem tão lento quanto um, nem tão rápido quanto o outro. Usado para jogos de destreza técnica, onde o que vale é a precisão, não a força. “É o toque do capoeirista estudioso”, brincou o mestre.

    4. Benguela

    Toque em compasso quebrado. O som é sincopado, irregular — quase como se estivesse mancando. Convida ao jogo de corpo colado, à capoeira de “dentro”, onde os jogadores ficam muito próximos. “Benguela é conversa de sussurro”, explicou o mestre. “Não precisa gritar pra ser ouvido.”

    5. Iúna

    O toque mais solene. Elegante, cerimonial, quase um réquiem. Tradicionalmente, só mestres e alunos graduados podem jogar sob o toque de Iúna. É o momento de maior respeito na roda — não se admitem brincadeiras, provocações ou jogo bruto. “Iúna é oração”, resumiu Mestre Risadinha.

    6. Cavalaria

    Este toque é história viva. No tempo em que a capoeira era proibida, o toque de Cavalaria imitava o tropel de cavalos — era o alarme. Quando o berimbau tocava Cavalaria, a roda se desfazia em segundos, os capoeiristas se misturavam ao samba… e a polícia montada passava sem ver nada. “A Cavalaria salvou vidas”, disse o mestre, sério. “Esse toque é herança de resistência.”

    7. Santa Maria (ou Amazonas)

    Toque menos comum, mas presente em muitas rodas tradicionais. Mais rápido que Angola, mais lento que São Bento Grande. Usado para jogos técnicos, especialmente quando se quer homenagear alguém especial na roda. “Santa Maria é o toque da gratidão.”

    O Berimbau Não Toca Sozinho

    “E tem mais”, acrescentou Mestre Risadinha. “Cada grupo, cada mestre, tem suas variações. O que eu chamo de Benguela, outro mestre pode chamar de Banguela. O São Bento Grande da Bahia não é idêntico ao de São Paulo. A capoeira é viva — ela respira, muda, se adapta.”

    Ele pegou o gunga e tocou um trecho de cada toque, um após o outro. A aula virou concerto.

  • Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente

    Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente

    “Fecha o olho.”

    Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0, autor TheTurducken

    Mestre Risadinha pediu coisa rara. Os alunos fecharam.

    O berimbau começou a tocar. Lento. Hipnótico. Cada nota parecia vir de um tempo muito antigo, como se o arame vibrasse não com a pedra, mas com a memória de um povo. O corpo pedia pra gingar devagar, rente ao chão. Era Angola.

    De repente — dim-dim-dim-dim — o ritmo acelerou. O toque ficou vibrante, elétrico, convidando a perna a subir, o corpo a girar. Era São Bento Grande de Regional.

    “Abram o olho.” Os alunos abriram. “Vocês acabaram de ouvir a diferença entre as duas capoeiras. Não no golpe — na música.”

    Duas Capoeiras, Duas Orquestras

    A Capoeira Angola e a Capoeira Regional não são só estilos diferentes de jogar. São estilos diferentes de tocar. E a diferença começa na formação da bateria.

    Na Angola, a orquestra é farta: três berimbaus (gunga, médio e viola), atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco — até oito instrumentos tocando juntos. O som é denso, texturizado, cheio de camadas. Cada instrumento tem seu papel: o gunga mantém a base, o médio inverte o toque, o viola improvisa, o atabaque pulsa como coração.

    “A Angola é como uma orquestra de câmara”, comparou Mestre Risadinha. “Cada músico tem sua voz, e o conjunto é maior que a soma das partes.”

    Na Regional de Mestre Bimba, a orquestra foi enxugada: um berimbau e dois pandeiros. Só. O foco é a clareza do toque e a velocidade. O cantador precisa ser ouvido com nitidez, porque na Regional o jogo é mais rápido e as instruções não podem se perder no meio de muitos instrumentos.

    “Bimba simplificou de propósito”, explicou o mestre. “A Regional foi feita pra academia, pra aula, pra competição. Precisava ser objetiva.”

    Os Toques Marcantes de Cada Estilo

    • Angola usa principalmente os toques: Angola (lento, solene), São Bento Pequeno (intermediário) e Benguela (quebrado, jogo de corpo próximo).
    • Regional usa principalmente: São Bento Grande de Regional (rápido, vibrante, acrobático), Iúna (cerimonial, só para formados) e Cavalaria (histórico, de alerta).

    “Tem toques que são usados nos dois estilos”, acrescentou o mestre, “mas com pegada diferente. O São Bento Grande na Angola é um pouco mais lento e malicioso. Na Regional, ele é explosivo.”

    O Canto Também Muda

    Na Angola, o canto começa com ladainha longa — às vezes com dezenas de versos narrando uma história inteira. Depois vem a chula de saudação e finalmente os corridos. O ritual é pausado, contemplativo, quase religioso.

    Na Regional, Mestre Bimba substituiu a ladainha pela quadra — quatro versos rápidos seguidos do refrão do coro. É mais compacto, mais direto, mais adequado ao ritmo de treino.

    “Nenhum é melhor que o outro”, concluiu Mestre Risadinha. “A Angola preserva a tradição como quem guarda um tesouro antigo. A Regional adapta a tradição pra que ela sobreviva no mundo moderno. As duas são necessárias.”

  • Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África

    Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África

    “Vocês acham que a capoeira é a única arte que a gente pratica aqui?”

    Maculelê — A Dança dos Bastões Que Veio da África
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0, autor Joel Zimmer

    Mestre Risadinha pegou dois bastões de madeira — daqueles que ficam encostados no canto do salão — e bateu um no outro. O som ecoou seco, vibrante, como um alerta.

    “Hoje a gente vai falar do irmão da capoeira. O maculelê.”

    O Que É Maculelê

    Maculelê é uma dança-luta de origem africana, praticada com bastões de madeira. Os dançarinos — em roda, como na capoeira — batem os bastões em ritmo frenético, alternando golpes e defesas, enquanto o coro canta e o atabaque marca a pulsação.

    “A lenda conta que maculelê era um guerreiro africano tão forte que enfrentava tribos inteiras sozinho”, contou Mestre Risadinha. “Um dia, ele foi atacado por uma tribo rival — e lutou usando só dois pedaços de pau. Quando ficou cansado demais pra continuar, os atacantes o respeitaram e o deixaram ir. Daí nasceu a dança.”

    História ou mito? “As duas coisas”, desconversou o mestre. “O que importa é que o maculelê sobreviveu. Veio da África pro Brasil, se misturou com tradições indígenas — os povos originários também usavam bastões em rituais — e virou essa arte que a gente pratica até hoje.”

    Como Funciona

    No maculelê, a roda é formada por dançarinos, cada um com dois bastões. O ritmo é marcado pelo atabaque — tocado com as mãos, em cadência rápida e constante. O canto é responsorial, igual ao corrido da capoeira: solista puxa, coro responde.

    Os movimentos alternam entre golpes de ataque e defesa — os bastões se cruzam no ar produzindo aquele som seco, tac-tac-tac, que é a assinatura do maculelê. O pé bate forte no chão a cada golpe, dando peso e enraizamento aos movimentos.

    “No Ginga SP”, explicou o mestre, “a gente pratica maculelê como parte do nosso repertório cultural. Capoeira, maculelê, puxada de rede, samba de roda — tudo é família.”

    As Cantigas de Maculelê

    O repertório do maculelê tem cantigas próprias, diferentes das da capoeira. Muitas falam do próprio maculelê, dos bastões, dos mestres antigos. Outras são adaptações de cantigas populares nordestinas.

    Uma das mais tradicionais:

    Solista: Ô maculelê, ô maculelê!
    Coro: Ô maculelê, ô maculelê!
    Solista: Eu vim de Angola,
    Eu vim de Angola,
    Eu vim de Angola,
    Pra jogar maculelê!
    Coro: Ô maculelê, ô maculelê!

    Outra muito cantada nas rodas:

    Solista: Sou eu, sou eu,
    Sou eu maculelê, sou eu!
    Coro: Sou eu, sou eu,
    Sou eu maculelê, sou eu!

    “Repara que é tudo muito repetitivo”, apontou Mestre Risadinha. “De propósito. O maculelê exige concentração total — você tá com dois bastões na mão, alguém tá batendo em você, e você precisa defender. Se a cantiga fosse complicada, ninguém conseguia cantar e lutar ao mesmo tempo.”

    Por Que Isso Importa

    O maculelê é primo-irmão da capoeira. As duas artes compartilham a mesma origem africana, a mesma estrutura de roda, o mesmo canto responsorial, a mesma filosofia de resistência. Muitos grupos de capoeira — incluindo o Ginga SP — ensinam as duas coisas juntas, como partes da mesma herança.

    “Quando a gente pratica maculelê”, concluiu o mestre, “a gente tá tocando numa memória que vem de muito antes do Brasil — de um tempo em que dançar com bastões era sagrado, era defesa, era identidade.”

    Ele bateu os dois bastões um no outro — tac — e entregou um par para o aluno mais próximo.

    “Agora chega de escutar. Vamo suar.”

  • A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP

    A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP

    “Quem disse que a aula já acabou?” Mestre Risadinha olhou para o relógio, depois para os alunos, e deu aquele sorriso que todo mundo já conhece. “A gente só para quando o berimbau mandar.”

    A Roda Já Começou, Coco Mironga — Mais Cantigas do Ginga SP
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0, autor Ayres Alves de Lima Sales

    Ele ajeitou a corda na cintura e continuou o repertório do Ginga SP.

    A Roda Já Começou

    Essa é, talvez, a cantiga mais cantada em qualquer grupo de capoeira. É o “parabéns pra você” da capoeira — não tem roda que não passe por ela:

    Solista: A roda já começou!
    Coro: A roda já começou, camará!
    Solista: E eu não posso parar!
    Coro: E eu não posso parar, camará!

    “Parece simples”, comentou o mestre. “E é. Mas repara: é um compromisso. Quando você canta ‘eu não posso parar’, você tá dizendo pra roda inteira que tá ali de corpo e alma. Não vai desistir no meio do jogo. Não vai sair correndo quando cansar.”

    Ele parou por um instante. “Isso é a capoeira, aliás. Uma arte onde você aprende a não desistir.”

    Coco Mironga Que Tem Dendê

    Os alunos mais novos se entreolharam. Coco mironga? Dendê?

    “Essa aqui é das antigas”, riu Mestre Risadinha. “Vem lá do Recôncavo Baiano, das rodas de rua de Salvador do começo do século XX.”

    Solista: Coco mironga que tem dendê!
    Coro: Coco mironga que tem dendê!
    Solista: No coco tem dendê!
    Coro: Coco mironga que tem dendê!

    Ele explicou: “Coco” na Bahia é uma fruta — o coco mesmo, mas também tem um jogo de palavras. “Mironga” no vocabulário afro-brasileiro é mistério, segredo, coisa que não se revela. E “dendê” é o azeite de palma, base da culinária baiana — e também símbolo do sagrado, do axé, da energia que move o mundo.

    “Então quando a gente canta ‘coco mironga que tem dendê’”, traduziu o mestre, “a gente tá falando: nessa roda tem mistério, tem força, tem energia ancestral. Quem entrar aqui, respeite.”

    Os alunos assentiram. De repente, a musiquinha engraçada ficou séria.

    Balaio de Café

    “Essa aqui eu gosto porque conta uma história”, disse Mestre Risadinha. “História de trabalho.”

    Solista: Balaio de café,
    Balaio de café,
    Balaio de café,
    Que pesa uma arroba!
    Coro: Balaio de café,
    Que pesa uma arroba!

    O “balaio” era o cesto onde os trabalhadores das fazendas de café carregavam os grãos — nas costas, debaixo de sol, do amanhecer ao anoitecer. Uma arroba são 15 quilos. Imagina carregar 15 quilos nas costas o dia inteiro.

    “Essa cantiga vem dos tempos da escravidão e do pós-abolição”, explicou o mestre. “Os trabalhadores cantavam pra tornar o trabalho menos pesado. A música disfarçava o sofrimento.”

    Ele fez uma pausa. “Isso é a capoeira: até o que parece brincadeira tem dor por trás. Presta atenção.”

    Na Beira do Mar

    “Tem uma outra versão de Na Beira do Mar que a gente canta aqui”, disse o mestre. “Mais rápida, mais pra cima:”

    Solista: Na beira do mar,
    Na beira do mar,
    Aprendi a jogar,
    Capoeira de Angola,
    Na beira do mar!
    Coro: Na beira do mar,
    Aprendi a jogar!

    “Essa versão é mais autobiográfica”, comentou. “O capoeirista contando onde aprendeu. Muitos mestres antigos jogavam na praia — a areia fofa dificulta o movimento, então quem joga bem na areia joga bem em qualquer lugar.”

    O pandeiro acelerou. O coro respondeu mais alto. E Mestre Risadinha sorriu — daquele jeito que só ele sorri.

  • Tava na Beira do Mar, La Lauê — As Cantigas do Ginga SP

    Tava na Beira do Mar, La Lauê — As Cantigas do Ginga SP

    “Agora chega de teoria”, anunciou Mestre Risadinha, batendo o pandeiro na palma da mão. “Vamos cantar as nossas.”

    Os alunos se ajeitaram. Todo mundo no Ginga SP sabe que tem um momento da aula em que o mestre para de explicar e começa a puxar o coro — e esse é o momento que todo mundo mais gosta.

    “Primeira de hoje: Tava na Beira do Mar.”

    Tava na Beira do Mar

    Essa é uma das cantigas mais cantadas nas rodas do Ginga SP. Tem melodia suave, que parece onda do mar — vai e vem, vai e vem. A letra fala de Iemanjá, a rainha das águas, e da relação do capoeirista com o oceano:

    Tava na beira do mar,
    Tava na beira do mar,
    Eu vi Iemanjá,
    Sentada na areia,
    Sentada na areia,
    A beira do mar.

    “O mar na capoeira é símbolo poderoso”, explicou Mestre Risadinha. “É o Atlântico que os africanos cruzaram. É a saudade da terra que ficou pra trás. E é também o mistério — o que tem no fundo do mar, ninguém sabe.”

    O refrão é simples, repetitivo — exatamente como as cantigas tradicionais devem ser. Fácil de aprender, fácil de cantar junto. É o tipo de corrido que o mestre puxa quando quer acalmar a roda, trazer todo mundo de volta ao ritmo.

    La Lauê

    “Agora essa aqui é diferente”, avisou o mestre. “La Lauê tem uma energia que sobe.”

    E subiu mesmo. No primeiro verso, os alunos mais experientes já responderam em coro. É uma cantiga que mexe com o corpo — impossível ficar parado ouvindo:

    Solista: Ô la lauê, la lauê!
    Coro: Ô la lauê, la lauê!
    Solista: Ô la lauê, la lauê!
    Coro: Ô la lauê, la lauê!

    “Essa é daquelas que não tem significado exato nas palavras”, admitiu Mestre Risadinha. “É som, é ritmo, é energia. Vem das tradições orais africanas, onde a voz é instrumento musical antes de ser veículo de significado. O que importa é a vibração.”

    E ele explicou que isso é comum na capoeira: nem toda cantiga tem uma “história” pra contar. Algumas existem simplesmente pra fazer o corpo responder — e isso também é sabedoria.

    Você Disse um Dia

    “Essa próxima”, disse o mestre, com um sorriso maroto, “é sobre promessa.”

    Solista: Você disse um dia
    Que vinha me ver,
    Você disse um dia
    Que vinha me ver.
    Coro: Você disse um dia
    Que vinha me ver.

    Os alunos riram. Todo mundo conhece a sensação — a pessoa que prometeu aparecer na roda e nunca veio. A cantiga é quase uma cobrança musical, um “cadê você?” cantado.

    “Mas tem outra camada”, completou Mestre Risadinha. “Essa cantiga também fala dos mestres que já se foram. A gente canta esperando que eles apareçam — nem que seja em espírito. E eles sempre vêm.”

    A roda fez silêncio por um instante. Alguém bateu palma, devagar. E o mestre já estava puxando a próxima.

  • Mestre Camisa — O Menino da Roça Que Criou a Maior Escola do Mundo

    Mestre Camisa — O Menino da Roça Que Criou a Maior Escola do Mundo

    “Se eu te disser que o maior grupo de capoeira do mundo foi fundado por um menino que cresceu cortando cana na roça, você acredita?”

    Mestre Camisa — O Menino da Roça Que Criou a Maior Escola do Mundo
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0, autor Novák Karel CZ

    Mestre Risadinha não esperou a resposta. “Pois foi exatamente assim.”

    De Jacobina Para o Mundo

    José Tadeu Carneiro Cardoso — que o mundo conhece como Mestre Camisa — nasceu em 1956, em Jacobina, interior da Bahia. A região era pobre, a vida era dura, e o menino Camisa trabalhava na roça desde cedo.

    O apelido veio de uma camisa listrada que ele usava todo santo dia — a única que tinha. Na roda de capoeira, os colegas gritavam: “Joga aí, Camisa!” O nome grudou.

    Camisa começou na capoeira com Mestre Bimba — sim, o próprio. Foi aluno direto do pai da Capoeira Regional. E aprendeu com Bimba não só os golpes, mas a visão de que a capoeira podia ser maior do que uma roda de bairro.

    “Quando Bimba morreu, em 1974”, contou Mestre Risadinha, “os alunos dele ficaram órfãos. Mas em vez de se dispersarem, se uniram. E o Camisa foi o líder natural desse movimento.”

    ABADÁ — Um Nome Que Vem da África

    Em 1988, Mestre Camisa fundou a ABADÁ-Capoeira. O nome é uma palavra de origem iorubá — abaddá — que significa “roupa de guerreiro”. Também é o nome de uma calça larga usada pelos capoeiristas.

    “Camisa escolheu esse nome de propósito”, explicou o mestre. “ABADÁ é a roupa que o guerreiro veste antes da batalha. É a capoeira como preparação para a vida.”

    A ABADÁ cresceu numa velocidade impressionante. Em menos de 10 anos, já era o maior grupo de capoeira do Brasil. Em 20 anos, o maior do mundo.

    Hoje, a ABADÁ-Capoeira está presente em mais de 60 países, com mais de 100 mil alunos espalhados por todos os continentes. É uma multinacional da capoeira — com sedes em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Paris, Tóquio, Sydney.

    “O Camisa não criou só um grupo”, resumiu Mestre Risadinha. “Ele criou uma instituição.”

    O Método ABADÁ

    O que fez a ABADÁ crescer tanto? Três fatores:

    1. Metodologia padronizada. Não importa se você treina em São Paulo ou em Berlim — o sistema de ensino é o mesmo. Cordas, sequências, músicas, tudo segue um currículo.
    2. Profissionalismo. Mestre Camisa tratou a capoeira como profissão séria. Os professores recebem formação pedagógica. Os eventos são organizados como congressos.
    3. Raízes culturais profundas. Apesar de toda a modernização, a ABADÁ nunca abandonou as tradições. Maculelê, samba de roda, puxada de rede — tudo faz parte do currículo.

    “O Camisa entendeu uma coisa que poucos entenderam”, refletiu o mestre. “Se você quer preservar a tradição, você precisa de estrutura. Sem estrutura, a tradição morre.”

    O Legado Vivo

    Mestre Camisa continua ativo. Mora no Rio de Janeiro, dirige pessoalmente a ABADÁ, e viaja o mundo dando workshops e formando novos mestres. É reconhecido como uma das figuras mais influentes da cultura brasileira contemporânea.

    Recentemente, a ABADÁ tem investido em projetos sociais, em pesquisa acadêmica e em parcerias com universidades. O menino da roça que usava a mesma camisa listrada todo dia virou doutor, empreendedor e embaixador da cultura brasileira no mundo.

    “E sabe qual é a lição?” Mestre Risadinha fez a última pausa da aula. “Camisa, Bimba, Pastinha, Besouro — todos eles tinham uma coisa em comum. Nenhum nasceu rico. Nenhum nasceu com privilégio. Mas todos acreditaram que a capoeira era maior do que eles.”

    Ele se levantou, ajeitou a corda na cintura.

    “E estavam certos.”

  • Ladainha, Chula e Corrido — As Três Vozes da Capoeira

    Ladainha, Chula e Corrido — As Três Vozes da Capoeira

    “Toda roda de capoeira conta uma história em três atos.”

    Mestre Risadinha ajeitou o berimbau no colo. “Ato um: a ladainha. Ninguém joga, ninguém canta junto — só o solista. Ato dois: a chula, também chamada de louvação. O coro começa a responder. Ato três: o corrido. Todo mundo canta, o jogo explode.”

    “Se você entende esses três atos”, ele concluiu, “você entende a alma da capoeira.”

    Ato Um — A Ladainha

    A ladainha é o canto de abertura, o momento mais solene da roda. Enquanto o cantador entoa a ladainha, os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau — imóveis, em silêncio, escutando. Ninguém do coro intervém. É um momento de respeito absoluto.

    “A ladainha é o discurso do mestre”, explicou Mestre Risadinha. “Nela, ele conta uma história, faz um lamento, lembra os antigos, ensina uma lição. É o momento em que a tradição fala.”

    Estruturalmente, a ladainha é composta por versos em redondilha maior — sete sílabas poéticas por verso —, organizados em estrofes rimadas. É poesia: a métrica é precisa, as rimas são pensadas. Não é improviso qualquer.

    A ladainha mais antiga e reverenciada da Capoeira Angola é “Iê, Maior é Deus“, eternizada por Mestre Pastinha. Ela diz assim:

    Iê!
    Maior é Deus,
    Maior é Deus, pequeno sou eu.
    O que eu tenho foi Deus que me deu.
    Na roda da capoeira,
    Grande e pequeno sou eu, camará!

    “Repara numa coisa”, apontou o mestre. “O cara que canta isso pode ser o maior capoeirista do mundo. Mas na hora da ladainha, ele se faz pequeno. Isso é humildade. É a capoeira lembrando que ninguém é maior que ninguém.”

    Outra ladainha marcante é “A História Nos Engana“, de Mestre Moraes, que transforma o canto de abertura em manifesto:

    A história nos engana,
    Diz tudo pelo contrário,
    Até diz que a abolição
    Aconteceu no mês de maio.

    “Viu?”, disse Mestre Risadinha. “A ladainha também é aula de história. Da história que não tá nos livros.”

    Ato Dois — A Chula (Louvação)

    Quando a ladainha termina, o cantador solta um grito: “Iê!

    Esse “Iê” é o sinal. A partir dali, começa a chula — também chamada de louvação. É quando o cantador saúda: os mestres, os alunos, Deus, os orixás, a própria capoeira. E o coro começa a responder.

    “Na chula”, explicou o mestre, “o solista canta uma saudação e o coro repete, sempre arrematando com ‘camará’ ou ‘camarado’. É uma reza coletiva.”

    Exemplo de chula:

    Solista: Iê, viva meu Deus!
    Coro: Iê, viva meu Deus, camará!
    Solista: Iê, viva meu mestre!
    Coro: Iê, viva meu mestre, camará!
    Solista: Iê, quem me ensinou!
    Coro: Iê, quem me ensinou, camará!

    “E é no final da chula que o solista autoriza o jogo”, completou Mestre Risadinha. “Ele canta ‘Iê, volta do mundo!’ ou ‘Iê, vamos embora!’ — e aí os dois podem se cumprimentar e começar.”

    Ato Três — O Corrido

    O corrido é a parte mais animada. É aqui que o jogo pega fogo.

    Diferente da ladainha (longa, solene, sem coro) e da chula (saudações fixas), o corrido é dinâmico e improvisado. O solista canta versos curtos e o coro responde com o refrão — nesse vai-e-vem rápido e sincopado que faz todo mundo bater palma.

    “O corrido é o momento da interação”, disse o mestre. “O cantador tá olhando o jogo e improvisando em cima do que vê. Se alguém deu uma rasteira bonita, ele canta sobre isso. Se o jogo esfriou, ele puxa um corrido mais rápido pra animar.”

    Um dos corridos mais conhecidos é “Abalou Capoeira, Abalou“:

    Solista: Abalou capoeira, abalou!
    Coro: Mas se abalou, deixa abalar!

    Outro clássico é “A Canoa Virou, Marinheiro“:

    Solista: A canoa virou, marinheiro!
    Coro: No fundo do mar tem dinheiro!

    “Tá vendo?”, sorriu Mestre Risadinha. “O fundo do mar é o desconhecido. O dinheiro é a sabedoria. Cada corrido tem um significado escondido. Quem não presta atenção, acha que é só musiquinha. Mas é aula.”

    A Quadra de Bimba

    Na Capoeira Regional, Mestre Bimba simplificou esse sistema. Em vez da ladainha longa, ele criou a quadra — uma estrofe de quatro versos rimados, seguida direto pelo refrão do coro. Mais rápida, mais direta, mais adequada ao ritmo de academia.

    Uma das quadras mais famosas de Bimba:

    Valha-me Deus, Senhor São Bento!
    Eu vou jogar meu barravento.
    Buraco velho tem cobra dentro,
    Cobra morde, Senhor São Bento!

    “Bimba era prático”, concluiu Mestre Risadinha. “Mas Pastinha era profundo. Um não é melhor que o outro — são duas formas de contar a mesma história.”

    Na próxima aula: as cantigas que a gente canta aqui no Ginga SP — “Tava na Beira do Mar”, “La Lauê”, “Você Disse um Dia” e outras que fazem parte do nosso dia a dia.

  • Mestre Suassuna e o Cordão de Ouro — A Capoeira Que Rodou o Mundo

    Mestre Suassuna e o Cordão de Ouro — A Capoeira Que Rodou o Mundo

    “Vocês já viram uma apresentação de capoeira com acrobacias que parecem desafiar a gravidade? Aqueles saltos, aqueles giros no ar, aquela energia que faz o público ir ao delírio?”

    Mestre Suassuna e o Cordão de Ouro — A Capoeira Que Rodou o Mundo
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0, autor irene nobrega from Brasil

    Mestre Risadinha sorriu. “Tudo isso tem um pai. E o nome dele é Suassuna.”

    O Menino de Itabuna

    Reinaldo Ramos Suassuna nasceu em 1938, em Itabuna, sul da Bahia — terra do cacau, do calor e da tradição. Começou na capoeira com 10 anos de idade, aprendendo com mestres antigos que ainda carregavam a tradição oral dos tempos da escravidão.

    Aos 14 anos, já era conhecido na região. Aos 20, foi para São Paulo — como tantos nordestinos — em busca de oportunidade. E foi em São Paulo que ele plantou a semente do que viria a ser um dos maiores grupos de capoeira do planeta.

    “Em 1967“, contou Mestre Risadinha, “Suassuna fundou o Cordão de Ouro. O nome veio de uma cantiga antiga — ‘Cordão de Ouro, ê, Cordão de Ouro’ — que falava da corrente de ouro que os escravizados usavam como símbolo de resistência.”

    A Revolução do Cordão de Ouro

    O Cordão de Ouro não foi só mais um grupo. Foi uma revolução estética na capoeira.

    Mestre Suassuna pegou a base da Capoeira Regional de Bimba e adicionou elementos que ninguém tinha usado antes: acrobacias de alto impacto, floreios espetaculares, movimentos que misturavam capoeira com ginástica olímpica.

    O resultado era hipnotizante. Nas apresentações do Cordão de Ouro, o público ficava de boca aberta. Os capoeiristas voavam — literalmente.

    “Tem gente que critica”, admitiu o mestre. “Diz que o Cordão de Ouro transformou a capoeira em espetáculo, que perdeu a mandinga. Mas eu acho que o Suassuna fez uma coisa inteligente: ele tornou a capoeira atraente para o mundo. E graças a isso, milhões de pessoas conheceram a capoeira que nunca teriam conhecido.”

    O Cordão de Ouro se expandiu rapidamente. Hoje está presente em todos os estados do Brasil e em mais de 30 países, incluindo Estados Unidos, França, Japão, Austrália e Israel.

    O Sistema de Ensino

    Mestre Suassuna também inovou na pedagogia. Ele criou um sistema de ensino progressivo, com estágios bem definidos:

    • Aluno — as cordas iniciais (crua, crua-amarela, amarela, amarela-laranja…)
    • Graduado — começa a auxiliar nas aulas
    • Formado — pode dar aulas supervisionadas
    • Professor — autonomia para ensinar
    • Contramestre — auxilia diretamente o mestre
    • Mestre — o topo da hierarquia, após décadas de dedicação

    “Esse sistema deu estrutura”, explicou Mestre Risadinha. “Antes do Suassuna, ser mestre era uma coisa muito informal. Ele profissionalizou a carreira.”

    O Homem Por Trás do Mito

    Mestre Suassuna ainda está vivo e ativo. Mora em São Paulo, continua dando aulas e supervisionando o Cordão de Ouro. Em 2007, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Uberlândia — o reconhecimento acadêmico de uma vida dedicada à cultura brasileira.

    “O Suassuna tem seus críticos, como todo grande mestre”, ponderou Mestre Risadinha. “Mas ninguém pode negar o tamanho do que ele fez. Ele botou a capoeira no mapa-múndi.”

    O berimbau começou a tocar — um São Bento Grande, aquele ritmo acelerado que convida ao jogo rápido e vibrante. Exatamente o estilo que Mestre Suassuna ajudou a criar.

  • O Berimbau Mandou — Como a Música Comanda a Roda

    O Berimbau Mandou — Como a Música Comanda a Roda

    “Antes do corpo, vem o som.”

    O Berimbau Mandou — Como a Música Comanda a Roda
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0, autor Sam Fentress

    Mestre Risadinha repetiu a frase como quem repete uma oração. Os alunos, já acostumados com o jeito do mestre de começar as aulas com meia frase enigmática, esperaram.

    “Vocês acham que a capoeira começa quando os dois jogadores se cumprimentam no pé do berimbau?” Ele mesmo respondeu: “Não. Começa muito antes. Começa quando o berimbau gunga dá a primeira nota. Aquela vibração grave — dimm, dimm, domm — é ela que abre a roda. É ela que convida os corpos. É ela que diz se o jogo vai ser lento ou rápido, amigável ou perigoso.”

    A Roda Não É Só Corpo — É Orquestra

    Na capoeira, a música não é trilha sonora. É regente. É ela que diz quando o jogo começa, quando acelera, quando para. E o maestro dessa orquestra é o berimbau.

    A bateria tradicional da Capoeira Angola é formada por até oito instrumentos, mas três são o coração pulsante: o berimbau (na verdade são três — gunga, médio e viola), o atabaque e o pandeiro. O gunga é o mais grave, o chefe. O médio faz a inversão do toque, criando o diálogo rítmico. O viola, agudo, improvisa — é o mais moleque dos três. Completa a bateria o agogô (campânula metálica dupla) e o reco-reco, que preenche os espaços com sua fricção contínua.

    “Presta atenção”, disse Mestre Risadinha, batendo o gunga três vezes no chão. Os alunos silenciaram. “Isso não é barulho. Isso é código.”

    Os Toques Que Falam

    Cada toque de berimbau tem um significado. Não é só ritmo — é linguagem. Os principais toques da capoeira são:

    • São Bento Grande — o toque mais famoso. Rápido, vibrante, é o toque do jogo aberto, dos golpes altos e das acrobacias. Na Capoeira Regional de Mestre Bimba, é o toque principal.
    • Angola — lento, hipnótico, quase meditativo. É o toque da Capoeira Angola, do jogo rasteiro, da malícia, da mandinga. “Quando o gunga toca Angola”, explicou o mestre, “o jogo vira conversa. Não tem pressa.”
    • São Bento Pequeno — um meio-termo. Nem tão lento quanto Angola, nem tão rápido quanto São Bento Grande. Usado para jogos de destreza técnica.
    • Benguela — toque em compasso quebrado, que convida ao jogo de corpo próximo, quase um abraço disfarçado de luta.
    • Iúna — o toque dos formados. Tradicionalmente, só mestres e alunos graduados podem jogar sob o toque de Iúna. É elegante, cerimonial, e não admite jogo bruto.
    • Cavalaria — este aqui é história pura. No tempo em que a capoeira era proibida, o toque de Cavalaria imitava o galope dos cavalos da polícia. Quando o berimbau tocava Cavalaria, era sinal de fuga — a cavalaria estava chegando e a roda precisava se dispersar.

    “O toque de Cavalaria salvou vidas”, disse Mestre Risadinha, a voz séria. “A música era sistema de alarme. A música era resistência.”

    O Canto Que Narra a História

    Mas o berimbau não trabalha sozinho. Ele dialoga com a voz do cantador — o griot da capoeira. O cantador não é só músico: é historiador, conselheiro, provocador e, às vezes, árbitro.

    “É o cantador que controla o jogo”, explicou o mestre. “Se os dois lá dentro estão muito agressivos, ele puxa um corrido de paz. Se estão muito parados, ele acelera o ritmo com um refrão mais rápido. Se alguém cai, ele narra a queda na hora, improvisando um verso que transforma o tombo em piada ou lição.”

    Na próxima aula: as três partes da música de capoeira — ladainha, chula e corrido — e por que cada uma tem um papel diferente na roda.

  • Elas Sempre Estiveram na Roda — Mulheres na Capoeira

    Elas Sempre Estiveram na Roda — Mulheres na Capoeira

    “Qual foi a primeira mulher capoeirista que você ouviu falar?”

    Elas Sempre Estiveram na Roda — Mulheres na Capoeira
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0 (bk. ninja)

    Mestre Risadinha fez a pergunta e esperou. Alguns alunos citaram nomes de mestras contemporâneas. Outros não souberam responder.

    “Se você não sabe”, ele disse, “não é culpa sua. é porque a história oficial tentou esconder.”

    Ele se ajeitou na beira da roda. “Mas elas sempre estiveram aqui. Sempre.”

    As Primeiras — O Que a História Quase Não Conta

    Dizem que a capoeira era “coisa de homem”. Essa à uma das maiores mentiras que a história oficial contou. Mulheres estavam na capoeira desde o começo — nas senzalas, nos quilombos, nos terreiros. Simplesmente ninguém escreveu sobre elas.

    A mais antiga referência escrita a uma mulher capoeirista data de 1857, num relatório policial do Rio de Janeiro, que menciona uma “negra de nome Luiza” presa por praticar capoeiragem.

    “Está vendo?”, apontou Mestre Risadinha. “A primeira capoeirista que a gente conhece pelo nome — a gente conhece porque foi presa. E quantas outras não foram registradas em lugar nenhum?”

    Maria Doze Homem — A Lenda do Rio Grande do Norte

    No Nordeste, a tradição oral preservou o nome de Maria Doze Homem — uma figura que, segundo os relatos, valia por doze. Era capoeirista, brigava de faca e não aceitava desaforo de ninguém.

    Maria teria vivido no Rio Grande do Norte no final do século XIX. Sua fama era tanta que os homens mais valentes da região evitavam cruzar seu caminho.

    “Ninguém sabe se Maria Doze Homem existiu de verdade ou se à uma lenda”, admitiu o mestre. “Mas o simples fato de existir uma lenda sobre uma mulher tão forte, num tempo em que mulher não podia nem votar, já diz muito.”

    Mestra Janja e o Grupo Nzinga

    Se tem um nome que mudou a história das mulheres na capoeira, é Rosângela Costa Araújo — a Mestra Janja.

    Baiana, doutora em Educação pela USP, Janja fundou em 1995 o Grupo Nzinga de Capoeira Angola — batizado com o nome da rainha guerreira africana Nzinga Mbandi, que resistiu é colonização portuguesa em Angola no século XVII.

    “Janja fez algo revolucionário”, explicou Mestre Risadinha. “Ela mostrou que as mulheres não precisavam imitar os homens na roda. Elas podiam jogar do jeito delas — com a força que é só delas.”

    O Nzinga não é só um grupo de capoeira. é um centro de pesquisa, uma escola de formação, um espaço de resistência política. Janja escreveu livros, deu palestras no mundo inteiro, formou mestras que hoje lideram seus próprios grupos.

    “Mestra Janja à a prova viva de que a capoeira não é território masculino”, disse o mestre. “Nunca foi.”

    Outras Mestras Que Fizeram História

    • Mestra Suelly — fundadora do Grupo Beribazu, pioneira em Brasília, uma das primeiras mulheres a liderar um grupo de capoeira.
    • Mestra Edileusa — do Grupo Muzenza, formada diretamente por Mestre Bimba, mostrou que a Capoeira Regional também tinha espaço para as mulheres.
    • Mestra Paulinha — uma das fundadoras da ABADá-Capoeira ao lado de Mestre Camisa, fundamental na expansão internacional do grupo.
    • Mestra Gegê — do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhá, referência da capoeira angola em São Paulo.

    “E esta lista”, completou Mestre Risadinha, “é só a ponta do iceberg. Tem mestra na Alemanha, na França, nos Estados Unidos, no Japão. A capoeira feminina é global.”

    A Luta Continua

    Apesar de todo o avanço, as mulheres ainda enfrentam obstáculos na capoeira. Em muitos grupos, o número de mulheres que chegam ao título de mestra ainda é muito menor que o de homens. Há relatos de machismo em rodas, de mulheres sendo subestimadas, de alunas sendo desencorajadas.

    “A gente avançou muito”, reconheceu Mestre Risadinha. “Mas ainda tem chão.”

    Ele olhou para as alunas na roda — meninas de 10, 12, 15 anos, de cabelo preso e joelho ralado, olhos brilhando.

    “Mas olhando pra vocês, eu tenho certeza de uma coisa: o futuro da capoeira tem nome de mulher.”