Entre os movimentos aéreos da capoeira, o parafuso é um dos mais impressionantes. Trata-se de um giro acrobático no qual o corpo descreve uma rotação no ar, como uma hélice, exigindo explosão muscular, técnica refinada e controle absoluto. Quem executa um parafuso limpo em plena roda demonstra domínio corporal de alto nível, digno de respeito imediato.
O que é o parafuso
O parafuso é um movimento acrobático em que o capoeirista salta e gira o corpo horizontalmente no ar, com as pernas estendidas, antes de aterrissar. O nome remete à imagem de um parafuso girando: o corpo perfura o ar em rotação contínua, num movimento que combina força e estética.
Existem variações do parafuso, algumas executadas com as mãos no chão e outras totalmente aéreas. Na forma mais avançada, o giro é completo, e o capoeirista aterrissa na mesma posição em que iniciou, pronto para continuar o jogo. É um movimento de espetáculo, que costuma reservar os melhores momentos da roda.
Variações e parentes do movimento
O parafuso faz parte de uma família de giros que inclui a folia seca, o aú sem mão e o beija-flor. O que distingue o parafuso é a rotação horizontal do corpo, com as pernas estendidas desenhando um círculo no ar. Em algumas versões, o movimento começa com o apoio de uma das mãos; em outras, é totalmente aéreo, o que exige ainda mais potência.
Conhecer essa família de movimentos ajuda o praticante a entender a progressão acrobática da capoeira. Cada giro desenvolve uma habilidade específica — impulso, rotação, aterrissagem — e o domínio de um facilita o aprendizado do outro. O parafuso, no topo dessa cadeia, reúne tudo o que os demais ensinam.
Diferença entre o parafuso e outros giros
Embora parecidos à primeira vista, o parafuso, a folia seca e o aú sem mão têm mecânicas distintas. A folia seca é uma rotação mais vertical, próxima ao salto mortal; o aú sem mão é um giro lateral em que o corpo passa de lado. O parafuso, por sua vez, combina a rotação com as pernas abertas e estendidas, criando o desenho de hélice que lhe dá o nome.
Entender essas diferenças evita confusões no aprendizado e ajuda o capoeirista a escolher a progressão certa. Cada movimento prepara o corpo para o próximo, e o parafuso representa, em geral, o estágio mais avançado dessa jornada acrobática, exigindo o domínio prévio das rotações mais simples.
Explosão e rotação
A base do parafuso está na explosão inicial. O capoeirista parte de uma posição agachada ou da ginga, impulsiona o corpo para cima e inicia a rotação com o tronco e os braços. As pernas, estendidas, desenham um círculo no ar, gerando o giro característico.
O segredo está na transferência de energia: o impulso das pernas se soma à rotação do tronco, e o corpo gira em bloco, com os músculos do abdômen e das costas mantendo a postura firme. Qualquer desalinhamento compromete o giro, por isso a precisão técnica é fundamental.
Controle e aterrissagem
Executar o giro é apenas metade do desafio. A aterrissagem exige tanto controle quanto a decolagem. O capoeirista precisa abrir o corpo no momento certo para reduzir a rotação e aterrissar com as pernas flexionadas, absorvendo o impacto sem perder o equilíbrio.
A aterrissagem perfeita permite que o movimento se conecte naturalmente ao jogo, sem pausas. Um parafuso bem executado termina com o capoeirista já em ginga, pronto para o próximo movimento, numa continuidade que é a marca dos grandes acrobatas.
Progressão e segurança
O parafuso é um movimento avançado, que exige uma longa preparação. A progressão passa por movimentos como o aú, o aú sem mão e a folia seca, que desenvolvem a rotação aérea e a confiança necessárias. O fortalecimento das pernas e do core também é indispensável.
Como toda acrobacia, o parafuso deve ser treinado com segurança, em superfície adequada e sob orientação de um professor. A disciplina e a paciência são aliadas: cada etapa vencida aproxima o praticante do movimento completo, com a segurança de quem construiu uma base sólida.
Quando o parafuso cruza o ar em uma roda, o tempo parece parar. É a capoeira em seu momento mais espetacular, a prova viva de que o corpo humano, bem treinado, é capaz de verdadeiros milagres de movimento.
Na capoeira contemporânea, o parafuso ganhou destaque como um dos movimentos-símbolo da vertente acrobática. Em rodas de exibição, competições e espetáculos, ele aparece com frequência, encarnando o lado mais espetacular da arte e atraindo novos praticantes fascinados pela possibilidade de voar.
É preciso lembrar, porém, que o parafuso não resume a capoeira. Ele é uma expressão do alto nível técnico, mas o coração da arte continua sendo o jogo, a música e a malícia. O parafuso encanta justamente porque existe dentro de um universo muito maior, feito de tradição e de encontro.
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