Poucas histórias da capoeira angola atravessaram tantas fronteiras quanto a de Mestre João Grande. Nascido João Oliveira dos Santos, ele se tornou um dos discípulos mais fiéis de Mestre Pastinha e um dos principais responsáveis por levar a capoeira angola para fora do Brasil, fincando raízes profundas em Nova York, onde ensinou por mais de três décadas.
Origens na Bahia
João Grande nasceu em Itagi, no interior da Bahia, em 1933. Ainda menino, foi para Salvador em busca de trabalho e melhores condições de vida. Foi na capital baiana que ele encontrou a capoeira, aproximando-se da academia de Mestre Pastinha no Pelourinho, o Centro Esportivo de Capoeira Angola, que na época era o grande reduto da linhagem angola.
Antes de se dedicar inteiramente à capoeira, João Grande trabalhou em atividades pesadas, como o carregamento de cargas no porto e na feira, uma rotina comum entre os homens negros e pobres de Salvador. Esse cotidiano duro forjou nele a força física e a disciplina que mais tarde se tornariam marcas do seu jogo e do seu ensinamento.
Na roda de Pastinha, João Grande aprendeu a essência do jogo de angola: a malícia, o jogo baixo, o respeito ao berimbau e a filosofia de que a capoeira é muito mais do que luta. A tradição conta que foi o próprio Pastinha quem o batizou como João Grande, em referência à sua estatura imponente e à presença marcante na roda.
Disciplina e devoção ao mestre
O aprendizado com Pastinha exigia disciplina e paciência. João Grande passou anos absorvendo não apenas os movimentos, mas também os fundamentos morais que o mestre pregava. Para Pastinha, a capoeira angola era uma arte de defesa pessoal e de expressão cultural, e seus alunos deveriam honrar essa tradição com seriedade.
Relatos apontam que João Grande se destacava pelo jogo limpo, pela técnica apurada e pela capacidade de ensinar com a mesma generosidade com que aprendia. Essa dedicação o tornaria, anos depois, um dos herdeiros naturais da linhagem de Pastinha.
A dupla com João Pequeno
Na academia do Pelourinho, João Grande formou com João Pequeno uma dupla que se tornaria lendária na história da capoeira angola. Os dois “Joões” eram os braços direitos de Pastinha: enquanto o mestre guardava a filosofia e a estrutura da academia, eles conduziam as aulas, organizavam as rodas e transmitiam o conhecimento aos mais jovens.
Ao lado de João Pequeno, João Grande ajudou a manter viva a chama da capoeira angola num período em que a arte enfrentava forte concorrência da capoeira regional e o preconceito da sociedade. A parceria entre os dois, marcada por respeito mútuo e amizade, garantiu a continuidade da tradição do Centro Esportivo de Capoeira Angola.
A ida para os Estados Unidos
No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a capoeira vivia um momento de expansão internacional. João Grande foi convidado a apresentar a capoeira angola nos Estados Unidos, onde o interesse pela arte brasileira crescia rapidamente. Ele se estabeleceu em Nova York e fundou a Capoeira Angola Center of Mestre João Grande, que se tornaria referência mundial.
Na cidade americana, João Grande ensinou gerações de alunos de diferentes nacionalidades, sempre mantendo a estrutura tradicional da roda, os fundamentos do jogo de angola e o respeito à música. Sua academia se tornou ponto de encontro de capoeiristas do mundo inteiro que buscavam a fonte original do jogo.
O método de ensinar
O que distinguia João Grande como professor era a paciência e a atenção aos detalhes. Ele ensinava devagar, repetindo os movimentos até que fossem compreendidos de corpo inteiro, e valorizava tanto a execução quanto a intenção por trás de cada gesto. Para ele, não bastava reproduzir a forma: era preciso entender o porquê de cada movimento.
A música também ocupava lugar central em suas aulas. João Grande ensinava os toques de berimbau, as cantigas e o ritmo como partes inseparáveis da capoeira, convencido de que um capoeirista completo precisa dominar tanto o corpo quanto o som. Essa visão integral formou discípulos que hoje perpetuam seu método em vários países.
Reconhecimento internacional
O trabalho de João Grande recebeu reconhecimentos importantes. Em 2001, ele foi agraciado com a National Heritage Fellowship, a mais alta honraria concedida pelo governo dos Estados Unidos às artes tradicionais. Anos depois, recebeu títulos de doutor honoris causa por universidades americanas, em reconhecimento à sua contribuição cultural.
Mesmo com todas as honrarias, João Grande manteve a simplicidade que aprendeu com Pastinha. Continuou ensinando, cantando e jogando capoeira com a mesma dedicação dos tempos do Pelourinho, provando que a essência da capoeira angola não se perde ao atravessar oceanos.
Um legado que permanece
Mestre João Grande faleceu em 2021, deixando um legado que se espalha por dezenas de países. Sua história é um testemunho da força da capoeira angola como patrimônio vivo: uma arte que nasceu da resistência e que, pelas mãos de mestres como ele, conquistou o mundo sem abrir mão de suas raízes.
Quem entra em uma roda de angola hoje, em qualquer lugar do planeta, sente a presença da linhagem de Pastinha e de João Grande. É a prova de que a capoeira é, antes de tudo, memória, respeito e continuidade.
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