Júpiter e Saturno: Os Gigantes Que Protegem a Terra

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Se os planetas rochosos são os protagonistas da história do Sistema Solar, Júpiter e Saturno são os guardiões silenciosos. Sem eles, a vida na Terra poderia nunca ter surgido — ou ter sido interrompida violentamente por impactos de asteroides. Mas estes gigantes não são apenas protetores: suas luas abrigam oceanos subterrâneos que podem conter vida.

Júpiter e Saturno: Os Gigantes Que Protegem a Terra
Wikimedia Commons — Public domain, autor NASA/JPL/Space Science Institute

Júpiter: O Rei dos Planetas

Júpiter não é grande. Júpiter é absurdamente grande. Sua massa é 2,5 vezes a de todos os outros planetas combinados. A Grande Mancha Vermelha — uma tempestade anticiclônica que já dura pelo menos 350 anos — é maior que a Terra inteira. Seus ventos ultrapassam 640 km/h, e a pressão no centro do planeta é 50 milhões de vezes a pressão atmosférica terrestre — alta o suficiente para criar hidrogênio metálico líquido, um estado da matéria que não existe naturalmente na Terra.

O campo magnético de Júpiter é 20.000 vezes mais intenso que o terrestre, gerando auroras permanentes nos polos e cinturões de radiação que destruiriam qualquer nave não blindada em minutos. 79 luas confirmadas orbitam o gigante, das quais quatro — Io, Europa, Ganimedes e Calisto — são mundos completos com geologia própria.

Fonte: Bolton, S. J. et al. (2017). “Jupiter’s interior and deep atmosphere: The initial pole-to-pole passes with the Juno spacecraft.” Science, 356(6340), 821–825.

O Escudo Gravitacional

Júpiter atua como um aspirador cósmico. Sua imensa gravidade atrai ou desvia cometas e asteroides que poderiam cruzar a órbita da Terra. Em 1994, o cometa Shoemaker-Levy 9 foi capturado pela gravidade jupiteriana e se fragmentou em 21 pedaços, que colidiram com o planeta numa sequência de impactos que deixaram cicatrizes visíveis por meses. Se Júpiter não estivesse ali, a Terra sofreria impactos catastróficos com frequência mil vezes maior, segundo modelos de simulação orbital.

Algumas teorias, no entanto, sugerem que Júpiter também pode ser um perturbador — desviando asteroides para dentro do Sistema Solar interior, incluindo aquele que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos. A relação é complexa: Júpiter protege em média, mas às vezes atrapalha.

Fonte: Horner, J. & Jones, B. W. (2008). “Jupiter: friend or foe? I: The asteroids.” International Journal of Astrobiology, 7(3-4), 251–261.

Saturno: Os Anéis Estão Desaparecendo

Os anéis de Saturno são o espetáculo visual mais deslumbrante do Sistema Solar — e estão condenados. Compostos de bilhões de partículas de gelo e rocha, do tamanho de grãos de areia a montanhas, os anéis são jovens em termos cósmicos: entre 100 e 400 milhões de anos. Os dinossauros nunca os viram.

Estão desaparecendo a uma taxa alarmante. Dados da sonda Cassini revelaram que até 10 toneladas de material dos anéis caem em Saturno a cada segundo. Esse fenômeno, chamado de “chuva dos anéis” (ring rain), significa que, em 100 a 300 milhões de anos, os anéis terão desaparecido completamente. Estamos vivendo no momento certo para testemunhá-los.

Saturno tem 146 luas confirmadas, o maior número do Sistema Solar. Titã, a maior, é o único lugar além da Terra com líquidos estáveis na superfície — lagos, rios e mares de metano e etano líquidos, com um ciclo hidrológico completo, só que à base de hidrocarbonetos.

Fonte: O’Donoghue, J. et al. (2019). “Observations of the chemical and thermal response of ‘ring rain’ on Saturn’s ionosphere.” Icarus, 322, 251–260.

As Luas Que Podem Abrigar Vida

Europa, lua de Júpiter, é a candidata número um para vida extraterrestre no Sistema Solar. Sob uma crosta de gelo de 15 a 25 quilômetros de espessura, existe um oceano global de água líquida com o dobro do volume de todos os oceanos da Terra combinados. Aquecedores de maré — o cabo de guerra gravitacional entre Júpiter e as outras luas — mantêm esse oceano líquido apesar das temperaturas de -160°C na superfície. A missão Europa Clipper, programada para chegar em 2030, fará dezenas de sobrevoos estudando a composição deste oceano.

Encélado, lua de Saturno, não precisa de especulação: a Cassini voou através de gêiseres de água jorrando do polo sul e detectou hidrogênio molecular, metano, sais e compostos orgânicos complexos. Todos os ingredientes para a vida como conhecemos estão ali, expelidos diretamente para o espaço. Encélado é tão promissor que muitos astrobiólogos o consideram um alvo mais provável que Europa.

Titã tem uma atmosfera mais densa que a da Terra, lagos de metano líquido, dunas de hidrocarbonetos no equador e — talvez — um oceano subterrâneo de água salgada. A missão Dragonfly (NASA), com lançamento previsto para 2027, enviará um drone octóptero que voará pela atmosfera densa de Titã, pulando de local em local para analisar a química da superfície.

Fonte: Waite, J. H. et al. (2017). “Cassini finds molecular hydrogen in the Enceladus plume: Evidence for hydrothermal processes.” Science, 356(6334), 155–159. Lorenz, R. D. et al. (2018). “Dragonfly: A Rotorcraft Lander Concept for Scientific Exploration at Titan.” Johns Hopkins APL Technical Digest, 34(3), 374–387.

Juno: O Que Já Aprendemos

A sonda Juno, orbitando Júpiter desde 2016, revelou um planeta muito mais estranho do que imaginávamos. Os polos de Júpiter são cobertos por ciclones do tamanho da Terra, organizados em padrões geométricos misteriosos. Seu campo magnético é mais complexo e irregular do que os modelos previam. E seu interior não tem um núcleo bem definido — os elementos pesados estão diluídos por toda a metade central do planeta, desafiando as teorias de formação planetária.

Fonte: Adriani, A. et al. (2018). “Clusters of cyclones encircling Jupiter’s poles.” Nature, 555(7695), 216–219.

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