Uma manhã de janeiro que entrou para o folclore
20 de janeiro de 1996. Sábado de manhã. Três meninas — Liliane Fátima Silva (16 anos), Valquíria Fátima Silva (14) e Kátia Andrade Xavier (22) — voltavam para casa pelo Jardim Andere, um bairro de classe média em Varginha, sul de Minas Gerais. Era um caminho que faziam todos os dias. Mas naquela manhã, num terreno baldio com mato alto na Rua Suécia, elas viram algo que mudaria suas vidas — e colocaria Varginha no mapa mundial da ufologia.
Agachada junto a um muro de uma oficina mecânica abandonada, uma criatura as observava. Pele moreno-escura, textura oleosa e rugosa, como couro. Cabeça desproporcional ao corpo — três protuberâncias no alto da cabeça. Olhos grandes e vermelhos, sem pupilas, profundamente encaixados. Nariz e boca pequenos, quase vestigiais. Braços longos e finos, com três dedos compridos. Pernas curtas. Com aproximadamente 1,60 metro de altura.
As meninas correram. Chegaram em casa gritando, apavoradas. A mãe, Luíza Fátima Silva, viu o estado das filhas e relatou à vizinhança. Minutos depois, o marido voltou ao terreno baldio com vizinhos. A criatura não estava mais lá. Mas havia marcas no chão — manchas oleosas, odor forte, pegadas estranhas.
O que aconteceu nos dias seguintes transformaria o “ET de Varginha” em lenda nacional. Mas entre os fatos documentados e o folclore acumulado, há uma distância considerável que vale a pena percorrer.
A cronologia documentada: 20 a 23 de janeiro
No mesmo dia 20, à tarde, o Corpo de Bombeiros de Varginha recebeu uma chamada anônima relatando um “animal estranho” no Jardim Andere. Uma viatura com quatro bombeiros foi enviada. Segundo relatos posteriores dos próprios bombeiros, eles encontraram e capturaram manualmente a criatura — usando luvas e uma rede improvisada — e a entregaram ao comando do 24º Batalhão de Polícia Militar. A criatura teria sido colocada numa caixa de madeira e transportada para o quartel da PM. A partir daí, as versões divergem radicalmente.
No domingo, 21 de janeiro, a criatura teria sido transferida para o Hospital Regional de Varginha. Existem relatos — contestados, mas persistentes — de que médicos e enfermeiros foram convocados para uma emergência não especificada, e que alas do hospital foram isoladas. O hospital sempre negou oficialmente.
No mesmo dia, a Polícia Militar Rodoviária e o Exército Brasileiro (por meio da Escola de Sargentos das Armas — ESA, de Três Corações, a 40 km de Varginha) teriam sido mobilizados. Relatos indicam que um comboio militar transportou algo de Varginha para a ESA durante a madrugada de segunda-feira, 22 de janeiro.
Na terça-feira, 23 de janeiro, uma das histórias mais bizarras veio à tona. Funcionários do Zoológico de Varginha teriam visto uma criatura similar sendo avistada nas proximidades. Segundo essa versão — nunca confirmada oficialmente —, militares cercaram a área e capturaram um segundo ser. O Exército sempre negou qualquer envolvimento.
O que as testemunhas originais mantêm até hoje
Um aspecto notável do caso Varginha é a consistência dos depoimentos originais ao longo de quase três décadas. As três mulheres que viram a criatura na Rua Suécia nunca retrataram seus relatos. Nunca aceitaram dinheiro para entrevistas sensacionalistas — embora tenham sido procuradas por veículos do mundo inteiro. Em 2017, 21 anos depois do incidente, Liliane e Valquíria concederam uma entrevista à série documental “O Caso ET de Varginha”, reafirmando cada detalhe com a mesma clareza de 1996.
Os bombeiros envolvidos na captura também mantiveram silêncio por anos, mas eventualmente alguns falaram. O soldado Marco Eli Chereze teria sido um dos que manusearam a criatura. Ele faleceu em 1996, poucos meses após o incidente, vítima de uma infecção generalizada — o que alimentou teorias sobre contaminação biológica. A causa oficial foi septicemia decorrente de uma infecção bacteriana comum, agravada por uma condição de saúde preexistente.
O policial militar Marco Aurélio dos Santos afirmou em entrevista ter visto a criatura dentro do quartel da PM. O sargento Lúcio Ferreira deu declarações a ufólogos sobre ter participado do transporte. Nenhum desses depoimentos foi provado ou refutado conclusivamente. Todos são de fontes primárias — pessoas que alegam participação direta, não testemunhas de segunda mão.
O que o folclore acrescentou (e que não tem evidência)
Três décadas de reverberação midiática acrescentaram camadas à história que não encontram sustentação em depoimentos originais. A mais comum: a de que o Exército brasileiro matou um dos seres com tiros de fuzil. Nenhuma testemunha direta confirma isso. Outra: que uma “médica legista” realizou autópsia na criatura. O nome dessa médica nunca foi confirmado — a fonte é um relato indireto de terceira mão. A história de que um “policial morreu” ao tocar na criatura também não tem confirmação: o único militar falecido no período, Marco Eli Chereze, não morreu por causa diretamente ligada à captura, segundo a causa oficial.
Há também o “vídeo da criatura no hospital” que circulou anos depois — uma simulação em stop-motion produzida por um documentário, que muitos internautas tomaram como real. E a “foto do ET” que, analisada, revelou-se uma estatueta de gesso.
Nada disso invalida os depoimentos originais. Mas é fundamental separar o que as testemunhas diretas contam do que foi acrescentado por terceiros ao longo dos anos. Se existe um caso real em Varginha, ele provavelmente é menor em escopo — e mais perturbador — do que a superprodução folclórica que o envolve.
O vácuo institucional
O Exército Brasileiro, a Polícia Militar de Minas Gerais e o Hospital Regional de Varginha mantêm, até hoje, a posição oficial: nada aconteceu. Nenhuma criatura foi capturada. Nenhum comboio foi organizado. Nenhuma ala foi isolada. A explicação alternativa mais difundida pelas autoridades locais é que as meninas viram um morador de rua com problemas mentais agachado no terreno baldio — alguém sujo, com a pele escurecida pela fuligem e pelo abandono, que parecia “diferente” aos olhos assustados de três adolescentes.
Essa explicação resolve parte do problema — o avistamento das meninas — mas não resolve o resto. Se era um morador de rua, por que a PM e os bombeiros foram mobilizados? Por que um comboio militar teria viajado até Três Corações naquela madrugada? Se foi uma operação militar comum, por que até hoje os arquivos não foram abertos?
A ufóloga e jornalista Claudeir Covo (já falecida), que cobriu o caso para a Revista UFO, resumiu bem: “Se nada aconteceu em Varginha, por que o Exército, a PM e o Corpo de Bombeiros mentem — ou pelo menos omitem — sobre seus movimentos naqueles dias?” O caso Varginha resiste porque, ao contrário da maioria dos avistamentos, envolveu múltiplas instituições do Estado cujos registros de movimentação poderiam ser verificados — mas nunca foram divulgados.
Fontes
- Depoimentos originais de Liliane Fátima Silva, Valquíria Fátima Silva e Kátia Andrade Xavier — registrados por ufólogos em 1996 e reafirmados em documentários posteriores
- Revista UFO — edições especiais de 1996 e cobertura continuada do caso
- Pacaccini, Ubirajara — investigação jornalística original do caso Varginha (1996)
- Documentário “O Caso ET de Varginha” (2017) — entrevistas com as testemunhas originais 21 anos depois
- Jornal Estado de Minas — cobertura jornalística de janeiro de 1996
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