Vigiada, Proibida, Caçada — Quando a Capoeira Era Crime no Brasil

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

“Sabe o que acontecia com um capoeirista no Rio de Janeiro em 1900?”

Mestre Risadinha fez uma pausa dramática. A roda ficou em silêncio.

“Prisão. De dois a seis meses. E se fosse reincidente — mandavam pra Fernando de Noronha.”

Os alunos se entreolharam. Fernando de Noronha? O paraíso?

“Naquela época não era resort, não”, riu o mestre. “Era prisão de segurança máxima no meio do oceano.”

O Código Penal de 1890

Pouca gente sabe, mas a capoeira foi proibida por lei no Brasil. O Código Penal de 1890 — o primeiro da República — trazia dois artigos específicos contra ela:

Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem: andar em correrias, com armas ou não, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.

Pena: prisão celular de dois a seis meses.

Repare bem: o crime não era roubar ou agredir. Era fazer exercícios de agilidade e destreza corporal. Ou seja — era crime simplesmente ser capoeirista.

E não parava aí. O artigo 403 era ainda mais cruel:

Art. 403. Se o capoeira for reincidente, será recolhido por um a três anos a colônias penais em ilhas — ou para o Presídio de Fernando de Noronha.

“Três anos de prisão”, repetiu Mestre Risadinha, “porque você gingava na rua.”

Por Que o Governo Tinha Tanto Medo da Capoeira?

A história começa antes, ainda no Império. No século XIX, as cidades brasileiras — especialmente Rio de Janeiro, Salvador e Recife — eram o território das maltas de capoeira. Eram grupos organizados, com nomes, territórios e até uniformes — lenços coloridos amarrados no pescoço ou no braço.

As duas maltas mais famosas do Rio eram os Nagoas e os Guaiamus. Os Nagoas se identificavam com o vermelho. Os Guaiamus, com o branco. E a rivalidade entre eles era tão violenta que a cidade inteira conhecia seus nomes.

“Imagina duas torcidas organizadas”, comparou o mestre, “mas em vez de futebol, era capoeira. E em vez de cânticos, era navalha.”

As maltas controlavam regiões inteiras da cidade. Faziam serviços de segurança para políticos, apitavam em eleições, protegiam comércios — e também roubavam, brigavam e aterrorizavam. Eram o poder paralelo mais organizado do Brasil do século XIX.

Quando a República foi proclamada em 1889, o novo governo queria “limpar” as ruas. A capoeira era o símbolo perfeito de tudo que eles queriam eliminar: negra, pobre, violenta, incontrolável.

O Grande Medo da Elite Branca

Havia um medo genuíno na elite brasileira. A abolição da escravatura tinha acontecido fazia só dois anos (1888). De repente, centenas de milhares de negros livres estavam nas ruas — e muitos deles sabiam lutar. Muito bem.

A capoeira era a única forma de defesa que a população negra tinha num país que ainda tratava ex-escravizados como cidadãos de segunda classe. Um capoeirista habilidoso podia enfrentar dois, três policiais armados — e sair correndo.

“A elite não via arte, não via cultura”, resumiu Mestre Risadinha. “Via perigo. Via um exército invisível que a qualquer momento podia se voltar contra ela.”

O resultado foi um dos capítulos mais violentos da história da capoeira: a perseguição sistemática.

O Delegado Sampaio Ferraz — O Caçador de Capoeiristas

Se existe um vilão nessa história, o nome dele é Sampaio Ferraz. Nomeado chefe de polícia do Rio de Janeiro em 1890, ele declarou guerra à capoeiragem. Sua tática era brutal e eficiente: deportação em massa.

Só no primeiro ano de sua gestão, centenas de capoeiristas foram presos e enviados para Fernando de Noronha. Muitos nunca voltaram.

Mas a resistência nunca morreu de verdade. Nos morros, nos subúrbios, nos terreiros, a capoeira continuou sendo praticada — em segredo, na calada da noite, ao som de berimbaus tocados baixinho para não chamar atenção.

“A capoeira sobreviveu porque nunca parou de ser passada de mestre pra aluno”, disse Mestre Risadinha, a voz mais séria agora. “Enquanto houvesse uma pessoa que soubesse uma cantiga e outra que quisesse aprender, a roda continuava girando.”

Na próxima aula: o homem que pegou a capoeira — ainda proibida e perseguida — e convenceu o presidente do Brasil de que ela era um tesouro nacional.