Quando você aprendeu os planetas na escola, decorou nove nomes. Mas em 24 de agosto de 2006, tudo mudou. A União Astronômica Internacional (IAU) votou por redefinir o que significa ser um planeta — e Plutão, o nono planeta desde sua descoberta em 1930, foi rebaixado a planeta anão. O que parecia uma simples questão de nomenclatura provocou indignação pública, debates acadêmicos acalorados e, para muitos, a sensação de que algo foi tirado deles.
Mas a história do Sistema Solar exterior é muito mais fascinante do que a polêmica do rebaixamento. Ela envolve mundos que se formaram nas bordas do sistema, um planeta gigante que ninguém viu e a fronteira final da influência do Sol.
O Dia em Que Plutão Caiu
O problema não era Plutão — era Éris. Descoberto em 2005 por Mike Brown e sua equipe, Éris parecia ser maior que Plutão. Se Plutão era planeta, Éris também deveria ser — e dezenas de outros objetos do Cinturão de Kuiper também se qualificariam. A IAU precisava de um critério, e em 2006 estabeleceu três:
- Orbitar o Sol (Plutão: ok)
- Ter forma esférica por autogravidade (Plutão: ok)
- Ter limpado sua vizinhança orbital (Plutão: reprovado)
O terceiro critério foi o golpe fatal. Plutão compartilha sua região orbital com milhares de outros objetos do Cinturão de Kuiper — ele não domina gravitacionalmente sua vizinhança. Nasceu a categoria “planeta anão”, e Plutão tornou-se seu membro mais famoso, ao lado de Éris, Makemake, Haumea e Ceres.
A controvérsia nunca terminou de verdade. Alan Stern, líder da missão New Horizons, continua defendendo que Plutão é um planeta — e que a definição da IAU é falha. Em 2017, uma proposta alternativa definiu planeta como “qualquer corpo subestelar que nunca passou por fusão nuclear e tem autogravidade suficiente para assumir forma esferoidal”. Por essa definição, teríamos mais de 100 planetas no Sistema Solar.
Fonte: IAU Resolution B5 (2006). “Definition of a Planet in the Solar System.” IAU General Assembly. Stern, S. A. & Levison, H. F. (2002). “Regarding the criteria for planethood and proposed planetary classification schemes.” Highlights of Astronomy, 12, 205–213.
New Horizons: Plutão É Vivo
Em julho de 2015, a sonda New Horizons chegou a Plutão após uma jornada de 9,5 anos. O que encontrou derrubou todas as expectativas. Esperava-se um mundo frio, morto e cheio de crateras. Em vez disso: Plutão é geologicamente ativo.
A característica mais icônica é a Sputnik Planitia — uma planície de gelo de nitrogênio em forma de coração que cobre milhares de quilômetros quadrados. Sua superfície não tem crateras de impacto, o que significa que é geologicamente jovem: menos de 10 milhões de anos, um piscar de olhos em termos geológicos. O gelo flui como geleiras terrestres, renovando constantemente a superfície por convecção. Há montanhas de gelo de água com quilômetros de altura, geleiras de nitrogênio fluindo entre picos, e uma névoa atmosférica com múltiplas camadas de hidrocarbonetos.
Tudo isso a partir de um objeto a 5,9 bilhões de quilômetros do Sol, onde a temperatura média é de -230°C. Até os mortos dançam no Sistema Solar exterior.
Fonte: Stern, S. A. et al. (2015). “The Pluto system: Initial results from its exploration by New Horizons.” Science, 350(6258). Moore, J. M. et al. (2016). “The geology of Pluto and Charon through the eyes of New Horizons.” Science, 351(6279), 1284–1293.
O Cinturão de Kuiper: O Anel de Gelo
Além de Netuno, entre 30 e 50 UA do Sol, existe um disco de corpos gelados: o Cinturão de Kuiper. Estima-se que contenha centenas de milhares de objetos com mais de 100 km de diâmetro e trilhões de cometas de curto período.
Após Plutão, a New Horizons continuou voando e, em janeiro de 2019, fez história novamente: sobrevoou Arrokoth (então chamado Ultima Thule), o objeto mais distante já visitado por uma espaçonave. Arrokoth é um binário de contato — dois lobos que se tocaram suavemente e ficaram colados, como um boneco de neve cósmico. Com 36 km de comprimento, é uma cápsula do tempo da formação do Sistema Solar: sua superfície não mostra sinais de aquecimento ou colisões violentas desde que se formou, há 4,5 bilhões de anos.
Enquanto isso, Makemake e Haumea orbitam no Cinturão de Kuiper com características próprias: Haumea tem a forma alongada de uma bola de rugby e um sistema de anéis — algo inesperado para um planeta anão. Makemake, descoberto em 2005, tem uma superfície coberta de metano e etano congelados, com tonalidade avermelhada similar à de Plutão.
Fonte: Stern, S. A. et al. (2019). “Initial results from the New Horizons exploration of 2014 MU69, a small Kuiper Belt object.” Science, 364(6441).
A Nuvem de Oort: A Fronteira Final
Se o Cinturão de Kuiper é o subúrbio do Sistema Solar, a Nuvem de Oort é o exterior profundo. Prevista teoricamente por Jan Oort em 1950, é uma casca esférica de corpos gelados que se estende de 2.000 a 100.000 UA do Sol — até quase dois anos-luz de distância. É de lá que vêm os cometas de longo período, aqueles cujas órbitas levam milhares de anos.
Nunca observamos diretamente a Nuvem de Oort. Sua existência é inferida pela distribuição das órbitas cometárias. Estima-se que contenha trilhões de núcleos cometários com mais de 1 km de diâmetro, restos congelados da formação planetária que foram ejetados para os confins do sistema pela migração dos planetas gigantes.
A fronteira da Nuvem de Oort marca o limite gravitacional do Sol. Além dela, a influência de outras estrelas domina. Nenhuma sonda jamais chegará lá em tempo humano: a Voyager 1, o objeto humano mais distante, levará 300 anos para atingir o início da Nuvem de Oort e 30 mil anos para atravessá-la.
Fonte: Oort, J. H. (1950). “The structure of the cloud of comets surrounding the Solar System and a hypothesis concerning its origin.” Bulletin of the Astronomical Institutes of the Netherlands, 11, 91–110.
Planeta 9: O Fantasma no Escuro
Em 2016, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown (sim, o mesmo que “matou” Plutão) publicaram uma hipótese eletrizante: existe um nono planeta no Sistema Solar. Não Plutão — um mundo com 5 a 10 vezes a massa da Terra, em uma órbita elíptica extrema que o leva de 200 a 1.200 UA do Sol.
A evidência é indireta, mas convincente. Vários objetos transnetunianos extremos — corpos cujas órbitas vão muito além de Netuno — compartilham um alinhamento orbital estranho. Seus periélios apontam aproximadamente na mesma direção, e suas órbitas são inclinadas de forma similar. As chances disso acontecer por acaso são de 0,007%, segundo Batygin e Brown. A explicação mais parcimoniosa: um planeta massivo, ainda não observado, está pastoreando essas órbitas com sua gravidade.
O Planeta 9, se existir, levaria entre 10 mil e 20 mil anos para completar uma órbita. Estaria atualmente no afélio — o ponto mais distante de sua órbita — o que o torna incrivelmente difícil de detectar. A busca está em andamento com telescópios como o Subaru no Havaí, e o Vera C. Rubin Observatory, que começará a operar em breve, poderá encontrar o Planeta 9 em seus primeiros anos de operação — ou descartar sua existência de uma vez por todas.
Se encontrado, não será apenas um novo planeta. Será a prova de que o Sistema Solar ainda guarda segredos na escala de gigantes — e que nosso mapa do quintal cósmico ainda está incompleto.
Fonte: Batygin, K. & Brown, M. E. (2016). “Evidence for a Distant Giant Planet in the Solar System.” The Astronomical Journal, 151(2), 22. Brown, M. E. & Batygin, K. (2021). “The Orbit of Planet Nine.” The Astronomical Journal, 162(5), 219.
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