“Nem toda cantiga é de amor ou de saudade. Tem cantiga que é pra provocar.”
Mestre Risadinha lançou um olhar malicioso para a roda. “E quando dois capoeiristas estão se estranhando no jogo, o cantador pode botar lenha na fogueira.”
A Cantiga Como Ferramenta de Pressão
Na capoeira, o cantador tem um poder enorme. Ele pode acalmar a roda ou esquentar. E uma das ferramentas pra esquentar é a cantiga de provocação — aquela que cutuca, que desafia, que testa o orgulho dos jogadores.
O corrido “Sim, Sim, Sim / Não, Não, Não” é o exemplo clássico. Solista e coro discordam o tempo todo, criando uma tensão musical que se reflete no jogo:
Solista: Sim, sim, sim!
Coro: Não, não, não!
Solista: Sim, sim, sim!
Coro: Não, não, não!
“Parece brincadeira de criança”, riu Mestre Risadinha. “Mas numa roda quente, com dois capoeiristas se provocando, esse ‘sim/não’ vira faísca. Cada ‘não’ do coro é uma cutucada no ego de quem tá jogando.”
“Dona Maria, Cadê Meu Lenço?”
Outra cantiga de provocação clássica. O solista pergunta, o coro rebate:
Solista: Dona Maria, cadê meu lenço?
Coro: O lenço caiu no mar!
Solista: Dona Maria, cadê meu lenço?
Coro: Foi Iemanjá que levou!
“Na superfície, é uma cantiga sobre um lenço perdido”, explicou o mestre. “Mas na roda, o lenço é uma metáfora. Pode ser a confiança que você perdeu. Pode ser o golpe que você não viu chegar. Pode ser a vergonha de ter caído.”
“O Batuque É Bom”
Uma cantiga que literalmente desafia o ritmo:
Solista: Ô, bate, bate, bate!
Coro: O batuque é bom!
Solista: Ô, bate, bate, bate!
Coro: Que o batuque é bom!
“Essa é das brabas”, disse Mestre Risadinha. “Quando o cantador puxa essa, a roda acelera junto. As palmas batem mais forte. O jogo sobe de temperatura. É a cantiga que transforma a roda numa caldeira.”
Ele fez uma pausa. “Mas com responsabilidade. O cantador que esquenta a roda demais também é responsável pelo que acontece. Música é poder — e poder tem que vir com sabedoria.”
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