“Tudo que começa, termina. Inclusive a roda.”
Mestre Risadinha falou isso com um tom que misturava sabedoria e um pouquinho de tristeza. Porque fechar a roda é sempre um momento agridoce — o corpo cansado, a alma cheia, e aquela vontade de que o jogo nunca acabasse.
“Mas tem um jeito certo de terminar. E a música, mais uma vez, é quem manda.”
As Cantigas de Adeus
Existem cantigas específicas para encerrar a roda. Elas têm melodias mais lentas, letras que falam de partida, de saudade, de “até breve”. São os corridos de despedida, e quando o mestre começa a puxá-los, todo mundo entende: é hora de ir.
A mais famosa delas é “Adeus, Adeus“:
Solista: Adeus, adeus!
Coro: Adeus, adeus!
Solista: Que eu já vou me embora!
Coro: Adeus, adeus!
Solista: Eu vou pra minha terra!
Coro: Adeus, adeus!
Outra muito cantada é “Boa Viagem“:
Solista: Boa viagem, boa viagem!
Coro: Boa viagem!
Solista: Eu vou, eu vou, eu vou!
Coro: Boa viagem!
“‘Adeus, Adeus’ e ‘Boa Viagem’”, explicou Mestre Risadinha, “são as cantigas do fim. Quando o mestre começa a puxar essas, você já sabe: termina o jogo, agradece, bate palma pro berimbau e vai pra casa com o coração cheio.”
O Ritual de Encerramento
Fechar a roda não é só parar de tocar. Existe um ritual:
- O cantador começa a puxar os corridos de despedida.
- Os jogadores que estão na roda terminam o jogo — sem pressa, com respeito.
- Ninguém mais “compra” o jogo. Quem está dentro sai. Ninguém entra.
- O berimbau toca as três batidas finais no chão — toc, toc, toc.
- Palmas para o berimbau. Palmas para os músicos. Palmas para os jogadores.
- A roda se desfaz.
“E tem mais uma tradição”, acrescentou o mestre. “Depois da última cantiga, o mestre ou o cantador às vezes canta uma ladainha de encerramento — uma oração, um agradecimento, uma bênção. Ali, de mãos dadas, a roda vira família.”
Ele sorriu. “A capoeira começa com música e termina com música. Porque a música é o que fica — mesmo depois que o corpo cansa.”
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