A música é a alma da roda de capoeira, e as cantigas carregam muito mais do que melodia: elas guardam ensinamentos, provocações e a malícia que define o jogo. Entre as ladainhas e os corridos mais conhecidos, “Sim, sim, sim, não, não, não” ocupa um lugar especial, pois resume em poucas palavras a ambiguidade e o escárnio que fazem parte da essência da capoeira.
Uma cantiga de escárnio
O escárnio é um dos pilares da capoeira tradicional. Na roda, nada é dito de forma direta; tudo passa pela ironia, pela provocação velada e pelo jogo de palavras. A cantiga do “sim, sim, sim, não, não, não” é um exemplo perfeito desse espírito: a repetição aparentemente simples esconde um comentário mordaz sobre a duplicidade e a esperteza.
A tradição conta que a cantiga brinca com a ideia de que, na capoeira — e na vida —, as coisas nem sempre são o que parecem. Um “sim” pode esconder um “não”, e um “não” pode ser um convite. Essa ambiguidade é justamente a mandinga, a arte de enganar o adversário sem que ele perceba.
A malícia da roda
A malícia é a capacidade de ler o jogo, antecipar intenções e responder com astúcia. Na roda, ela se manifesta no olhar, na ginga e na escolha dos movimentos. A cantiga do “sim” e do “não” alimenta essa atmosfera, lembrando a todos que a capoeira é um jogo de inteligência tanto quanto de corpo.
Quando essa cantiga é puxada, o clima da roda muda. Os capoeiristas ficam mais atentos, os jogos ganham um tom de provocação e o público responde no coro com energia. É um momento em que a música comanda o jogo, ditando o ritmo e a intenção de quem está no centro da roda.
O escárnio na tradição de Pastinha
Mestre Pastinha, o grande guardião da capoeira angola, valorizava as cantigas de escárnio como instrumento de educação. Para ele, o capoeirista precisava aprender a dominar não só o corpo, mas também a palavra, respondendo às provocações com inteligência em vez de violência. A cantiga do “sim” e do “não” encarna exatamente esse ideal.
Nas rodas de angola, o escárnio funciona como um teste de autocontrole. Quem se deixa irritar pela provocação revela fraqueza; quem responde com sorriso e malícia demonstra maturidade. Assim, a cantiga ensina uma lição valiosa: na capoeira, vence quem mantém a cabeça fria e o coração leve.
Estrutura e papel na roda
Como muitos corridos da capoeira, a cantiga tem estrutura responsorial: o cantador puxa os versos e o coro responde. Essa dinâmica de pergunta e resposta é fundamental para manter a energia da roda e integrar todos os presentes, dos jogadores aos que estão na bateria.
O ritmo acompanha o toque do berimbau, geralmente um toque de angola ou de são bento, dependendo da intenção do jogo. A simplicidade da letra permite que todos participem do coro, mesmo quem está chegando à capoeira agora, o que reforça o caráter comunitário da prática.
Variações de uma mesma ideia
Como ocorre com muitas cantigas tradicionais, não existe uma versão única de “Sim, sim, sim, não, não, não”. Cada mestre e cada região imprime suas variações, acrescentando versos, mudando a ordem ou adaptando a letra ao contexto da roda. Essa liberdade é parte da riqueza da tradição oral, que se renova a cada geração.
O essencial, porém, permanece: o contraste entre o sim e o não como metáfora da vida e do jogo. É essa mensagem universal que garante a longevidade da cantiga, mantendo-a viva nas rodas de angola, de regional e de capoeira contemporânea em todo o mundo.
O papel do cantador
A execução da cantiga depende diretamente do cantador, que puxa os versos com energia e malícia. Cabe a ele escolher o momento certo de iniciar a canção, ler o clima da roda e conduzir o coro com firmeza. Um bom cantador transforma a cantiga em um verdadeiro diálogo, provocando os jogadores e instigando o público, mantendo a roda coesa e atenta ao jogo.
A voz do cantador é, em muitos sentidos, a extensão do berimbau: ambos comandam, ambos orientam. Por isso, aprender a cantar é parte fundamental da formação do capoeirista, que deve dominar não apenas o corpo, mas também a palavra e o canto que dão alma à roda e conectam os presentes à tradição.
Um ensinamento que atravessa gerações
Mais do que uma brincadeira, a cantiga do “sim, sim, sim, não, não, não” carrega um ensinamento profundo: na capoeira, é preciso saber quando avançar e quando recuar, quando aceitar e quando negar. O equilíbrio entre essas duas respostas é a chave para jogar bem e viver bem.
Por isso, essa cantiga segue presente nas rodas de todo o Brasil e do mundo. Ela atravessa gerações porque fala de algo essencialmente humano: a arte de navegar entre o sim e o não com sabedoria, humor e, acima de tudo, malícia.
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