A Roda Que Gira Dentro da Roda
No quinto ano do cativeiro do rei Joaquim, um sacerdote exilado caminhava pela margem do rio Quebar, na Babilônia do século VI antes de Cristo, quando o céu, segundo ele, se abriu. O homem chamava-se Ezequiel, e a data, que os estudiosos fixam em torno de 593 a.C., inaugura um dos relatos mais perturbadores da literatura ocidental: quatro criaturas vivas, rodas que se cruzam dentro de rodas, fogo que se entrelaça e um trono que desce do céu. Não é poesia nem profecia no sentido simples — é um texto que parece ter sido escrito por alguém que viu demais e entendeu de menos.
O que os registros dizem
O primeiro capítulo do Livro de Ezequiel é uma peça de engenharia narrativa. Uma tempestade vem do norte; dentro dela, uma grande nuvem e um fogo que se dobra sobre si mesmo, com um resplendor como o de metal polido. Quatro seres vivos emergem do fogo, e cada um tem quatro faces — de homem, de leão, de boi e de águia. Junto a cada ser há uma roda que toca a terra, e cada roda parece conter outra roda em ângulo reto, uma dentro da outra, com aros cheios de olhos. O espírito dos seres está nas rodas: quando os seres se movem, as rodas se movem com eles, sem se virar. Acima das cabeças há um firmamento como cristal; acima do firmamento, um trono como safira; e sobre o trono, uma figura com aparência de homem, cercada de fogo e arco-íris. O texto ainda guarda termos que os tradutores disputam até hoje: galgal, a roda que gira, e hashmal, o metal resplandecente que as versões modernas ora chamam de âmbar, ora de electrum, ora de bronze polido. Ezequiel repete, ao longo da visão, que tudo aquilo era como a aparência — como se a linguagem escorregasse diante do objeto.
A leitura mais improvável desse texto veio de um engenheiro da NASA. Josef F. Blumrich, chefe da divisão de desenho de sistemas do Marshall Space Flight Center e um dos homens que trabalharam no projeto do Saturno V, decidiu em 1973 refutar as teses de Erich von Däniken, que enxergava naves alienígenas em todos os textos antigos. Blumrich comprou a Bíblia, estudou o hebraico original e esperava encontrar exageros. Encontrou, segundo ele próprio, o desenho de um veículo: as rodas dentro de rodas seriam um trem de pouso com rotores cruzados, capaz de decolar e aterrissar na vertical; os olhos nos aros, luzes de sinalização; o fogo que se dobra, o jato de um motor. Em 1974 ele publicou The Spaceships of Ezekiel, o livro que o transformou, contra a própria intenção, no engenheiro mais citado da ufologia.
O que não sabemos
O que não sabemos é quase tudo. Não sabemos se Ezequiel viu algo, alguém ou nenhum dos dois. O texto é a única testemunha; não há crônica paralela, nem arquivo babilônico que confirme o fenômeno. Não sabemos o que significavam os olhos nos aros, nem por que o trono descia e não simplesmente aparecia. E não sabemos o que a tradição mística judaica, a Merkabá, entendia quando consagrou a visão como o mapa do trono de Deus — uma escola inteira de contemplação construída em torno da pergunta: o que Ezequiel viu? O vocabulário do profeta é o único instrumento de que dispomos, e era um vocabulário de sacerdote: altar, trono, safira, arco-íris, querubim. Para descrever máquinas, ele usou as palavras do Templo, porque não possuía outras. E há um detalhe que os comentaristas repetem com fascínio: a visão termina sem explicação. Nenhum anjo desce para esclarecer o que as rodas eram; a voz que fala do trono apenas comissiona o profeta. O símbolo é entregue inteiro, e a interpretação, deixada para os séculos.
O que está em jogo
O que está em jogo é a nossa maneira de ler. Se a visão é puramente simbólica, por que o símbolo inclui engrenagens, rodas em ângulo reto e aros com olhos? Se é literal, por que nenhum outro texto da época descreve algo semelhante? A hipótese de Blumrich — um engenheiro honesto que começou cético e terminou convencido — não prova nada sobre naves, mas prova algo sobre o espanto: profeta e engenheiro, separados por dois mil e quinhentos anos, fizeram a mesma coisa. Ambos receberam um fenômeno que excedia sua linguagem e o traduziram com o repertório disponível — um, o Templo; outro, a aeronáutica. A agência espacial que Blumrich serviu hoje estuda exoplanetas e procura vida fora da Terra; Ezequiel, do outro lado da história, já descrevia algo que vinha do céu e pousava.
A pergunta que permanece
Na margem do Quebar, diante de um rio que não era mais o seu, um homem viu o céu se abrir e escreveu o que viu com as palavras que tinha. Dois milênios e meio depois, outro homem, diante de pranchetas e equações, leu aquelas palavras e reconheceu um desenho. Se a linguagem profética e a linguagem técnica são apenas duas traduções do mesmo espanto, resta uma pergunta que nenhuma das duas responde: o que estava realmente lá, girando dentro da roda, esperando que alguém encontrasse as palavras?
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