Tardígrados — a criatura que sobrevive ao vácuo do espaço, à radiação e a 30 anos sem água

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

O animal mais resistente do planeta não é grande. Não tem garras, dentes ou veneno. Mede meio milímetro. É gordinho, tem oito patas atarracadas e um focinho que lhe rendeu o apelido de “urso d’água”. Seu nome científico é Tardigrada. E é, sem exagero, a coisa viva mais difícil de matar já descoberta.

Tardígrados sobrevivem a temperaturas de -272°C (quase zero absoluto) até 150°C. Sobrevivem a pressões seis vezes maiores que as da Fossa das Marianas. Sobrevivem a doses de radiação ionizante centenas de vezes maiores do que a dose letal para humanos. Sobrevivem à desidratação completa por até 30 anos — e quando recebem água, voltam à vida em minutos. E, em 2007, foram enviados ao espaço — expostos diretamente ao vácuo e à radiação solar sem nenhuma proteção — e sobreviveram. Não “a maioria”. A maioria voltou viva e fértil.

São as únicas criaturas conhecidas que sobreviveram à exposição direta ao ambiente espacial.

O segredo: criptobiose

O truque do tardígrado é entrar num estado chamado criptobiose. Quando o ambiente fica hostil, ele expulsa quase toda a água do corpo (passando de 85% para 3% de hidratação), encolhe, dobra as patas para dentro, e se transforma numa bolinha inerte chamada “tonel”. Nesse estado, seu metabolismo cai para 0,01% do normal — praticamente zero. Ele não está morto. Está suspenso. É como se apertasse um botão de pausa na vida.

Nesse estado de tonel, o tardígrado produz proteínas especiais que encapsulam seu DNA, protegendo-o contra radiação e dessecação. Ele também produz trealose — um açúcar que “vitrifica” as membranas celulares, como se as transformasse em vidro biológico. Quando a água retorna, o vidro derrete e a vida recomeça.

Panspermia: o elefante (minúsculo) na sala

Se tardígrados podem sobreviver ao espaço, isso significa que a vida pode viajar entre planetas. Essa é a hipótese da panspermia: a ideia de que a vida na Terra pode ter vindo de outro lugar — esporos, bactérias ou tardígrados viajando em asteroides ou cometas, sobrevivendo ao vácuo e à radiação, e colonizando novos mundos. Ou o inverso: a Terra pode ter contaminado outros planetas com vida, através de rochas ejetadas por impactos de meteoritos.

Em 2019, a sonda israelense Beresheet, que carregava milhares de tardígrados, colidiu com a Lua. Os tardígrados podem ter sobrevivido ao impacto. Nesse caso, atualmente existem tardígrados na Lua — os primeiros seres vivos terrestres a colonizar outro corpo celeste. Não por escolha. Por acidente. Mas ainda assim: estamos espalhando vida pelo cosmos sem nem perceber.