O Projeto Que Os Deuses Chamaram de Humanidade

Ouvir

Carregando voz…

1582

O Projeto Que Os Deuses Chamaram de Humanidade

Existe um gênero de história antiga que não narra batalhas nem amores, mas algo mais perturbador: um projeto. Nos textos sumérios, a criação do homem aparece menos como milagre e mais como engenharia — com problemas a resolver, materiais a testar, versões que falharam e uma equipe de divindades debruçada sobre a bancada. Se lermos esses tabletes com os olhos de um geneticista, o que emerge não é um mito: é um relatório.

A mitologia da criação suméria descreve um mundo em que os deuses menores — os que cavavam canais e abriam leitos de rio — se revoltam contra o trabalho. A solução encontrada pelos deuses superiores é a fabricação de um substituto: uma criatura de barro capaz de carregar o fardo. O nome que os textos dão a esse ser, em algumas leituras, é lulu — «o trabalhador primitivo» —, uma palavra que não nomeia um ancestral, mas uma função.

O que sabemos

Sabemos que, na versão mais difundida do mito, quem assume o papel de construtora é Ninhursag, também chamada Ninmah, a deusa-mãe — o que os textos antigos chamariam de «senhora do nascimento». É ela quem amassa o barro, quem modela a forma, quem preside o parto do primeiro homem. Ao seu lado trabalha Enki, o deus das águas doces e da sabedoria, o artesão que conhece os segredos da matéria. Em algumas versões do mito, o processo é repetido: os deuses tentam, falham, produzem criaturas imperfeitas — o cego, o estéril, o doente — e cada tentativa exige ajustes. A humanidade, nos tabletes, não surge pronta: é aperfeiçoada.

É essa leitura «geneticista» que Zecharia Sitchin levou ao extremo. Para ele, os Anunnaki não seriam deuses, mas uma civilização vinda de outro planeta, que teria encontrado na Terra o trabalho pesado de que precisava. Incapazes de usar os primatas locais como operários, teriam feito o que qualquer laboratório faria: modificar a matéria-prima. O Homo sapiens, nessa leitura, seria um produto — um primata local «atualizado» com material genético dos visitantes, fabricado em série para servir de mão de obra. A academia rejeita a hipótese por falta de evidência; o que ela não consegue rejeitar é a pergunta que Sitchin soube formular: por que tantos textos antigos insistem que o homem foi feito, e não apenas nasceu?

O que não sabemos

Não sabemos se os tabletes descrevem um evento, uma metáfora ou um sonho coletivo. A distância entre nós e a Suméria é de milênios, e os textos chegaram fragmentados, traduzidos, reinterpretados. O que sabemos de fato, por outras vias, é que a biologia moderna desenhou um quadro estranhamente parecido com o mito: o Homo sapiens moderno não descende de uma linhagem limpa, mas de um emaranhado de cruzamentos — carregamos DNA de neandertais e de denisovanos, espécies arcaicas que viveram ao nosso lado e que, em algum momento, se misturaram conosco, como documenta a genética de populações. A história da nossa origem, contada pelo DNA, também tem versões, tentativas e sangue misturado.

Não sabemos, tampouco, onde termina a analogia. A engenharia genética humana deixou de ser ficção: ferramentas como o CRISPR permitem hoje editar o genoma com uma precisão que os escribas de Ur atribuíam aos deuses. Se um dia aprendermos a «melhorar» a espécie — a corrigir defeitos, a escolher características —, estaremos fazendo exatamente o que o mito diz que já foi feito conosco. A pergunta então inverte de direção: não é mais «os deuses nos criaram?», mas «quem, entre nós, se tornará deus?».

O que está em jogo

Se o homem é um projeto, a primeira consequência é ética: todo projeto tem um dono, e todo dono tem intenções. As religiões abraâmicas resolveram a questão chamando o dono de Deus e a intenção de amor. A leitura suméria, mais crua, chama o dono de empregador e a intenção de trabalho. Entre uma versão e outra, muda tudo: se fomos criados para amar, a nossa falha é pecado; se fomos criados para trabalhar, a nossa falha é greve. A rebelião humana — o desejo de saber, de ascender, de não servir — seria, nos dois casos, o mesmo gesto: o produto que se recusa a ser apenas produto.

Está em jogo, também, a nossa definição de humanidade. Se aceitarmos que somos o resultado de modificações — antigas, naturais ou futuras, deliberadas —, então «ser humano» deixa de ser uma essência e vira um processo. As tentativas de criação que os mitos atribuem a Ninmah encontram eco nas tentativas que a ciência contemporânea ensaia em laboratório, e a fronteira entre o que é dado e o que é fabricado torna-se cada vez mais fina. O barro de hoje se chama genoma, e a oficina nunca esteve tão aberta.

Fechamento

Os tabletes não nos dizem quem assinou o projeto. Mas deixam registrada uma intenção que sobreviveu a todas as traduções: a humanidade foi feita com propósito, e esse propósito estava ligado ao trabalho, à terra e à obediência. A pergunta que nos cabe, agora que nós mesmos aprendemos a editar a vida, é dupla e incômoda: se o projeto existe, quem somos nós — o produto final, ou apenas mais uma tentativa? E, se os deuses nos chamaram de humanidade, o que eles chamariam de nós hoje, olhando para o que fazemos com o barro?

Não some depois da matéria

Radar do hub: Núcleo Hits, Além do Oculto, Bobinho. Sem spray, sem lista comprada.

Radar do hub

Um e-mail quando sair matéria que importa — sem spray de newsletter genérica.

Comentários

Deixe um comentário