O Paraíso Que Vai Desaparecer — Maldivas e a corrida contra o oceano

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

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As Maldivas são o país mais baixo do mundo. A altitude média é de 1,5 metro acima do nível do mar. O ponto mais alto — uma colina na ilha de Villingili — tem 2,3 metros. Para efeito de comparação, se você medir 1,80m, a maior parte do território maldivo está abaixo da sua cabeça.

Isso faz das Maldivas o primeiro país que o aquecimento global vai engolir. E o governo maldivo não está esperando de braços cruzados. Está comprando terras em outros países.

A matemática do desaparecimento

O nível do mar sobe atualmente a uma taxa de 3,7 milímetros por ano. Parece pouco. Mas para um país cuja maior parte do território está abaixo de 1,5 metro, 3,7 mm/ano significa que, até 2100, as Maldivas podem se tornar inabitáveis — não submersas completamente, mas com tanta intrusão de água salgada nos lençóis freáticos, tanta erosão costeira e tantas inundações que viver ali se torna impossível. O IPCC estima que o nível do mar pode subir entre 0,5 e 1,1 metro até 2100. Na estimativa mais otimista, as Maldivas perdem 30% do território. Na mais pessimista, desaparecem.

Diante disso, o governo maldivo adotou uma estratégia que parece saída de ficção científica: está construindo ilhas artificiais. A mais ambiciosa é a Cidade Flutuante das Maldivas — um complexo planejado de 5.000 residências modulares que flutuam sobre uma base de concreto ancorada no fundo do mar, projetada para subir e descer com as marés e o nível do oceano. Não é uma metáfora. Já está em construção. Arquitetos holandeses — os maiores especialistas do mundo em viver abaixo do nível do mar — estão liderando o projeto.

Ao mesmo tempo, o governo criou um fundo soberano para comprar terras na Índia, Sri Lanka e Austrália. A ideia: se o país físico desaparecer, a nação maldiva sobrevive como entidade legal, com território comprado em outro lugar. É a primeira vez na história que um país planeja a própria realocação física devido a mudanças climáticas.

O paradoxo turístico

As Maldivas são um dos destinos de luxo mais famosos do mundo — resorts sobre a água, bangalôs com piso de vidro, turistas chegando em jatos particulares. Esses turistas chegam em aviões a jato que emitem toneladas de CO2 por voo. O combustível que os trouxe está literalmente afundando o país que vieram admirar. É um paradoxo cruel: as Maldivas se tornaram famosas por sua beleza, e a fama está matando-as.

A questão não é se as Maldivas vão desaparecer. É quando — e o que o resto do mundo fará quando o primeiro país soberano for literalmente apagado do mapa por causa das mudanças climáticas.