O Mecanismo de Antikythera: O Computador de 2.000 Anos

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O naufrágio que revelou o impossível

Primavera de 1900. Uma tempestade desvia um barco de pescadores de esponjas gregos para a costa da ilha de Antikythera, entre Creta e o Peloponeso. Quando o tempo acalma, os mergulhadores decidem explorar os arredores — e encontram, a 45 metros de profundidade, os destroços de um navio romano. O que se seguiu foi uma das descobertas arqueológicas mais extraordinárias da história: estátuas de bronze, moedas, cerâmicas, joias e, entre os detritos, um bloco de calcificação que não parecia grande coisa. Pedra misturada com metal corroído. Foi catalogado, fotografado e esquecido numa caixa do Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

Dois anos depois, em 1902, o arqueólogo Valerios Stais examinava as peças do naufrágio quando notou algo no bloco calcificado: uma engrenagem. O objeto que todos haviam ignorado como concreção marinha continha rodas dentadas de bronze, perfeitamente usinadas, com dentes triangulares minúsculos e precisos. Não era uma joia. Não era um ornamento. Era uma máquina.

E datava de aproximadamente 100 a.C. — dois mil anos antes da Revolução Industrial, mil e quinhentos anos antes dos primeiros relógios mecânicos, num mundo onde a tecnologia mais avançada de transmissão de movimento eram moinhos d’água e parafusos de Arquimedes. O Mecanismo de Antikythera não apenas não deveria existir; sua própria existência questiona tudo que pensávamos saber sobre a tecnologia da antiguidade.

A anatomia do impossível

O mecanismo era originalmente uma caixa de madeira do tamanho de um livro grande — aproximadamente 34 × 18 × 9 centímetros — com mostradores no lado frontal e traseiro, e uma manivela lateral que, ao ser girada, colocava em movimento um sistema de engrenagens que realizava cálculos astronômicos de uma complexidade que ninguém esperava encontrar antes do século XIV.

As análises modernas — principalmente com tomografia computadorizada de raios-X, realizada em 2005 por uma equipe internacional liderada por Mike Edmunds e Tony Freeth — revelaram pelo menos 37 engrenagens de bronze no interior do mecanismo, das quais 30 sobreviveram. Os dentes das engrenagens foram cortados com precisão — em alguns casos, com ângulos de aproximadamente 60 graus, triangulares e uniformes. O diâmetro das engrenagens varia, mas a precisão é consistente: algumas têm mais de 220 dentes. A maior engrenagem, com 223 dentes, media cerca de 13 centímetros de diâmetro.

O que o mecanismo calculava é ainda mais extraordinário. Ele previa:

  • As posições do Sol e da Lua no zodíaco em qualquer data escolhida
  • As fases da Lua — e, crucialmente, a anomalia lunar, o fato de que a órbita da Lua é elíptica e sua velocidade aparente varia ao longo do mês. O mecanismo modelava isso usando duas engrenagens ligeiramente desalinhadas — um sistema de engrenagens epicíclicas que gera movimento variável, exatamente como o movimento real da Lua
  • Os eclipses solares e lunares, incluindo o mês e a hora, com um ciclo de previsão de 223 meses (o ciclo de Saros)
  • A posição dos cinco planetas conhecidos na antiguidade — Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno
  • As datas dos Jogos Pan-helênicos (Olimpíadas, Jogos Píticos, Ístmicos, Nemeus e os jogos de Dodona) — um detalhe que sugere que o mecanismo tinha também uma função social e cultural

O mostrador frontal incluía um zodíaco e um calendário egípcio de 365 dias, com um ano bissexto a cada quatro anos. A parte traseira tinha dois mostradores em espiral — um superior representando o ciclo metônico de 235 meses (19 anos) e um inferior representando o ciclo de Saros para eclipses. Havia ainda pequenas esferas — pintadas de preto e branco — que giravam para indicar as fases da Lua, tornando o mecanismo não apenas um computador analógico, mas um planetário portátil.

Quem poderia ter construído isso?

As inscrições no mecanismo — cerca de 3.400 caracteres de texto grego, parcialmente lidos por tomografia — fornecem pistas sobre sua origem. O calendário utilizado é o coríntio, e o texto menciona cidades onde os jogos eram realizados, sugerindo que o mecanismo foi construído para um cliente ou público com interesses no mundo grego em sentido amplo.

A teoria mais aceita é que o mecanismo veio de Rodes, um centro de astronomia e engenharia no século II a.C. Ali viveram Hiparco de Niceia, o maior astrônomo da antiguidade, e Posidônio, filósofo e polímata que mantinha uma escola em Rodes. Hiparco foi o primeiro astrônomo a descobrir a precessão dos equinócios e a medir com precisão a duração do ano solar. Ele também desenvolveu a teoria dos epiciclos — o sistema de círculos sobre círculos — que explicava o movimento aparente dos planetas. O mecanismo de Antikythera é a materialização em bronze da teoria astronômica de Hiparco.

Mas há outra possibilidade, defendida por alguns historiadores: Arquimedes de Siracusa, que viveu um século antes (287–212 a.C.), construiu planetários mecânicos descritos por Cícero, que visitou Siracusa cerca de 150 anos após a morte de Arquimedes e descreveu uma “esfera” que reproduzia os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Cícero escreveu: “Quando Arquimedes colocou numa única esfera os movimentos do Sol, da Lua e dos cinco planetas, ele realizou o que o deus de Platão fez na construção do universo — que um único giro controlasse movimentos muito diferentes em velocidade e lentidão.” O saque de Siracusa pelos romanos em 212 a.C. dispersou os inventos de Arquimedes. O navio de Antikythera, que ia da Grécia para Roma, pode ter levado um desses mecanismos como espólio de guerra.

Uma tecnologia que desapareceu

O aspecto mais desconcertante do Mecanismo de Antikythera não é sua existência — é sua solidão. Nenhum outro dispositivo comparável foi encontrado nos registros arqueológicos gregos ou romanos. Se os gregos do século II a.C. eram capazes de construir computadores analógicos com engrenagens epicíclicas, por que não construíram mais? Por que a tecnologia não se difundiu?

Parte da resposta pode estar no colapso do mundo helenístico. O século seguinte à criação do mecanismo viu a ascensão de Roma, a destruição de Corinto e Cartago, e o declínio dos centros de conhecimento gregos. O que não foi destruído pela guerra foi soterrado pela indiferença romana à ciência teórica grega — os romanos eram engenheiros pragmáticos (aquedutos, estradas, pontes), não astrônomos teóricos. O conhecimento necessário para fabricar um mecanismo de Antikythera pode ter existido na cabeça de um número muito pequeno de artesãos e astrônomos — talvez uma dúzia, talvez menos. Quando esses homens morreram sem discípulos, ou quando suas oficinas foram saqueadas, a tecnologia morreu com eles.

Isso torna o Mecanismo de Antikythera duplamente extraordinário: ele prova que o mundo antigo era capaz de engenharia de precisão que rivalizava com o século XVIII. Mas também é uma advertência sobre a fragilidade do conhecimento — a tecnologia não é uma escada que sempre sobe. Ela pode ser perdida. Pode ser esquecida. Pode repousar por dois mil anos no fundo do mar, esperando que alguém — um pescador de esponjas numa tempestade, um arqueólogo curioso, um scanner de raios-X — a traga de volta à luz.

Fontes

  • Freeth, Tony et al. — “Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism” — Nature (2006)
  • Freeth, Tony et al. — “The Antikythera Mechanism: The Construction of the Cosmos” — volume especial do projeto de pesquisa (2021)
  • Price, Derek de Solla — “Gears from the Greeks: The Antikythera Mechanism — A Calendar Computer from ca. 80 B.C.” — Transactions of the American Philosophical Society (1974)
  • Cícero — De Re Publica, Livro I — menção aos planetários de Arquimedes
  • Museu Arqueológico Nacional de Atenas — coleção do naufrágio de Antikythera
  • Marchant, Jo — “Decoding the Heavens: A 2,000-Year-Old Computer and the Century-Long Search to Discover Its Secrets” (2009)

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