Uma cidade sobre as águas do Pacífico
No extremo ocidental do Oceano Pacífico, a 3.700 quilômetros do continente mais próximo, existe uma ilha chamada Pohnpei, parte dos Estados Federados da Micronésia. Sua costa sudeste esconde uma das maravilhas arqueológicas menos conhecidas do mundo — e uma das mais desconcertantes. Nan Madol é uma cidade construída sobre recifes de coral, composta por 92 ilhas artificiais interligadas por uma rede de canais navegáveis. As ruínas se estendem por 1,5 quilômetro de comprimento e 0,5 quilômetro de largura, e tudo — absolutamente tudo — foi construído com colunas de basalto de até 50 toneladas.
O nome “Nan Madol” significa “espaço entre” ou “recinto” na língua pohnpeiana, e o lugar carrega um apelido bem merecido: a Veneza do Pacífico. Mas, diferentemente de Veneza — construída com milhões de estacas de madeira cravadas numa laguna —, Nan Madol foi erguida com pedra vulcânica, numa escala ciclópica, por uma civilização que não tinha acesso a rodas, roldanas, metais ou animais de carga. A pergunta que ecoa entre os canais cobertos de vegetação é simples e devastadora: como?
A arquitetura do impossível
A construção de Nan Madol ocorreu aproximadamente entre 1.200 e 1.500 d.C. — um período em que a Europa erguia catedrais góticas e a China da dinastia Song fabricava pólvora e papel-moeda. Mas, diferentemente desses centros civilizacionais, Pohnpei era um mundo insular isolado, com população estimada em 25.000 pessoas no auge da dinastia Saudeleur — os governantes que construíram Nan Madol.
O material de construção não era tijolo ou madeira — era basalto colunar, um tipo de rocha vulcânica que, ao resfriar, forma prismas hexagonais naturalmente, como na Calçada dos Gigantes na Irlanda. As colunas de basalto eram extraídas de pedreiras localizadas a quilômetros de distância, no lado oposto da ilha de Pohnpei, em locais como Sokehs e Temwen. Algumas colunas têm até 7,5 metros de comprimento e pesam estimadas 50 toneladas.
O volume total de pedra movimentada para construir Nan Madol é estimado em 750.000 toneladas métricas. Para efeito de comparação, a Grande Pirâmide de Gizé contém aproximadamente 5,9 milhões de toneladas — mas o Egito tinha um império de milhões de pessoas, animais de tração, rampas, trenós e a roda. Pohnpei não tinha nada disso. Cada bloco foi extraído, transportado e empilhado por força humana bruta — e possivelmente por métodos que a arqueologia convencional ainda não compreende completamente.
Como moveram 50 toneladas sem rodas?
A tradição oral pohnpeiana oferece uma resposta que a ciência ocidental reluta em aceitar: os construtores de Nan Madol usavam magia. Segundo as lendas, dois irmãos feiticeiros — Olosohpa e Olosihpa — chegaram a Pohnpei vindos de uma terra distante a oeste. Eles queriam construir um altar para o deus da agricultura, Nahnisohn Sahpw. Usando seus poderes, fizeram as enormes colunas de basalto voarem pelo ar, empilhando-se em seus devidos lugares como se obedecessem a um comando invisível.
A arqueologia, compreensivelmente, busca explicações menos sobrenaturais. A teoria predominante — defendida por arqueólogos como Rufino Mauricio, o principal especialista pohnpeiano no sítio — é que as colunas eram transportadas por jangadas de bambu através dos canais e da laguna, aproveitando a flutuabilidade para mover cargas que seriam impossíveis em terra. O basalto era extraído em colunas naturalmente prismáticas, e a água reduzia drasticamente o peso efetivo. As jangadas, carregadas com algumas colunas de cada vez, percorriam os quilômetros entre as pedreiras e o sítio de construção, impulsionadas por remadores ou aproveitando correntes.
A hipótese das jangadas é plausível, mas não resolve todos os problemas. Como as colunas eram retiradas das jangadas e erguidas a alturas de até 16 metros em algumas paredes? As paredes de Nan Madol são construídas no estilo “casa de toras” — colunas alternadas longitudinal e transversalmente, como se fossem troncos empilhados, criando muros extremamente estáveis. Mas cada “andar” de colunas exigia que os construtores levantassem blocos de várias toneladas a alturas progressivamente maiores — sem guindastes, sem roldanas metálicas, sem andaimes de madeira (escassa na ilha).
Alguns pesquisadores sugerem rampas de terra que foram posteriormente removidas. Mas a logística de construir e desmontar rampas de terra numa ilha de coral, para erguer 92 ilhas artificiais com muros de até 16 metros, é quase tão impressionante quanto a construção em si.
A ascensão e queda dos Saudeleur
Nan Madol era a capital cerimonial e política da Dinastia Saudeleur, que governou Pohnpei de forma centralizada por cerca de 500 anos. O complexo era dividido em duas partes: Madol Pah, a cidade baixa, área administrativa e residencial; e Madol Powe, a cidade alta, recinto sagrado onde viviam os nobres e os sacerdotes, e onde cerimônias religiosas eram realizadas em câmaras muradas.
A ilha artificial mais impressionante é Nan Douwas, um recinto funerário real com paredes externas de 7,5 metros de altura, cujas colunas de basalto — algumas de 5 toneladas — foram encaixadas com tanta precisão que, após 500 anos de terremotos, tufões e invasão de vegetação tropical, permanecem praticamente intactas. No interior, uma câmara subterrânea servia como cripta real, e os arqueólogos encontraram oferendas funerárias e restos humanos que confirmam seu uso como tumba dos Saudeleur.
Por volta de 1.500 d.C., a dinastia Saudeleur foi derrubada por Isokelekel, um guerreiro lendário que, segundo a tradição oral, chegou a Pohnpei com 333 homens vindos de Kosrae, a ilha vizinha. A queda dos Saudeleur foi sangrenta e definitiva: o último Saudeleur, Saudemwohl, foi morto, e Nan Madol entrou em declínio. Os novos governantes — o sistema de chefaturas decentralizadas conhecido como Nahnmwarki — não mantiveram a cidade. Ao longo dos séculos seguintes, Nan Madol foi lentamente engolida pela vegetação tropical, seus canais assorearam, e a Veneza do Pacífico se transformou numa ruína fantasma.
Hoje, Nan Madol é Patrimônio Mundial da UNESCO — e simultaneamente um sítio em perigo, ameaçado pela elevação do nível do mar e pelo crescimento descontrolado de manguezais. A cidade que desafiou a gravidade pode, ironicamente, ser destruída pela água que a protegeu.
Fontes
- Morgan, William N. — “Prehistoric Architecture in Micronesia” (1988)
- Ayres, William S. — “Nan Madol, Pohnpei” — relatórios de escavação (1978–2000)
- Mauricio, Rufino — “Nan Madol: Ceremonial Center of Eastern Micronesia” — UNESCO World Heritage nomination (2016)
- Rainbird, Paul — “The Archaeology of Micronesia” (2004)
- UNESCO — World Heritage List: “Nan Madol: Ceremonial Centre of Eastern Micronesia” (inscrito 2016, em perigo 2016)
- Ballinger, Bill S. — “Lost City of Stone: The Story of Nan Madol, the ‘Atlantis’ of the Pacific” (1978)
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