Capoeira no Estado Novo

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O período do Estado Novo, a ditadura comandada por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945, foi decisivo para a história da capoeira. Foi nesse contexto que a arte, criminalizada havia décadas, começou a ser oficialmente tolerada e, em certa medida, revalorizada. Mas essa virada veio acompanhada de uma disputa sobre o que a capoeira deveria ser: esporte, cultura ou algo a ser domesticado.

O peso da criminalização

Para entender o que aconteceu no Estado Novo, é preciso voltar a 1890, quando o Código Penal republicano criminalizou expressamente a prática da capoeira. Nas décadas seguintes, a repressão policial foi intensa, sobretudo no Rio de Janeiro, então capital federal. A capoeira era associada à vadiagem e à violência, e seus praticantes eram perseguidos com rigor.

Apesar da proibição, a capoeira nunca desapareceu. Continuou sendo praticada nas margens, em terreiros, festas e espaços populares, longe dos olhos do poder. Essa resistência silenciosa preparou o terreno para a mudança de status que viria nos anos 1930, quando o discurso oficial sobre a cultura nacional começou a mudar.

A criminalização deixou marcas profundas na memória coletiva da capoeira. Por décadas, os praticantes viveram sob o estigma de marginais, e muitos escondiam sua arte para sobreviver. Essa experiência de perseguição é parte essencial da identidade da capoeira e explica, em parte, a discrição e a malícia que marcam seu jogo.

Vargas e a valorização do nacional

O governo Vargas investiu fortemente na construção de uma identidade nacional brasileira. Nesse projeto, as manifestações populares passaram a ser vistas com outros olhos: o samba, o futebol e também a capoeira começaram a ser reinterpretados como expressões autênticas do povo brasileiro, símbolos de uma nação que se queria forte e unificada.

Foi nesse ambiente que a capoeira ganhou espaço. A mudança, porém, não foi uma simples liberação. O Estado passou a tolerar e até estimular uma capoeira disciplinada, organizada em academias e praticada como ginástica ou esporte. A capoeira de rua, espontânea e associada à malandragem, continuava malvista. A aceitação vinha com a condição de que a arte se enquadrasse nos padrões oficiais.

Esse movimento fazia parte de uma política mais ampla de apropriação das culturas populares pelo Estado. O que interessava era o que podia ser exibido como símbolo nacional, não a realidade dura das periferias. A capoeira, assim como o samba, passou por um processo de “limpeza” e de institucionalização, com perdas e ganhos.

Bimba e a capoeira regional

O nome de Mestre Bimba é central nesse processo. Em Salvador, Bimba criou, nos anos 1930, a chamada Luta Regional Baiana, uma capoeira com estrutura de ensino, sequências de golpes e forte apelo atlético. Ao apresentar seu trabalho às autoridades, inclusive em demonstrações para Getúlio Vargas, Bimba ajudou a legitimar a capoeira aos olhos do poder.

A apresentação de Bimba a Vargas, frequentemente lembrada como um marco, simboliza essa aproximação entre a capoeira e o Estado. A partir dali, a capoeira regional ganhou reconhecimento e se espalhou pelo país, ao mesmo tempo em que a capoeira angola, de tradição mais ritualizada, também buscava seu lugar no novo cenário.

A contribuição de Bimba, porém, não deve ser lida apenas como adesão ao projeto do Estado. Ao criar um método de ensino e ao abrir espaço para a capoeira entre as camadas médias urbanas, ele também foi um estrategista que soube usar o momento histórico a favor da sobrevivência e da difusão da arte.

Esporte ou cultura?

A pergunta que atravessa o período é o que a oficialização custou à capoeira. Ao ser aceita como esporte, a arte ganhou legitimidade, mas também sofreu pressões para abandonar aspectos considerados indesejáveis: a malícia, a improvisação, a ligação com a religiosidade e com a cultura de rua. Parte da crítica contemporânea vê nesse processo uma domesticação.

Outros pesquisadores, porém, lembram que foi graças a essa estratégia que a capoeira sobreviveu e se expandiu. A história da capoeira no Estado Novo é, portanto, uma história de negociação: a arte cedeu em alguns pontos, mas conquistou o direito de existir publicamente. Compreender esse equilíbrio é essencial para entender a capoeira que praticamos hoje, com suas tensões entre tradição e modernização.

O legado desse período é ambíguo e ainda hoje alimenta debates. Se, por um lado, a oficialização abriu portas para que a capoeira deixasse de ser crime e se tornasse prática reconhecida, por outro, deixou cicatrizes na forma como a arte é vista — por vezes mais como ginástica do que como cultura viva. Compreender o Estado Novo é, portanto, compreender um momento em que a capoeira precisou negociar sua própria identidade para sobreviver. E é também reconhecer que, apesar de todas as pressões, a essência da arte — sua malícia, sua música, sua memória — atravessou o período e chegou até nós, mais forte e mais plural do que nunca.

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